Não existia mais frio na barriga ou qualquer outro símbolo de nervosismo no corpo da fotógrafa, talvez um pouco de tintura pelos fervorosos cliques e as luzes exatamente desnecessárias que impactavam sua face de segundo em segundo. Se essa era a vida de quem se tornava minimamente famoso, teria que se acostumar urgentemente, preferia o conforto de suas farras no mais pleno e perfeito sigilo; foi quando uma onda de preocupação e arrependimento lhe abateu por milésimos de minutos, já tinha ido longe demais, visto coisas demais, tocado coisas demais e experimentado coisas para se acovardar de um emprego que mudaria sua vida. Bastava saber se era positivamente ou negativamente. Os comerciais entraram e a música irritantemente pegajosa de Solar cantando o dinjo de uma empresa de cosméticos encontrou por seus ouvidos, sorriu enquanto todos riram, até mesmo quem esperava o resultado do lado de fora. Pensou se aquelas pessoas não tinham algo melhor para fazer, talvez estivessem se completando ou completando uma lacuna em seu dia e absorvendo a energia boa que aquele lugar tinha e será inegável que tinha.
Queria saber como a baixinha com risada de golfinho tinha conseguido fazer aquilo em um ambiente de escritório, coisa que em sua juventude, odiava apenas o som que a palavra tinha. A amiga fiel Wheein parecia desconfiada, observava Moonbyul como se representasse um fio de ameaça, embora a mesma não soubesse muito bem o porquê daquilo; em flashes momentâneos em sua mente relaxada demais pelas coisas que tinha ingerido, levou até horas atrás quando na sala de criação quase pôs tudo a perder. Recordou-se da proximidade de menos de um palmo em que ficaram, do aroma doce que emanava do corpo da empresária, pareceu senti-lo novamente ao respirar fundo e tentar voltar sua atenção ao que estava acontecendo ao seu redor, falhou. O que a perturbava não era o que poderia ter acontecido e sim a sensação de tê-la conhecido sem nem mesmo ter tido qualquer tipo de contato mais impactante com sua futura provável chefe antes daquilo. Balançou a cabeça tentando afastar os pensamentos e descendo de seu mundinho fechado.
— Moon! — Seulgi desviou de algumas pessoas no palco que arrumavam a maquiagem de Solar e Wheein até chegar mais próxima de sua agora amiga e concorrente. — Fez um ótimo trabalho com a Sra. Kim, vai ser uma honra ganhar ou perder pra você, sabe disso não é?!
Uma das melhores coisas que o concurso lhe trouxe foi uma inesperada amizade com a Kang, eram tão iguais em questões de personalidade que pareciam até irmãs.
— Claro que sei. Você também arrasou, independente de qual de nós ganhe eu quero muito fazer algo com você. Um trabalho juntas, um ensaio, qualquer coisa. — Sorriu amplamente abrindo os braços para recebê-la com carinho e confortabilidade, acariciou as costas da mulher com as mãos agitadas e agora, um pouco nervosas. — Mas eu sei que vou ganhar.
Ela riu quebrando o abraço.
— Pode ir sonhando. Irene é muito fotogênica.
— Yongsun é naturalmente linda, não precisou de muito mais além dela mesma. — O trocadilho a fez lembrar as feições duplas e as posições em que as fotos que não foram escolhidas estavam. Parecia confortável demais em sua presença. — Literalmente...
Seus pensamentos voaram para o que seu cérebro estava fortemente tentando fazê-la esquecer, uma vez que, nunca pensou que poderia acontecer; o momento na sala de criação aonde de certa forma comemoravam a boa e velha criatividade de sua maneira, quase derrubando uma garrafa de vodka cara. O rosto de Yongsun que agora ainda no palco falava algumas palavras para a câmera - provavelmente um depoimento final como participante -, estava vermelho, não muito mas um rosado perceptível e adorável. Talvez tivesse a pele sensível, a fotógrafa pensou consigo mesma balançando a cabeça para que Seulgi não se sentisse sozinha em seu monólogo emocionado, de como a experiência de trabalhar na Solarsido fora impecável. As peças em posters em tamanho de banners foram expostas por todo o hall de entrada, como se fosse uma galeria de arte underground e famosa; a iluminação era exagerada como a dona, mas fazia diferença em cada ponto das imagens: o material escolhido por cada fotógrafa para a impressão, não deixava que as luzes dos postes ou até mesmo do sol se fosse o caso, batesse e refletisse nas fotos. O que mais tarde ocasionaria uma leve distorção e não queriam isso. O ambiente era grande e os funcionários se dividiam observando e esperando o resultado final sair, Moonbyul sentia-se extremamente feliz e cheia de um ar orgulhoso, cheio de si.
Não deixou de pensar em Solar, na grande e única oportunidade que ela, fez com que se tornasse possível. Guardaria os agradecimentos para um oportunidade a sós.
Os câmeras voltaram ao trabalho e a transmissão começou. As cinco pessoas no palco improvidado, espalhadas para melhor visão do público apareceriam agora, em todas as telas de computador, celular e qualquer outro aparelho com internet e, é claro, assinatura exclusiva da revista.
— Aqui é a Solar. Como sabem, este é o episódio final da nossa Busca por um Fotógrafo. Nossa seleção está chegando ao fim, pessoal. — O microfone em riste de forma segura, os dedos com as unhas médias pintadas de preto como nas fotos. Tudo chamava a atenção, os detalhes de Kim Yongsun era lindos para a Moon. Fotograficamente, é claro. — Eu espero que tenham se divertido e votado muito em seus favoritos. Aqui nós temos Moon Byul Yi e Kang Seulgi, finalistas, cuja as artes vocês já viram. — Wheein ficou na ponta dos pés fazendo alguns rirem para alcançar os ouvidos da amiga e chefe, dando alguma outra informação. — Ah, sim. Cada ticket de voto tem um número, certo? Até mesmo os virtuais. Após o resultado, iremos sortear um quadro com uma arte da fotógrafa vencedora. Não é demais isso?!
O sorriso de sempre estava lá, passando energia como raios de sol quentes. Ela não precisava de muito para ser realmente o centro das atenções. Yongsun, geralmente, não seguia nenhum script - embora Wheein sempre elaborasse -. Acreditava que se fizesse tudo como as regras ditam, acabaria perdendo um pouco de sua essência espontânea, não queria ser mais uma CEO robotizada, gostava de estar disponível e acessível a todos. Esticou o pescoço algumas vezes estalando-o pelo cansaço, nem um minuto sequer tinha descansado, muito pelo contrário. Sua mente só pensava em cama, descanso, comemora depois levando Wheein para comer em algum lugar. Ela ficaria feliz e merecia, tudo isso só foi possível com sua organização. Sorriu amplamente acenando com a cabeça quando um pequeno envelope retangular passou por seus dedos.
— O resultado chegou, pessoal. — Num malabarismo, equilibrou os dois objetos em suas mãos e abriu o envelope. — Quem você acha que vai ganhar? Hm? Vamos descobrir agora.
Em dois segundos, um filme se passou na cabeça de Moonbyul, um pouco sem pé e nem cabeça no começo, mas deixou-se sentir nervosa pela primeira vez naquela competição. Sua irmã no interior podia estar assistindo, seus de uma maneira genérica, seriam orgulhosos em relação a isso e com certeza veriam as notícias depois, apenas para certificar da pensada derrota. Se for o caso. Mas principalmente seu pai, talvez estivesse ocupado demais com o escritório de advocacia para prestigiar alguma coisa da única filha que não seguiu seus passos. Seu primeiro desastre. Respirou fundo tentando pensar no melhor de sua trajetória, quando conseguiu seu primeiro job na área, quando conseguiu financiar a casa em que vive com Hyejin, que também era outro ponto forte em sua vida. Sem seu apoio, não teria chegado até aqui, mesmo sendo mais nova, era uma grande amiga e conselheira. Com sorte, iria ter material suficiente para publicar seu livro fotográfico, imprimir cada um desses sentimentos nefastos que se espalhavam em seu peito e faziam seu coração bombear mais sangue por seu corpo, batendo assim, mais rápido. Com sorte, seu momento chegaria. Com sorte independente do resultado, seu momento chegaria.
Com sorte...
— Moonbyul! Parabéns a ganhadora, tenho certeza que fizemos a melhor escolha. Fiquem atentos para as novidades envolvendo nossa nova folha de contrato, Sra. Moon. — Yongsun virou-se para a garota ainda pasma, com as bochechas vermelhas e o sorriso torto mais radiante que já vira em sua vida. Não era assim não fria para com seus sentimentos, pensou Solar. — Deseja dizer algo?
O sistema nervoso das pessoas era engraçado e totalmente sem nenhum tipo de limites. Quando o momento é negativo, geralmente choramos com mais força, trememos com certa rapidez em um espaço de tempo irrisório. Lapsos em momentos de emoções elevadas nos fazem ter força emocional ou física de uma forma centrífuga, ejetando nosso corpo ao abismo, quais deles e quais são eles o que vai dizer é o contexto. Nesse caso, com as câmeras todas piscando e flashes luminosos dentro e fora das portas de vidro do hall do prédio milimetricamente planejado pra ocasiões como aquela, deixou os sistemas nervosos da pequena (não tão pequena em questões midiáticas) Moonbyul endurecidos e incrédulos. A saliva demorou a passar pela extensão da garganta, o corpo se mexia devido ao abraço que recebeu de Seulgi, sua mente parecia estar sendo puxada para o começo de sua carreira minúscula que parecia finalmente estar decolando num foguete a mil quilômetros por hora, sem avisos prévios. Ou será que a de fios púrpuros não estava atenta aos sinais? Um esboço de sorriso passou a ser rascunhado em seus lábios, deixando seu nariz enrugado pouco a pouco e os dentes presos a uma gengiva que apareceu alguns centímetros ainda tímida e com certos desníveis. Não pisou no chão. Os portões de sua mente abriram e fecharam e imagens de sua infância cética e até mesmo cegada pelas leis do mundo da advocacia, vinham para invocar seu melhor e seu pior. Sua vitória naqueles segundos e seu fracasso para a família, aonde poucos a apoiaram na jornada com a arte, mas ainda assim, sabia que aonde estivessem, os Moon sempre sorririam de felicidade. Ao pegar o microfone que lhe foi indicado por sua agora chefe, sentiu os fios condutores de seu cérebro mandarem informações para seus olhos com tanta rapidez que a imaginação feita de boas lembranças não acompanhou muito bem e, como num passe de mágica, viu-se ali em frente ao espelho da sala de estar no interior.
— Papai, é muito difícil! — Uma jovem Moonbyul bufava fazendo o ar quente que saia de seu nariz, embaçar aquele trecho do espelho. Sr. Moon riu. — Não quero mais.
Sentou-se, ou melhor, jogou-se num puff de tecido claro – como o resto da casa – com as pernas abertas, as bochechas infladas e vermelhas de raiva de si própria com a gravata quase de seu mesmo tamanho atravessada em seu pescoço. O pai ajoelhou-se rejubilando-se pela impaciência da filha. O pequeno terno feito especialmente para o dia dos pais e mães aonde a mesma decidiu o homenagear era preto com listras brancas, a camiseta social clara fora desamassada por ele; com as mãos habilidosas puxou as golas as deixando prontas para receber o nó.
— Os Moon nunca desistem, minha pequena. — Tocou os lábios em sua testa. — Então vá lá e não deixe que um nó de gravata lhe afete.
De volta a realidade, mal percebeu que seus dedos ainda estavam minimamente em contato com os de Solar no ato de passar o microfone uma para a outra, o que foi termo, calmo para ambas. A mais velha ainda que não tivesse passagem liberada para se colocar no lugar da outra, tinha noção que estava mudando a vida da pessoa certa, mesmo que fosse apenas o efeito da última sessão de fotos e de três dias mergulhando no olhar caloroso de Byul. Imaginou-se por segundos em uma sala sendo mais uma vez capturada por ela, em como sua voz rouca parecia ainda mais familiar, tudo se tornou ainda mais espantoso quando as caixas de som ecoaram um pigarro receoso. As mãos que seguraram tão bem uma câmera Sonny resolução e complexidade alta tão bem, não se sentiam firmes o suficiente para comunicação; seria engraçado vê-la em um lugar desconfortável, mas a vermelhidão eufórica em seu rosto trouxe à tona um gosto amargo na boca de Yongsun. Uma personalidade extraordinária e tão tímida? Pensou consigo mesma indo e vindo em sua posição de anfitriã, no entanto, deixou-se tocar e apertar o ombro esquerdo da mesma e gentilmente acenar em apoio com a cabeça.
— Eu... — A respiração saiu rasgada em fôlegos pequenos no microfone, os olhos das que eram agora, as únicas no palco choviam juntos. — Geralmente sou melhor segurando uma câmera. — Alguns jornalistas a beira do palco riram escrevendo com rapidez suas palavras enquanto outros gravavam. — Me sinto grata a todos os outros participantes por terem aberto minha mente, fiz amigos de verdade aqui. Em especial, quero agradecer a Kim Yongsun que abriu-me a possibilidade de trabalhar num ambiente incrível. Trabalharei duro para elevar o nome da Solarsido em níveis globais.
Yong riu quando a mesma praticamente jogou o objeto que impulsionava sua voz até lá fora em seu colo, negou com a cabeça mas ainda assim, teve que acabar com a dor de cabeça que lhe afetava intensamente e vinha das facadas que as câmeras e pessoas gritando causavam.
— Em breve uma entrevista exclusiva com nossa nobre e mais importante funcionária será divulgada em nossas plataformas digitais. Não deixem de acompanhar também nossa habitual seleção de modelos com Jung Wheein. — A mesma fez uma pequena reverência após piscar um dos olhos charmosa. — Obrigado por acompanharem, estou sempre trabalhando com os melhores para proporcionar o melhor para nossos clientes. Até a próxima.
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Fetiche
FanfictionQuando a dona de uma das mais conceituadas revistas da Coréia, volta a praticar seu antigo hobby: voyeurismo. O quão patético seria apaixonar-se por uma da pessoas que passava por sua cabine todas as noites, mesmo que não pudesse ver seu rosto? Até...
