Cólica

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1997.

A dor que Laura sentia era igual ou pior a mais forte cólica que ela já sentira e ela chorava deitada e encolhida no chão.

– Laura, saia de trás da porta! – Célia pediu. Ela conseguia abrir apenas uma fresta da porta.

– Ma...mãe... – A adolescente gemeu e se arrastou para que sua mãe entrasse no quarto.

– Você está doente? – A mãe se curvou e estendeu a mão para ajudar Laura a se levantar. – Elson, vem aqui! Elson! Você está naqueles dias?

– Não...

Célia estava assustada com a palidez da Laura e como ela se contorcia de dor.

– Laura, o que foi que aconteceu? – O pai estava a porta do quarto olhando assustado para ela.

– Dói... – Laura gemeu – Eu chamei vocês...

Os pais a ajudaram a se levantar e a colocaram sobre a cama.

– Vai trocar de roupa que eu fico com ela. – Elson disse.

– Papai... Você não tá com dor? – Laura perguntou depois que a mãe saiu.

Elson respondeu imediatamente "não".

– É dor de estômago, filha? Você comeu alguma coisa estragada?

Laura sacudiu a cabeça negando e o pai olhou para o rádio relógio, esticou a mão para acertar a hora olhando para seu relógio de pulso.

– Que droga...! Laura, o seu avô foi quem lhe deu o rádio e você não cuida dele direito?!

O display do rádio piscava 03:30.

– Que horas são?

– Sete e meia. – O pai continuava insistindo em consertar a hora no aparelho. Ele tirou o fio da tomada e o religou. O relógio continuava a piscar 03:30 e, pior: o rádio ligou-se sozinho no último volume. Rapidamente ele procurou o botão de volume e não conseguia fazer o aparelho reduzir o som. Sem saída, ele decidiu tirar o cabo de alimentação da tomada. – Sua mãe vai ajudá-la a se vestir e vamos levá-la ao hospital.

Laura foi levada à um hospital na Vila Santa Catarina e, depois de alguns exames, o Médico pediu um exame de ultrassom e uma lista de exames laboratoriais. A suspeita era de "pedra nos rins" e, para minimizar a cólica, infundiram soro na veia dela com um medicamento cujos princípios ativos eram butilbrometo de escopolamina e dipirona.

Invadiram o meu quarto de madrugada, quebraram o meu rádio relógio e ainda me deram uma injeção com pedra nos rins! Que malditos!

Em casa, Marcélia olhou para a face do Tom com susto e pena.

– Ah, cachorro... O que aconteceu com você?

Bem que Marcélia pensou em abrir o portãozinho para brincar um pouco com o cachorro incomodado pela área inchada da sua cabeça logo abaixo da orelha, mas lembrou-se que fora aquele cachorro tristonho e incomodado pelo enorme inchaço que tinha atacado Lena e os patrões estavam pagando de livre e espontânea vontade uma indenização por danos físicos e psicológicos à colega faxineira.

– Tom, Tomzinho... – Marcélia estralou os dedos e Tom abanou a cauda para ela – Quando os seus donos chegarem, eu vou chamar eles pra ver o teu problema, tá? Eles levaram a Laura no médico e já vão voltar.

Por outro lado, Lorinho espirrou dentro da gaiola e na narina do papagaio formou-se uma bolha.

– Vixe! – Marcélia exclamou e fez o sinal da Cruz na testa, sobre os lábios, sobre o rosto e sobre o peito. Para ela, era muita zicazira junta e em cima da mesma família que até pouco tempo antes vivia feliz e saudável.

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