A música expressa o que não pode ser dito em palavras mas não pode permanecer em silêncio - Victor Hugo
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Denki não poderia estar mais nervoso do que agora. Suspirou e levantou o olhar, observando novamente a placa enorme e onde dizia: "Kaminari Empire of Technology". A empresa da família ficava num dos prédios do centro, num enorme edifício de 24 andares. Só tinha entrado lá uma vez na vida, e agora entraria de novo. As probabilidades de dar muita merda eram enormes, mas não poderia fazer nada a mais do que acreditar em sua prima agora.
Não colocou nenhuma roupa extravagante ou que chamasse atenção, era melhor continuar com uma roupa discreta e torcer para ninguém o analisar e descobrir. Por sorte poucos da família o conheciam mesmo, não seria problema passar dispercebido por eles.
Suspirou pesado e finalmente alcançou a maçaneta, enquanto empurrava a porta de vidro e adentrava o lugar esfriado pelo ar-condicionado. Sentiu um arrepio pela mudança de temperatura, mas logo direcionou sua atenção aos seguranças do outro lado do saguão. O lustre luxuoso ainda brilhava intensamente por todos da grande sala. Virou o rosto para a atendente que procurava alguma coisa no chão, aparentemente.
Aproveitou a chance e já começou a caminhar rapidamente em direção ao elevador do outro lado do cômodo. O problema seriam os seguranças, mas não é como se já não tivesse garantia dessa situação.
- Senhorita Nariko! - pôde ouvir uma voz aguda e feminina um pouco distante de onde estava
Olhou de soslaio para a direção do grito, e somente viu sua prima "passando mal" entre um amontoado de pessoas. Os seguranças, que já sabiam da hierarquia e importância de todos daquele local, correram até o pequeno corpo da garota para a acudir. Denki deu um sorriso pequeno pela bela atuação da prima e amiga, principalmente.
Tinha conversado com Nariko alguns dias atrás e ela aceitou o ajudar. Ela era uma ótima amiga, acima de tudo. Poderia até considera-la como uma irmã mais nova e inteligente.
Alcançou o elevador discretamente e sem pessoas pelo tumulto de agora. Agarrou com força a barra do elevador, bufando e fechando os olhos com força. Elevou as pálpebras e olhou aquele quadro de botões numerados respirando devagar. Direcionou a atenção somente para o círculo onde estava escrito 7. Engoliu em seco e apertou temeroso. Teria sorte se ninguém pedisse o elevador naquele momento. Somente sentiu o cubículo começar a se mexer e já estava ficando nervoso de novo.
Não tinha garantias de nada de agora em diante. O que seu pai faria quando entrasse na sua sala? Não sabia. Conseguiu a agenda e localização da sala do homem com a ajuda de Nariko. Ela que organizou tudo praticamente. Quando a porta abriu sentiu o ar ficar mais seco do nada. De novo se perguntava se era o certo a se fazer. Mas eles dois teriam de olhar a realidade pelo menos por hoje, por pelo menos alguns minutos. Saiu de lá de dentro, vendo inúmeras salas no corredor. O problema era a mulher que mexia em alguma coisa no celular no final do caminho. Ela parecia distraída, será que conseguiria passar sem ela perceber?
Mas no momento que ia dar o primeiro passo, um homem grisalho e de óculos a chamou para uma das salas. Imediatamente a moça guardou o aparelho e seguiu em direção a sala, enquanto Kaminari ainda estava paralisado no lugar. Por sorte não perceberam sua presença e já não tinha mais ninguém no corredor. Suspirou aliviado e decidiu ir logo até a sala que tanto queria, não sabia se alguém apareceria de novo.
Correu silenciosamente até uma das portas brancas e padronizadas, com a única diferença sendo o nome que ostentava numa plaquinha de metal na parte superior. Levantou a cabeça para ler rapidamente.
Kaminari Takeshi
Suspirou de novo e pôs a mão na maçaneta, a girando e abrindo a porta. Entrou rapidamente e fechou. Seu corpo travou ali mesmo quando viu o seu pai concentrado em vários papéis em cima da mesa.
- Ainda bem que você chegou, Mikan - ele disse, não percebendo que não era sua secretária - Estou com muitos papéis e-
Ele levantou o olhar e parou de falar na hora, com uma expressão assustada. Denki soltou a maçaneta, girou o trinco da porta a trancando e forçou um sorriso.
- Eai pai.
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A sala parecia ter esfriado, o ar estava seco demais para seu gosto. As janelas fechadas ainda deixavam passar os raios de sol de tarde, mas protegendo os dois minimamente do calor de lá de fora. O ar-condicionado conseguia deixar o local frio, mas Denki parecia queimar por dentro. De emoção talvez, nunca se sentiu tão nervoso na vida. Só torcia para não passar mal e vomitar ali mesmo.
Seu pai estava apavorado. Bem, era isso que ele aparenta sentir. Os olhos dourados estavam arregalados, as sobrancelhas levantadas e os lábios rodeados pela barba rala entre-abertos pela surpresa tamanha. Os cabelos dele eram desarrumados naturalmente, como os de todo Kaminari. Eram morenos e a parte antes loira na raiz foi substituída por fios brancos. Ele parecia meio acabado para alguém na fase dos cinquenta.
Denki fechou a mão em punho e relaxou depois. Não sabia como iniciar essa conversa.
- Como você está? - arriscou
- O-oque está fazendo aqui? - ele balbuciou ainda atônito
- Eu... Quero conversar. Sobre eu, você... E a mamãe.
A expressão dele agora mudou, era uma expressão de dor, angústia. Não sabia se tocar no assunto da mãe foi cedo demais.
- Só não me expulsa, ok? A gente teria que fazer isso mais cedo ou mais tarde e o senhor sabe disso.
Sua voz estava séria, assim como sua expressão. Era algo fora do normal, mas não estava disposto a mudar isso. Queria que ele pensasse que era algo que realmente teriam que debater, conversar. E na verdade era. Não poderiam continuar assim, afastados e com medo um do outro, ou pelo menos de suas reações e gestos. E agora tudo estava em jogo. Agora só precisava aprender a jogar e pegar a manha. E depois de tudo, venceria. Bem, pelo menos na metáfora é isso que acontece.
Olhou para as duas cadeiras pretas em frente da mesa extensa e cheia de papelada desorganizada. Apontou para uma delas.
- Eu posso?
Sua expressão agora estava mais suave, não queria ir rápido demais de qualquer maneira. Tinha todo o tempo do mundo. Só precisavam se resolver e se não desse certo, pularia nos braços de Hitoshi e nunca mais o soltaria. Mesmo que tivesse chocolate o esperando na geladeira para devorar.
Takeshi ainda estava paralisado, mas ele somente abaixou um pouco a cabeça apertando os lábios rachados e com tom vermelho tão natural quanto o de Denki. Ele fechou os olhos amarelados antes de responder baixo e com um claro receio e medo.
- ...pode.
Aquilo era um sim. Uma nova abertura para uma conversa civilizada.
O jogo tinha começado, agora Denki só esperava que apertasse os botões certos e fizesse as melhores escolhas. Se não, não teria como reiniciar a fase.
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Melody - Shinkami
Hayran KurguAs águas de felicidade podem ser tristes... As chamas podem ser frias... O coração pode não ser mais como antes... Coisas podem aparentar ser o que não são. Quase todos tem um jeito de expressar ou captar sentimentos e sensações, sejam os seus ou de...
