A Lua já estava quase em pé quando nós chegamos a uma pequena cidade. Ali, as árvores eram usadas como casas e no meio delas havia um corredor com chão de terra que nos levava à maior árvore do lugar. Ela era uma das que produziam luz própria,mas essa mudava de cor. Eu sei que é estranho, mas acredite, era linda.
Muitos homenzinhos e mulherzinhas apareceram na porta de suas casa para ver o que acontecia aqui fora. Muitos deles cochichavam uns nos ouvidos dos outros. Aquilo me lembrou muito meu primeiro dia de aula no ano passado, quando havia voltado do curso de moda com minha mãe. Odiei toda aquela atenção tanto quanto estou odiando agora.
-É ela! - Um deles deixou escapar a frase alto demais e quando percebera arregalou os olhos recebendo uma mão de cada lado para calar sua boca. Sorri meio de lado para ele, não sabendo o que fazer.
Paramos na frente da grande árvore e só depois que desci de meu cavalo pude ver que havia um dos homenzinhos bem velho, sua barba era tão grande que chegava a arrastar no chão. Ele usava uma espécie de vestido com um fio servindo de cinto.
-Já não era hora de chegarem. -O velho disse se aproximando de minha pessoa.
-Está chegando a hora, Lordin.
-Acalme-se Vince, temos o tempo necessário. -Ele puxou meu pulso com força fazendo-me ficar no seu tamanho. -Você se lembrará de tudo, Anne. - disse num sussurro.
Ele sabe meu nome?
-Sabe quando começará seu treinamento? -Vince perguntou fazendo o homenzinho me soltar e virar-se bruscamente para ele.
-Agora.
Tive minha dúvidas se esse tal treinamento iria dar certo pelo fato de eu ter que executá-lo anoite. Anoite!
Cai batendo as costas em uma das raízes de alguma bendita árvore.
-Concentre-se, princesa.- Lordin disse com o mesmo tom calmo que Vince usava.
-Estou tentando! -respondi tentando desviar de outro galho mas sem sucesso.
-Esse é seu problema, você tenta demais....Você já cresceu aqui nesta floresta, Anne. Antes mesmo de se passar por Clair, por Mary, por Katherine e por todas as outras.
-Como é que é? -falei tirando o lenço de um dos meus olhos dando um espaço para vê-lo.
-Não tire a faixa! -Coloquei-a novamente.- Você já passou por isso tantas vezes que já perdi a conta, essa sua reincarnação é parecida com a primeira. Cristina.
-Aé? -Desviei de um galho que vinha em minha direção com velocidade, mas ele voltou, lançando-me para longe.
-Sim sim, vocês são muito parecidas...são mesmo -Disse para si mesmo.
-O que me faz ser parecida com ela? -Desviei de outro galho enquanto eu pulava para outra tora.
-Você é...como posso dizer? -Pulei de um tronco que estava vindo por baixo de mim e depois abaixei por causa do outro, que vinha por trás. Estava pegando o jeito da coisa.
-Eu sou..?
-Você é boa.
Eu não conseguia vê-lo por causa da faixa em meu rosto, mas tenho certeza de que estava sorrindo.
-boa? Por que eu não consigo concordar com o senhor?
-Apenas perceba o que suas ancestrais fizeram e compare com o seu objetivo nestas terras, mas mudando de assunto, pode sair daí antes que alguma árvore a mate.
Retirei o pedaço de pano de meu rosto e pude ver que dois galhos vinham em minha direção. Pulava e abaixava até sair do local.
As árvores pararam de se movimentar quando cheguei perto de Lordin, que segurava um cajado de madeira com uma pedra verde musgo na ponta.
Era a primeira vez que vi algo assim. Um campo de treinamento com árvores que se movimentavam dentro de um lago com várias toras para fazendo um caminho até o outro lado.
Meu objetivo era atravessar o lago sem cair nenhuma vez e não estava sendo muito fácil, pois além disso eu teria que usar uma faixa cobrindo meus olhos.
-E como eu vou saber o que elas fizeram?
-Você saberá, agora vamos voltar para a vila que já esta na hora do jantar! Tem pãezinhos de pó-de-fada! -Falou animado.
Entramos dentro de uma das árvores e dali, posso dizer que devem ter usado o mesmo feitiço da biblioteca, pois era impossível uma cozinha daquele tamanho caber dentro de uma árvore.
Sentei em uma mesa de dois lugares perto da janela, que era redonda com uma tira de madeira separando-a em quatro partes.
Por incrível que pareça, não estava com nem um pingo de fome, ainda estava tentando conseguir entender tudo o que estava acontecendo comigo. Esse ano era para ser o meu último ano na escola e depois eu iria para a faculdade como uma garota normal, iria conhecer alguém com quem iria me casar e assim ia. Agora, conclui o último ano da escola, vim para um mundo mágico e no momento, tento salvar o meu povo de uma feiticeira do mau e além disso, acabo de descobrir que sou uma espécie de reincarnação de uma mulher que praticava magia negra. Tudo bem.
-Posso sentar aqui? -Um homenzinho disse segurando seu prato de sopa com pãezinhos. -Os outros lugares estão ocupados. -Explicou.
-Han... Claro!
-Obrigada! -acomodou-se no lugar em minha frente. -Pãezinhos de pó-de-fada são os melhores! Pena que só são feitos uma vez por ano, sabe. -Sorri em resposta. -Você não é de muitas palavras, não é? Bom, sou Osther, mas pode me chamar de Os.
-Anne.
-Bom te conhecer, Anne. -Falou levantando uma colher de sopa em sua boca e em seguida uma mordida do pão.-Pelo visto Lord não está pegando leve com você, pois Clair não parecia tão cansada quanto você.
-Você a conheceu?
-Claro, ela era namorada do O'Brien. Todos a conheciam. -Sua boca estava tão cheia de comida que eu podia ver tudo o que havia dentro dela quando falava.- Mas mesmo assim, poucos eram os que gostavam da menina.
-Por que? -Perguntei curiosa.
-Ela era, como posso dizer. -Pausa para engolir a comida. - Ela era má.
-Mas ...
-As pessoas acham que ela o enfeitiçou para amá-la, mas acho que não, pois as pessoas não o conhecem como eu. -Minha sobrancelha esquerda se ergueu.
-Você o conhece a quanto tempo Os?
-Desde quando nós éramos crianças, Anne...Bom eu sei que não sou adulto ainda, mas não é culpa minha se a sua espécie amadurece mais rápido.
-Quantos anos?
-Só tenho oitocentos e trinta e dois. - Ótimo! Até uma criança nesse mundo é mais velha do que eu. -E você?
-Eu o que?
-Quantos anos tem?
-Dezessete.
-Bom... Você tem mil cento e setenta e três neste mundo, Anne. Só um pouco mais nova que Dylan.
-Quantos...
- Ele tem mil seiscentos e cinquenta e nove.
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Unusual Life (não finalizada)
FanfictionUma garota não tão normal de São Francisco, Califórnia, descobre que a família de seu pai carrega com eles uma maldição que deixará sua vida de ponta cabeça. NÃO TERMINADA