Caixa das Lembranças

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Depois de abrir, fechar, empilhar, tirar poeira e empilhar de novo, nós acabamos de arrumar o porão. Mas não foi só isso. Dei a ideia de colocar umas prateleiras nas paredes e no meio de tanta coisa que tinha naquele lugar -- fique surpreso-- achamos um sofá. Isso mesmo, um sofá. No final das contas, o porão se tornou quase um local de lazer. Com a iluminação que Ana fez, guardando algumas para a loja, ela deixou o ambiente aconchegante.

Mesmo assim, ainda tínhamos uma pilha de caixas que batizamos como ''Pote de ouro''. Tinha muitas relíquias que poderiam dar um bom dinheiro para a loja, então pesquisamos um lugar para trocar ou vender essas coisas e encontramos na internet um leilão que iria acontecer no dia seguinte. Seria o lugar perfeito para vender coisas antigas e era para lá que Ana iria.

--- Precisamos de um carro.--- Cruzo os braços, vendo as cincos caixas cheias de coisas.--- Nenhum Uber vai querer levar tanto peso, muito menos para a cidade vizinha.

--- Posso pedir o carro emprestado do pai da Nathalia.--- Ana fala, lacrando a última caixa.--- Ela já nos emprestou antes, não vai ser um problema.

--- Nathalia?

--- Sim...--- Ana sorri.--- É uma velha amiga minha, dos tempos de escola.

--- Ah...

Depois de terminar de arrumar as coisas para amanhã, saímos da loja e esperamos o Sr Carlos fechar. Como hoje eu vim de ônibus, não é todo dia que eu posso usar a moto não é mesmo?, me despeço dos dois e começo a andar até o ponto.

--- Não veio de moto?--- Ana fala mais alto já por conta da distância.

Me viro e levanto os braços, dando os ombros.

--- O que eu posso fazer? Eu não sou rico.--- Sorrio e Ana revira os olhos.

--- Até amanhã Eduardo!--- Ela se vira, acenando, sem ligar para o meu sarcasmo.

Até que não demora para eu chegar em casa. Minha mãe já estava jantando enquanto assistia a novela das oito e, sem tirar os olhos da tela, indicou onde estava a comida.

Vou até a cozinha e esquento tudo no microondas. Não tinha a menor possibilidade de aquecer no fogão. Eu estava quebrado de tanto guardar e separar coisas e estaria pior se Ana não tivesse me ajudado. Mas valeria a pena, íamos conseguir arrecadar um bom dinheiro e isso seria ótimo.

Suspiro, cansado, fechando os olhos pra descansar um pouco. Ouço os passos de minha mãe entrando na cozinha. Espião com o canto dos olhos e ela está parada me encarando com uma expressão curiosa. Abro por completo os olhos espero, porque sei que ela vai falar alguma coisa.

--- Você está levando bem a sério esse trabalho em...--- Ela coloca o prato na pia, se virando para mim, encostada no balcão.--- Você quase não me fala sobre o seu emprego.

Repentinamente fico nervoso. Óbvio que eu não falava muito do meu emprego principalmente pelo fato de não estar empregado de verdade.

--- Me desculpa mãe.--- Coloco várias colheres de arroz na boca, deixando minha fala confusa.--- La eu... ajudo... vários CD's... luzes... Leilão... dinheiro...

Olho para ela e minha mãe está mais perdida que cego em tiroteio. Engulo toda a comida com um pouco de dificuldade. Ela puxa uma cadeira e senta bem a minha frente, me encarando. Dona Rosa não é uma pessoa fácil de enganar.

--- Eu não entendi nada, então engole isso e me explica direito.

Dou um sorriso amarelo, deixando o prato quase vazio de lado. Eu não gostava de mentir para ela, não queria fazer isso. Então decidi contar tudo. Exceto a parte de que quase roubei o emprego de alguém para sustentar outra mentira que contei para Emily. Depois de dar detalhes sobre a loja e a situação atual minha mãe se encosta na cadeira, ressentida.

O Perfeito Amor VerdadeiroOnde histórias criam vida. Descubra agora