LONDRES

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Londres, Inglaterra, 1922

Annette acendeu o cigarro e jogou as cinzas no cinzeiro em formato de coração em cima do balcão vermelho. Tudo no quarto era vermelho: desde as paredes até os móveis e a roupa de cama. Sobre o lençol, um rapaz de cabelo curto escuro estava jogado com a camisa branca desabotoada. A mulher não entendia por que ele continuava vindo, no entanto, o que mais a intrigava era o porquê dela mesma aceitar vê-lo. Annette não costumava repetir clientes após a segunda vez, era fácil demais de eles se apegarem pois com o tempo passavam a perder a capacidade de distinguir uma meretriz de uma amante e as coisas se tornavam muito bagunçadas, porém com Don era diferente, era ela quem perdia a racionalidade.

A verdade era que, quando Annette se encontrava com ele, não sentia como se estivesse trabalhando. Ele a escutava e ela também o escutava, e quando acabavam transando de fato, ela conseguia aproveitar o momento e não se sentia suja depois. Ainda assim, era errado, dessa maneira ela afastava possíveis clientes novos do bordel, e caso Richard, seu patrão, soubesse disso, não ficaria nada contente.

- Então, você está aqui de novo – a ruiva de olhos verdes passou o cigarro para o moreno que tragou um pouco antes de falar:

- Então, eu estou aqui de novo.

- Eu não entendo. Don, você é lindo, inteligente e charmoso, tenho certeza que têm milhares de mulheres aí fora implorando pela sua atenção. Por que você continua vindo aqui?

- Eu não posso simplesmente gostar da sua companhia? – ele soltou traços de fumaça antes de devolver o cigarro, ela percebeu que tinha marcado o filtro com uma mancha de batom vermelho.

- Eu sei que sou bonita e legal – Don sorriu ao ouvir a forma como ela se gabou -, mas eu estou aqui trabalhando e você consegue o que tem comigo com uma mulher que vai aceitar de graça.

- Talvez eu não as queira.

- Nenhum homem em sã consciência gostaria de estar ao lado de uma prostituta. – Annette se levantou e foi até a janela, ficando de costas para ele, e observou a chuva cair nas ruas movimentadas de Londres.

É claro que ela gostaria de se casar, ter filhos e vivenciar tudo que prometiam para as mulheres desde criança. Annette nunca pensou que um dia trabalharia com prostituição, mas as circunstâncias a trouxeram ali e ela não tinha mais tempo para chorar pelo leite derramado, tinha se conformado com o fato de que não poderia brincar de casinha. Talvez estivesse fadada a morrer solitária ou seria acometida por um milagre e encontraria um homem que a aceitasse, todavia, ela não podia ficar esperando por isso e com certeza não esperava que Don fosse um.

- Você quer que eu vá embora? – Don tinha se levantado. Ela sentiu seus braços fortes a rodeando e deitou a cabeça no peito dele.

- Fique só mais essa noite, mas depois de hoje, eu não quero que você volte. – doeu mais do que ela esperava dizer aquilo, ainda assim, sabia que era o certo a se fazer.

- Se é o que você deseja – Don segurou no seu quadril e a virou de frente para ele.

Eles já tinham tido sete encontros, e mesmo agora, Annette ainda continuava com o mesmo fascínio que sentiu na primeira vez quando o viu entrar na porta do Ilusione Cabaret. Nesse dia marcante, Annette irritou-se com o fato de Don tentar conversar com ela enquanto ela apenas queria tirar sua roupa e fazer sua função logo, mas nas vezes seguintes ela percebeu o quanto gostava de passar o tempo gastando sua fala com ele. Ela também não podia negar que tinha passado a gostar de se deleitar na cama com Don. O sexo naquele lugar sempre foi, para ela, uma obrigação que acontecia das piores formas possíveis, mas Don não era como os outros que quase negavam sua existência enquanto estavam bem em cima dela. Tamanha foi sua surpresa quando ele tentou dar-lhe prazer, tinha certeza que qualquer outra mulher no seu lugar também teria a mesma reação.

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