Eu subi as escadas para a aula de química. E quando entrei na sala ela estava lá, sentada à mesa, perto da janela, conversando com a menina de cabelo castanho. Por que ela estava assistindo aula com Marcella? Onde estava Bianca? A tal garota de cabelo castanho não era da nossa turma.
Alguma impulsão me fez ir em frente e interromper o pequeno diálogo das duas.
— Marcella?
Ela piscou algumas vezes olhando para mim. Aparentemente surpresa em me ver.
— Sim?
— Trouxe o formulário? — perguntei.
— Hã... Sim. Só um minuto.
Ela pegou a mochila para procurar. Enquanto isso, ignorando totalmente minha presença, a menina ao lado de Marcella continuou a falar:
— Minha mãe e eu vamos ao salão hoje, posso pedir pra ela pegar você. Não fica muito longe de lá.
— Aqui. — Ela empurrou a ficha para mim. — A propósito, essa é Rayanne. Ray, esta é Vitória, ela vai fazer o teste para tentar entrar para o Grupo de Artes.
— Prazer. — Cumprimentei Rayanne sem muita vontade. Ela acenou apenas - vi desconforto em seu rosto, mas ela soube esconder bem. — Certo, então obrigada pelo favor, Marcella.
Ela sorriu levemente e eu me afastei para me sentar, mas ainda ouvi quando ela respondeu para Rayanne:
— Eu ligo pra você.
Eu respirei fundo. De repente eu estava odiando aquela garota de cabelo castanho que teria a atenção de Marcella.
Professora Catarina voou pela porta para a aula de química pedindo que abríssemos nosso caderno em uma página limpa.
...
Terminei de anotar o que a professora Catarina havia escrito quando o sinal tocou. Juntei minhas coisas, fechei o caderno e guardei tudo na mochila. A próxima aula era de português e a professora Vera talvez quizesse unir duas salas.
— Vitória?
Ergui os olhos e vi Marcella se aproximar da minha mesa; Rayanne tinha ficado um pouco mais distante esperando por ela.
— Oi. — falei, escondendo o sorriso que tinha brotado em meu rosto ao ouvi-la dizer o meu nome.
— Vim dizer a você que nós, eu e o resto do Grupo de Artes, vamos nos reunir no final da semana para discutir sobre sua entrada no grupo. Queria saber se você vai pode vir?
— Claro, eu posso. Onde vai ser?
— Nós costumamos nos reunir na sala ao lado do estúdio de dança no terceiro andar. A escola fica aberta para atividades extra curriculares nos finais de semana, então não há problema.
— Eu vou estar lá.
Ela acenou e se virou para ir, mas eu segurei o braço dela. Mas eu logo soltei quando senti minha mão pegar fogo em contato com a pele dela.
— Alguma dúvida?
— É que... bom, você esqueceu de assinar o formulário, e eu preciso da sua assinatura para entregar. Você poderia fazer isso agora? Tenho que levar à secretaria.
— Claro.
Ela buscou por uma caneta na mochila. Nesse momento vi Tuanny e Natalia passando por Rayanne e entrando na sala. Elas se aproximaram de mim mas diminuíram o passo ao ver que eu não estava sozinha. Tuanny me lançou um olhar que, felizmente, Marcella não viu. Era uma mistura de surpresa com insinuação.
— Aqui está.
Ela sorriu de novo, um sorriso lento e suave, então saiu da sala acompanhada pela amiga.
Ela era tão... Não posso pensar nessa palavra! Eu costumava ficar nauseada ao ver garotas agirem dessa forma com garotos de propósito, apenas para seduzi-los. Tuanny, por exemplo, o jeito como minha amiga abordava os garotos... tão óbvia. Com Marcella, no entanto, era diferente. Ela era naturalmente… sexy. Sem fazer nenhum esforço.
— Me explica o que estava acontecendo aqui. — Tuanny gesticulou em volta. — Não vai me dizer que você está andando com a turma da Marcella agora.
— Nós estávamos apenas conversando. — desconversei, brincando com o zíper da minha mochila. Não queria dizer naquele momento sobre minha possível entrada para o grupo de artes. Se desse tudo errado ou certo eu contaria depois, assim não precisaria lidar com as expectativas de minhas amigas. — O que vocês vieram fazer aqui?
— Te avisar que vamos sair mais cedo.
— Matar aula, você quer dizer. — A corrigi em tom de repreensão. — Onde vão?
— Meu boy conseguiu um lugar pra gente... você sabe, e eu não vou perder isso por nada. E a Natalia vai até o hotel tentar tirar uma foto com o Gusttavo Lima. — disse Tuanny revirando os olhos como se aquilo fosse a coisa mais intediante do mundo.
— Sério, Natalia? — perguntei olhando para ela.
Tuanny e eu tínhamos um sério problema com as ídolos sertanejos de Natalia. A maioria eram homens tóxicos ou eleitores de extrema direita - não que Natalia apoiasse as ideias deles, mas ela os amava, ouvia todos os albuns e sempre que tinha oportunidade ia aos shows escondida. Tuanny e eu respeitávamos as escolhas de nossa amiga, apesar de acharmos que eram escolhas nada inteligentes.
— Por que vocês estão me julgando? A Tuanny vai matar aula pra transar! — Natalia tentou se defender.
— Natalia, você está matando aula pra ver o tóxico do Gusttavo Lima. Sério que você vai querer comparar? — Tuanny replicou.
Natalia cruzou os braços contrariada, mas ficou calada sabendo que estava errada.
— Bom, vejo vocês amanhã então. — Eu disse por fim, sem querer discutir com minhas amigas.
— Tchau, Vi. — Natalia me abraçou.
Natalia já estava na porta da sala quando Tuanny se aproximou e falou no meu ouvido.
— Quero que você saiba que eu não te julgo por pegar o número da Marcella. Aliás, eu teria feito o mesmo! — Ela piscou pra mim e saiu.
Desnorteada, fiquei ali parada, observando Tuanny e Natalia irem embora, sem acreditar no que tinha ouvido de minha amiga. O que Tuanny quis insinuar?
Quando superei o choque daquela afirmação, olhei para baixo e vi o formulário sobre a mesa. E foi só então que percebi que sobre o papel do formulário havia outro muito menor, onde Marcella tinha anotado seu número.
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Quando o Amor Acontece...
RomanceDepois de anos estudando em um colégio militar, Vitória começa a estudar em uma escola de ensino regular. Lá ela conhece Marcella, que vai ajuda-la a descobrir uma nova forma de amor AU
