Intenções

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Sempre que eu assistia a filmes e via os personagens principais se encontrando por acaso mais de uma vez no mesmo dia, achava que era pura ficção. Afinal, na vida real, encontrar alguém com quem você ficou por apenas uma noite, sem conhecê-la de verdade, e vê-la duas vezes no mesmo dia parecia impossível para mim. Nunca acreditei nesse lance de destino, era como um raio caindo no mesmo lugar duas vezes—exceto se você combinasse de ver a pessoa novamente, e, claro, a conhecesse.

Mas, no meu caso, acredito que existam apenas duas opções: número um, o universo está brincando com a minha cara; número dois, eu sou extremamente azarada. Não que encontrar Billie seja um azar, mas vê-la novamente desperta certas sensações que me deixam confusa e frustrada, pelo simples fato de querer beijá-la de novo. Isso me faz questionar minha sexualidade, algo sobre o qual eu tinha certeza... ou achava que tinha. Tudo isso é tão frustrante.

Estava tão presa nos meus pensamentos que nem percebi o momento exato em que Billie se sentou à minha frente. Depois de me ver, ela simplesmente me ignorou, conversou com o pessoal e disse que iria ao banheiro. Enquanto isso, fiz meu pedido e fingi estar interessada no cardápio—pelo menos até ela voltar, pegar o cardápio da minha mão e me lançar seu sorriso mais falso. Apenas franzi o cenho, e ela fez questão de soltar um riso nasal, ignorando completamente minha existência. Então, foquei na conversa do grupo até a comida chegar. Assim que a vi, meus olhos brilharam — eu estava morrendo de fome. Havia pedido dois burritos vegetarianos e um suco natural de maracujá.

— Namore alguém que te olhe assim como a Emma olha para os burritos dela — Lucca comentou, fazendo todos rirem, exceto Billie, que me encarava com uma expressão neutra.

— Eu tô com fome, não enche, Lucca — resmunguei, fazendo bico.

— Sempre achei que vocês dois iam namorar — Adam riu.

— Ew — respondemos em uníssono.

— Emma e Lucca nunca dariam certo namorando — Elle comentou.

— Por quê? — Zoe perguntou, curiosa.

— Porque o Lucca é todo afeminado e a Emma também. Então, eles nunca saberiam quem é "a mulher" da relação — Elle disse, rindo e fazendo os outros rirem também, exceto Lucca, que fechou a cara e mostrou o dedo do meio para ela.

— Eu vou ao banheiro — disse assim que consegui controlar o riso, levantando-me.

— Não vai comer? — Elle questionou.

— Sim, mas volto rápido — respondi, já caminhando.

— Só não se perde no caminho igual fez na festa — Lucca brincou, rindo, e eu mostrei o dedo do meio para ele.

Assim que entrei no banheiro, soltei todo o ar que estava prendendo sem perceber. Lavei o rosto e me olhei no espelho, tentando afastar qualquer lembrança do beijo que ameaçava voltar à minha mente. Chega a ser engraçada a situação em que me encontro agora. O jeito como estar perto dela me faz sentir nervosa e, ao mesmo tempo, desperta algo que eu nem sei explicar. E agora, sabendo que temos amigos em comum e que provavelmente ela estará por perto com frequência, sinto-me feliz... e estranha ao mesmo tempo.

Meus pensamentos foram interrompidos pelo som de uma porta se abrindo atrás de mim. Olhei para o espelho e vi que ela estava entrando no banheiro. Respirei fundo e me virei para sair, mas fui impedida por Billie.

— Fugindo de novo? — ela perguntou, me fazendo encará-la.

— Não, só estava voltando para a mesa — respondi, e ela soltou um riso nasal.

— Não parece ser isso — debochou, e eu revirei os olhos.

— Olha, Billie... me desculpe por ter fugido daquela forma — suspirei, olhando para ela. — Eu nunca beijei uma garota antes, e me assustei com a situação.

— Eu não me importo com a forma como saiu ontem, Emma — disse, seca.

— Então por que está agindo assim? — questionei.

— Eu estou agindo normalmente. Quem fica correndo desesperada quando me vê é você — disse, com um sorriso irônico.

— Eu não fico desesperada e muito menos corro — retruquei, cruzando os braços, irritada.

— Ah, não fica? — Ela se aproximou, e eu, instintivamente, me afastei.

— Não! — respondi, revirando os olhos.

— Então não se importaria se eu ficasse bem próxima a você de novo, certo? — sorriu de lado, e eu senti minhas costas baterem contra a parede.

— Você não pode ficar tão perto de mim, Eilish — murmurei, meu olhar caindo involuntariamente para seus lábios.

— Ah, é mesmo, Emma? E por quê? — ela sorriu, provocante.

Nesse momento, mandei toda a minha sanidade para o espaço. Inclinei meu rosto na direção do dela e selei nossos lábios, aprofundando o beijo assim que ela cedeu.

Ocean EyesOnde histórias criam vida. Descubra agora