O carro marrom gemeu alto enquanto seguia quarteirão abaixo e o motor, de tão antigo que era, parecia prestes a morrer de uma vez por todas, trazendo insegurança ao motorista que começava a desacelerar. Lance desceu os óculos escuros para enxergar melhor a rua pelo retrovisor e parou no meio-fio.
Assim que saiu do veículo, esperou alguns segundos e o trancou, seguiu pela calçada ao lado da melhor amiga que carregava algumas caixas nos finos e delicados braços. As queixas soando agressivas e ranzinzas, mas extremamente engraçadas aos ouvidos experientes do McClain que sorriu de ladinho, se perdendo em observar a calçada de pedra por onde andavam.
Lance suspirou, irritadiço e seus ombros se arquearam quando parou, se virando para encarar os cabelos esvoaçantes dela.
— Não temos o dia inteiro, Pidge – chamou alto e se aproximou para pegar algum dos embrulhos, os olhos da garota brilharam por detrás dos olhos e estava mais irritada que antes. Primeiro, quem acordava alguém cedo para pedir um favor e tratava a pessoa com pedradas e, segundo, por que disse sim? Que espécie de masoquista ela se tornava pelo melhor amigo de coração partido?
— Para de mandar — rebateu e bufou.
— Então agiliza.
Pidge não era de obedecer fácil, mas ao reparar em como a expressão do amigo continuava morto prefiro se contentar. Tratou de apressar os passos e seu calçado fazia mais estrondo a cada passo que dava rumo aos portões dourados do aglomerado de dormitórios onde Lance decidiu viver.
Depois de semanas, quase um mês, negando totalmente a ideia de morar com um colega de apartamento que não entenderia seus hábitos e refutando que as discussões na sua casa eram melhores, embora soubesse que não, escolheu ficar ali. Onde sabia que a privacidade seria melhor, que o silêncio seria mais reconfortante que o de seu antigo lar onde, mal abria a boca para comentar sobre seu dia, e já era criticado. Obrigado a se justificar por chegar tarde, por estar com um perfume forte e masculino, que não lhe pertencia, pelas marcas em seu pescoço quase todas as noites e homens aleatórios que chegavam na sua casa para deixá-lo de madrugada, ou no meio da noite.
Lance andou um pouco atrás da garota, devagarinho, olhando em volta o tempo inteiro como se fosse a primeira vez que entrava ali, que via aquelas fachadas descascando e pichações estranhas de pintos nas escadas de pedra.
As flores mortas perto dos corrimões enferrujados e no lugar aonde ficavam as bicicletas estava uma moto vermelha, no mesmo modelo da que Keith tinha desde os dezesseis anos, no entanto, em um estado mais deteriorado, falta uma roda e, mesmo que colocassem, Lance duvidaria que fosse funcionar.
O motor deveria estar morto. Que nem o brilho nos olhos de McClain que não sorria a dias.
Especificamente, os dias que Keith sumiu. Que não respondeu suas mensagens e não atendeu nenhuma das trezes ligações, apenas deixou que tocasse até chegar na caixa postal e cair.
Ele não deu as caras e não mandou notícias para ninguém além de Anna.
Curto e rápido. Uma simples troca de informações dizendo que ia passar um tempo fora e que ela descontasse dos dias como suas férias antecipadas. Não explicou o porquê de sumir de repente, ainda no início das férias da faculdade e nem Shiro dava as caras no café, o que era surpreendente, devido aos sérios problemas que ele tinha com cafeína.
Na verdade, se fosse lembrar da última vez que o viu, foi duas semanas depois de Keith visualizar sua última mensagem perguntando Como você está, Lance pagava uma hora extra no caixa devido à falta de funcionários e não teve tempo para ir conversar com o professor, mas pode perceber as olheiras profundas, como se não dormisse há dias, e a vermelhidão nas bochechas, nas bolhas sob as pupilas. Um possível choro envolvido.
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𝘉𝘦𝘤𝘢𝘶𝘴𝘦 𝘐 𝘩𝘢𝘥 𝘶 - 𝘒𝘭𝘢𝘯𝘤𝘦
FanfictionDeveria ser apenas uma noite normal, música alta, bebidas em exagero e dança, ou seja, só diversão e nada mais. Só que as coisas foram parar em um rumo bem diferente do imaginado. Lance acabou se viciando e, esse vício, tinha nome e sobrenome: Keith...
