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Olhei para o prédio imponente do colégio enquanto caminhava em direção a entrada. Era sábado, e sem toda a agitação dos dias de semana, dos alunos indo e vindo e falando entre si, parecia um lugar ainda maior. Um sábado de clima ameno, calmo e silencioso, muito confortável.

Dei bom dia ao segurança e mostrei minha carteira de estudante antes de entrar no prédio.

Não tive muita certeza quando acordei pela manhã se eu queria chegar cedo à reunião e ser obrigada a recepcionar as pessoas desconhecidas que faziam parte do Grupo de Artes, ou se preferia chegar depois que todos já estivessem ali e enfrentar os olhares curiosos. Nenhuma das duas opções soava muita boa para a ansiosa que vivia em mim, mas eu não tinha escolha - não se eu quisesse prosseguir.

Quando subi as escadas até o terceiro andar, comecei a sentir que minha ansiedade tentava tomar meu emocional. Eram tantas projeções que minha mente formava que eu já não sabia mais se realmente queira participar daquilo. Pensei em desistir a cada degrau que subia, ao mesmo tempo eu tentava dizer para mim mesma que estava tudo bem, que iria ficar tudo bem, que tudo daria certo.

No terceiro andar, quando alcancei o patamar, me vi diante de um espaço aberto com cadeiras de espera espalhadas de forma muito organizada, quadros e avisos pendurados nas paredes. Uns poucos metros a frente vi uma entrada de portas duplas totalmente pretas com um visor em cada uma. As duas portas estavam fechadas.

Me adiantei até elas e olhei por um dos visores. Vi  por ele um espaço aberto e muito amplo com o chão totalmente invernisado, próprio para dança, espelhos nas paredes e barras de apoio. Era parte de um lugar muito bonito.

Virei-me quando ouvi passos às minhas costas para ver quem era e me surpreendi quando vi que era Manu, a menina do primeiro ano que tinha uma obsessão pela Dua Lipa.

Manu era muito pequena e parecia tão frágil, ela tinha os cabelos curtos e parcialmente descoloridos - curiosamente era exatamente assim que Dua Lipa usava seus cabelos.

— Você veio à aula de dança? — ela me perguntou com a voz muito calma, e eu quase me vi obrigada a chegar mais perto para entender.

— Ah... Na verdade não.

— Ah, sim. Ok, então. Bom dia — disse ela passando por mim para abrir uma das portas pretas.

— Você sabe me dizer onde fica a sala do Grupo de Artes? — perguntei antes que ela entrasse. Dos dois lados vi que os corredores continuavam com portas, e eu não fazia ideia de qual das portas poderia ser a certa.

— Na verdade o Grupo de Artes não tem uma sala aqui nesse prédio, mas quando se reune costuma ficar na segunda sala seguindo pelo corredor. — Ela apontou para o lado esquerdo e eu logo vi onde era.

— Hm, me desculpa ser invasiva, mas você não deveria estar na reunião também? Você dança, certo? - Vi que ela carregava sapatilhas de ponta gastas na mão e usava um colan por baixo do blusão que vestia.

— O grupo de artes não é uma coisa só. Nós nos dividimos dentro dele: artes cênicas e visuais de um lado, dança e canto de outro. Só nos reunimos quando vamos fazer alguma mostra ou espetáculo. — Manu me explicou, ainda com aquela voz calma, monótona. — Você vai tentar entrar para o grupo de artes?

— Vou, estou aqui para uma audição... ou algo assim.

— O que você faz?

A expressão vaga dela me fez duvidar se ela realmente queria saber ou se estava apenas tentando ser gentil comigo. Mesmo assim respondi.

— Supostamente sei desenhar bem. — falei num tom de brincadeira, tentando contagiá-la.

Manu sorriu, de forma contida - eu estava começando a entender que aquele era apenas o jeito dela.

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