POV'S CHARLOTTE
-Não sabia que sabias andar de mota.
-Há muita coisa sobre mim que tu não sabes.
-Por exemplo?
-Não me ocorre nada.
-Bem me parecia.
-Mas de certeza que há muita coisa que não sabes sobre mim.
-Até podia haver se a tua vida não estivesse toda esmiuçada nas revistas. É verdade que a tua cor preferida é o rosa?
-Porque é que tinhas que tocar logo nesse ponto?!
-É verdade? - arregalo os olhos um pouco assustada.
-Eu sabia que não conhecias o meu lado sensível...
-Rosa? A sério? Juro que perdeste todo o pouco encanto que tinhas!
-Eu sabia que também não conhecias o meu potencial para a representação.
-Ai que susto homem! Que alívio!
-Parecias uma senhora com uma certa idade a falar. E com as tecnologias de hoje em dia nunca se sabe se por trás dessa cara de recém-nascida não está uma idosa de setenta e quatro anos. E por falar em "recém", também parecemos um casal recém-casado a sério, meu amor.
-Ei que nojo, mas ok amor, é para representar?
-Sim amor.
-Ei que nojo.
O empregado do restaurante, já com uma certa idade e com algumas dificuldades em andar, chega para nos atender.
-Mas que bonito casal! Então o que vai ser? - ele pergunta com uma simpatia que já não estava habituada a ver. Ok este é um momento decisivo. Bem, se eu pedir salada vou parecer uma menininha mimada e ele vai pensar que estou a tentar impressiona-lo. Não, uma salada está fora de questão. Talvez... Talvez... - Senhoras primeiro. - diz sorridente.
-Feijoada. Pode ser uma feijoada, por favor. - uffa que alívio. Feito.
-Inesperado, mas fez uma boa escolha. E o senhor o que vai escolher?
-Uma salada de espinafre, por favor. - que vergonha, eu não acredito que ele pediu uma salada, eu acho que é o momento certo para ir à casa-de-banho e desaparecer do mapa como em "O Código da Vinci".
-Certíssimo e para beber? - bah vou parar de me preocupar com o que ele pensa e vou seguir o meu coração.
-Um copo de água por favor. - digo já um pouco desanimada com a vida.
-Hum, bem, muito bem senhora. - ele parece um bocado confuso - senhor?
-Traga o melhor vinho que tiver, hoje é um dia feliz, temos que comemorar. - ele sorri, olhando para mim, e coloca as mãos por cima das minhas. Sinto-me a ferver, mesmo sabendo que é tudo representado.
-É bom ver um casal tão bonito! Tem alguma preferência pela qualidade do vinho? Branco, tinto.,.
-Como o senhor preferir.
-Então volto já, com licença! - o senhor afasta-se, tal comos as mãos do Wes.
-Eu ainda não acredito que faltamos a uma entrega de prémios e estamos agora num restaurante no fim do mundo com o nome "Come-se!". É que nem é "come-se", é "come-se!" - digo a última palavra num tom mais alto.
-Se me estivesse a referir a ti seria mesmo só "come-se". Do tipo "nhé, come-se". - expressa-se com cara de enjoado.
-Pára, acabamos de nos casar, já me estás a tratar assim? - digo tentando ficar séria.
