capítulo 6 - o frio do Sol

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O tempo estava frio, o dia mais frio que já houvera naquela parte do mundo desde que a Terra se tornou um lugar habitável, todos que viviam próximos a linha do equador se perguntavam o que havia de errado com o clima. Muitos acreditavam que o Deus Sol estava irritado com a humanidade e por isso os punia com o frio terrível, com a ausência do calor do Sol.

Estava sendo a pior das colheitas, as fazendas inundadas pelas chuvas causaram um apodrecimento das plantas, muito pouco se pode salvar, o pouco que tinha era distribuído para que nenhum cidadão passasse fome, não havia mais a fartura de antes.

Os homens estavam alarmados com a situação, fazendo oferendas e sacrifícios para que o Deus Sol aplacasse sua fúria dos humanos e voltasse a aquecê-los e manter as colheitas em dia. Mas o que eles não sabiam era que o Deus Sol não estava em fúria ou em cólera como imaginavam, mas sim em uma profunda reclusão e tristeza, a tal ponto de não mais se dispor a conversar ou sair de seu pequeno, porém aconchegante espaço que se assemelhava a uma casa feita completamente de chamas.

Ace se encontrava deitado no chão flamejante sentindo o calor reconfortante e acalentador o envolver, era tão familiar estar ali, como se o Sol o abraçasse, como se estivesse em seu mais puro e completo lar. Contudo, só se sentia bem em sua superfície, estava reconfortado, mas ao mesmo tempo triste, sozinho e melancólico.

Seu peito apertado dolorosamente enquanto as lágrimas quentes, que logo viravam vapor ao tocar no chão, escorriam por seu rosto, estava assim há tanto tempo que nem ao menos sabia quantos dias ou meses haviam se passado naquele estado solitário, ouvia ora ou outra os outros deuses lhe chamando do lado de fora, mas como ele era o único que conseguia adentrar sem se machucar pelas chamas ninguém lhe incomodava.

Apesar do calor em sua pele e em seu entorno, o Deus se sentia frio por dentro, tão frio quanto os pólos, e vazio, tão oco e seco quanto o tronco de uma àrvore apodrecida e sem vida. O moreno não parecia se importar com mais nada, estava tão desesperançoso, desmotivado e cabisbaixo que nem ao menos se dava conta de que do lado de fora as coisas estavam diferentes e viradas do avesso, nem ao menos sabia que seu estado havia alterado drasticamente o clima natural da Terra.

- Ace, vamos, levanta daí, muitas coisas estão acontecendo agora - comentou Sanji do lado de fora da pequena casa flamejante, Ace nem ao menos se deu ao trabalho de dizer mais nada, apenas virou o corpo para ouvir melhor - o clima está terrível, Ace, a gente não sabe mais o que fazer para melhorar a situação, muitas pessoas estão passando fome, Ace, suas criações estão à beira da morte, está me ouvindo? Diga algo, por favor.

- Minhas... Criações... Estão... Morrendo? - Ace repetiu as palavras lentamente como se não fizessem sentido algum, como se o que o loiro dissesse fosse completamente insano - mas como?

- Está frio demais lá embaixo, o Sol não está mais quente, as plantações foram inundadas pelas tempestades e a guerra entre Atenas e Esparta acabou, Ace, foi declarada a paz entre as duas pólis, você não quer ver? Finalmente não tem mais guerra entre suas criações - questionou o Deus loiro no tom mais amável e gentil que pode - eles são seus orgulhos, não é? Eles precisam de você, Ace, precisam do seu calor, da sua energia para sobreviver.

Ace engoliu em seco processando o que ouvira, suas lágrimas cessaram e o moreno se sentou passando o braço pelo rosto úmido o secando, Ace respirou profundamente e enfim se levantou saindo de seu canto protegido e dando de cara com Sanji do lado de fora. Não podia mais continuar naquela forma, ele era um Deus, tinha suas criações para cuidar e estava decidido a não deixar sua dor e sua tristeza atrapalharem a vida de suas criações.

- Eu vou dar um jeito nisso.

[...]

Ace andava pelas ruas atenienses ao lado de Sanji, o clima havia voltado ao normal, as pessoas comemoravam animadas deixando suas oferendas no templo e, claro, como o bom Deus que era, Ace estava lá as recebendo, observando suas criações sorrindo contentes por saberem que as próximas colheitas não seriam ruins e agradeciam pelo fim da guerra contra Esparta, apesar de terem perdido muitas coisas com o acordo de paz.

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