João estava esperando por mim na saída da aula segurando um enorme copo de refrigerante na mão esquerda e um sanduíche na outra mão enquanto tentava não deixar a mochila cair do ombro.
- Oi, gata! - Ele me deu um beijo. - E aí, como foi a aula?
- Normal. E a sua?
- Nós falamos sobre futuro, ou seja, faculdade. E isso me fez lembrar daquela nossa última conversa... Daqui a pouco termina o ano e você ainda não decidiu sobre o lance da faculdade. Pelo menos o curso você já deveria ter escolhido. Mas até agora nada.
João queria que estudássemos na mesma universidade, mas a probabilidade de isso acontecer era menor que zero, levando em consideração que ele podia se dar ao luxo de escolher. Ele queria ser advogado. Aos vinte e cinco anos ele estaria casado e feliz, com dois filhos e um a caminho, um cachorro e uma garagem com três carros, ou seja, o pacote completo. Ele disse que não suportava pensar que estaríamos separados por quatro anos e que, mesmo se não estudássemos na mesma universidade, deveríamos dar um jeito de ficarmos juntos. Fisicamente juntos. Ele andava me pressionando muito. Ele queria um compromisso sério. Depois de dois anos juntos eu não achava que ele estava errado desejando isso. No começo do namoro eu desejava o mesmo que ele, mas acontece que nos últimos meses muita coisa tinha mudado e eu já não tinha certeza de mais nada.
- Hmm, eu vou tentar pensar sobre esse assunto. Na verdade eu já tenho algo em mente. Vou tentar focar mais nisso... - disse vagamente, mentindo. Eu fugia desse assunto como o diabo foge da cruz.
Nós continuamos andando pelo corredor em silêncio. Tínhamos ainda uma aula antes de finalmente sermos liberados. João tinha planos para aquela noite, íamos para a casa dele maratonar a última temporada de Brooklyn 99, mas eu podia apostar que João tinha outras intensões. Em outro tempo, uns meses atrás, eu teria me animado muito com a possibilidade de estar sozinha com João. Era estranho como agora eu só desejava que aquela noite se resumisse apenas em assistir à série.
Quando viramos a esquina no corredor, eu a vi. Marcella. Ela conversava com uma menina que, dessa vez, não era Bianca. Era uma menina de cabelos castanhos. Foi a primeira vez que a vi sorrindo, e era uma imagem muito bonita, ela tinha covinhas profundas e um sorriso meigo. Me perguntei o que a menina de cabelos castanhos tinha falado para que ela sorrisse assim.
Nos aproximamos delas e o olhar de Marcella encontrou o meu. Ela tinha aquele mesmo olhar curioso como da primeira vez que tínhamos nos visto. Eu desviei o olhar para meus próprios pés sem poder lidar com aquela intensidade toda.
No instante seguinte ao que passamos pelas duas, ouvi uma exclamação e depois a risada baixa de João. Quando olhei para trás, vi que Marcella estava toda molhada e a amiga dela tentava ajudá-la. Olhei para João e ele continuava rindo. Vi que o copo na mão dele estava vazio. Ele tinha jogado todo o refrigerante nela.
- O que você fez???
- Foi uma brincadeira! - disse ele ainda rindo, como se não fosse nada demais e continuou andando comendo do sanduíche.
- Não acredito que ele fez isso... - Eu disse num susurro, ainda sem entender a razão daquela atitude tão idiota. Olhei para onde Marcella estava, não a encontrei. Ela devia ter ido a algum banheiro ou para casa se limpar. Me restou ir para a última aula do dia sozinha.
...
O toque do meu celular me fez dar um salto no meio de um desenho que eu estava terminando de fazer. Fechei o caderno de desenho e desabei sobre a cama para agarrar o celular no quarto toque.
- Alô?
- Gata, nosso encontro está firme para hoje? - João perguntou com a mais insinuante das vozes.
Não era possível que depois de tudo ele tentava agir como se nada tivesse acontecido.
- Depois do que você fez hoje, acha que tem clima pra qualquer coisa? - perguntei completamente indignada.
- É sério que você vai ficar chateada por isso? Foi uma brincadeira, Vitória. Todo mundo na escola faz essas brincadeiras. Aposto que amanhã a sapatão não vai nem lembrar que...
Desliguei o celular sem deixar que ele falasse mais. Não queria ouvir mais nada. Nunca estive tão perto de atirar meu celular na parede. Deveria existir um manual para lidar com a raiva de ter alguém que você ama sendo abertamente preconceituoso. Coloquei as mãos sobre meu colo e elas tremiam. Não continuei a desenhar. Precisava me acalmar. - Ironicamente, desenhar era o que me deixava calma.
Alguns minutos depois, uma batida soou no portão de casa. Saltei da cama e desci pelas escadas. O rosto de João se materializou ali.
- Por favor, vamos conversar. - Pediu.
- Não. - Murmurei em resposta. Me sentia magoada.
João ficou surpreso com a resposta. As sobrancelhas dele saltaram como nunca. Com um suspiro frustrado ele disse:
- Vitória, por favor, para de fazer cena. Não foi nada demais. Eu já disse que foi uma brincadeira. Só isso.
- Você realmente continua achando que foi uma brincadeira. João, você quer que eu diga o que realmente foi aquilo!? Você nem a conhece e jogou um copo de refrigerante no rosto dela! Quando foi que você virou um... - Suspirei para controlar minha respiração. - Por que você fez aquilo com ela, justamente com ela, e não com algum dos seus amigos de sala ou qualquer outra pessoa?
- Foi uma brin...
- PARA! - Gritei, agora completamente furiosa. Olhei diretamente para ele: - Quero saber a verdade, João.
Ele ficou em silêncio por um longo momento. Eu esperei, mas então percebi que ele não falaria. No silêncio dele eu tive a minha resposta.
- Foi porque ela é lésbica, não foi?
João continuou em silêncio.
- Oh, meu Deus! - De repente eu me sentia muito triste. Levei as mãos ao rosto para pressionar as lágrimas que queriam sair. Eu estava diante de uma pessoa que eu não conhecia. Quando João tinha se transformado nessa pessoa? Ou será que ele sempre foi assim?
- Olha, Vi, eu realmente não tive intenção de fazer nada demais. Foi uma... Ok, não foi legal o que fiz. - Admitiu, por fim. - Mas sabe, quando eu vi ela conversando com aquela garota, eu imaginei as duas juntas, andando pela escola de mãos dadas, e, sei lá... Isso é... é ERRADO. Não é normal. Eu agi por impulso. Me desculpa.
- Não é pra mim que você tem que pedir desculpa. É com a pessoa com quem você foi um completo estúpido que você tem que se desculpar. Vá até ela amanhã na escola e peça desculpa pelo que fez. Talvez então eu pense em voltar a falar com você.
Eu não esperei uma resposta, o deixei ali e voltei para casa.
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Quando o Amor Acontece...
RomanceDepois de anos estudando em um colégio militar, Vitória começa a estudar em uma escola de ensino regular. Lá ela conhece Marcella, que vai ajuda-la a descobrir uma nova forma de amor AU
