capítulo 1 - paixões e certezas

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Ace andava sorridente pela pólis ateniense, vendo os cidadãos caminhando e conversando calmamente sobre suas próprias vidas. Uma das coisas que Ace achou interessante de sua criação foi a capacidade de inventar sistemas políticos e de sempre buscar um sentido para tudo, mesmo que fosse religioso e ligado aos deuses.

O moreno se sentou bem perto da àgora ateniense enquanto escutava as diversas conversas que aconteciam ali, algumas mais filosóficas, buscando sentido e o significado de algo, algumas mais políticas e outras mais cotidianas, sobre as vidas alheias e, principalmente, casamentos.

Ace achou interessante a forma que os humanos haviam criado uma instituição para se unirem e darem continuidade a vida, o casamento. Também achava engraçado a forma como alguns grupos de humanos haviam envolvido o ato sexual em algo especial, tratando como se fosse algo íntimo e sagrado, principalmente para as mulheres. Era até mesmo um pouco estranho para o moreno essa ideia envolvida no sexo, algo que parecia tão comum para o Deus Sol, já que conviveu boa parte de sua vida com os deuses, que não pareciam se importar com coisas como a monogamia, e com os animais que não tinham uma constituição cognitiva suficiente para produzirem conceitos tão diferentes.

Apesar disso, o moreno gostava de acompanhar aqueles eventos, principalmente pelo banquete que era oferecido e pelo bolo sésamo que se tornou um de seus doces favoritos. Eram rituais bem diferentes para Ace, e ele acompanhava quase todas as etapas, desde o noivado até o banquete do dia seguinte ao casamento, apenas não acompanhando o momento de consumação do casal, pois não via tanta graça em observar suas criações naquele ato.

Ace suspirou erguendo seu rosto em direção ao Sol, fechando seus olhos e sentindo os raios calorosos acariciarem a pele de seu rosto, a sensação de pertencimento invadiu seu corpo e o dominou por completo, passou longas horas ali, apenas se deixando envolver pelo calor acolhedor que emanava de sua parte maior tão brilhante no céu.

Aqueles momentos de conexão com o seu eu eram sempre enriquecedores e acolhedores, sentir os raios tocarem em sua pele o fazia refletir sobre sua vida, o que queria para si e para suas criações.

Ace queria que suas criações fossem livres e felizes, gostava de vê-las assim, vivendo intensamente seus dias. Entretanto não podia negar que se sentia triste e um tanto desolado quando os via subjugar seus semelhantes, quando após as guerras tomavam outros para si como seus pertences, Ace odiava aquela faceta de sua criação, não as partes das guerras, isso ele entendia completamente, até os animais lutavam entre si, era um mecanismo de defesa e de sobrevivência, apesar das guerras humanas terem atingido um patamar completamente diferente dos animais, mas tomar uma de suas criações que deveriam ser livres como pertences era como se ver caindo de um precipício e não poder fazer nada para mudar o curso do destino.

Quando pensava em intervir no rumo da vida dos humanos as suas palavras voltavam a ecoar em sua mente como um mantra que o impedia de interferir dessa forma: "te dei um pouco da chama da vida, agora você pode fazer o que quiser com ela".

Fazer o que quiserem incluia todos os problemas e inquietações que assolavam o Deus Sol, matar uns aos outros, dominá-los e escravizá-los, fazerem atrocidades, estava tudo ali naquele belo pacote que Ace entregara a humanidade de bandeja: o livre arbítrio. E Ace não queria voltar atrás com sua palavra, não era um Deus de quebrar suas promessas e nunca seria.

- O que posso fazer agora? - perguntou o moreno em um suspiro enquanto observava suas criações que naquele momento eram livres, eram cidadãos atenienses e, portanto, eram livres segundo as leis dos homens.

Ace se levantou e partiu para a Acrópole de Atenas, o ponto mais alto da cidade, onde ficavam os templos que os humanos dedicaram aos deuses. Ace entrou na enorme construção de mármore, o belo e esplendoroso Parthenon, dedicada a deusa que os gregos chamavam de Atena.

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