POV'S CHARLOTTE
Sento-me, um pouco nervosa. Sempre que fico assim as minhas mãos começam a tremer. Não precisa de ser algo muito importante, mas por vezes sou muito sensível, já é natural.
-Bem, vamos directas ao assunto. Já te deves ter perguntado porque nunca tive uma relação tão boa como tu com a tua avó, certo? - disse calma.
-Sim, já me perguntei... Mas nunca tive coragem para te perguntar tão directamente, não sabia qual seria a tua reacção.
-Pois bem, é por causa do teu avô.
-O meu avô? Não estava numa missão em África? Quer dizer, por esta altura... Foi uma das coisas que para mim nunca bateu certo. Sempre que eu falava dele à avó ela mudava de assunto. Sempre pensei que fosse das saudades que ela poderia sentir, mas agora... Já não sei nada.
-Pois... A verdade é esta. Eu nunca conheci o meu pai. Quando era pequena, comecei a aperceber-me que todos os meus amigos tinham um pai e uma mãe. Eu só tinha uma mãe. Um dia perguntei à tua avó porque é que eu era diferente dos outros. Adivinha qual foi a sua resposta: "o teu pai está numa missão em África, a ajudar as crianças que não têm nada para comer nem para vestir". Tudo bem, durante algum tempo acreditei nisso. Mas a verdade é que, com o passar do tempo, ele não voltava. A tua avó nunca foi uma pessoa de muitos carinhos, para mim. Daí eu ter ficado tão impressionada da tua relação com ela, a minha mãe nunca tinha sido assim para mim, e isso é uma coisa que ainda hoje não percebo porquê. Por volta dos meus 16 anos, perguntei-lhe de novo o que era feito do meu pai. A resposta foi a mesma, ele estava em África. Insisti-lhe para me dizer a verdade, como era óbvio, uma pessoa não podia estar tanto tempo numa missão por vontade própria. Ou ele nos tinha abandonado, ou então tinha falecido. Nesse dia, pela primeira vez, ela bateu-me. Nunca a tinha visto tão incomodada com algo que lhe tinha dito. Fui para casa de uma amiga e lá fiquei durante uns meses, sem falar para ela. De vez em quando a tua avó aparecia por lá, mas nunca a atendi. Arranjei o meu primeiro emprego aos 17 e ganhei dinheiro para poder ir para a Irlanda. Como tu sabes, o teu avô era, ou é Irlandês, daí eu partir para lá na esperança de o encontrar e encontrar de uma vez por todas as respostas para as minhas perguntas. Fiquei lá 4 anos, mas nada. Não sabia o que procurar, a única coisa que sabia é que viveu lá. Voltei para Portugal e soube que a tua avó estava internada porque lhe foi diagnosticado cancro. Visitei-a e aí retomamos a nossa relação, embora nunca tenha sido grande coisa desde então. Nunca a perdoei por não me ter dito quem era o meu pai, por nunca me ter deixado conhecê-lo e arrependo-me agora. Arrependo-me de a ter deixado ir sem a perdoar, sem fazermos as pazes. Só espero que ela lá no fundo, soubesse que a amava. Afinal ela era minha mãe e, apesar de tudo, significava muito para mim. Penso que é tudo o que precisavas de saber Charlotte, desculpa de não te ter contado antes, não queria que ficasses com uma ideia errada da tua avó.
Não sabia o que dizer. Ainda estava a tentar processar as ideias. Não sei o que pensar. Será que a minha avó era cruel ao ponto de esconder uma coisa dessas da filha só porque foi um namoro que não correu bem? Será que havia mais alguma coisa por trás disso? Agora percebo a frieza da minha mãe, ela nunca teve carinho por parte de ninguém. Nem sequer teve um pai que o fizesse. Percebo a sua tristeza e raiva em tudo o que se dizia relacionado com a minha avó. Agora percebo muita coisa. Abraço-a num gesto inesperado e ambas choramos. Eu pelas minhas atitudes perante ela, sem nunca saber o que deve ter sofrido. Ela por alívio e emoção. Um abraço rápido, mas intenso.
- Ol... - o meu pai entra, interrompendo-nos. - tanto sentimentalismo. Fico contente por se estarem a dar bem. - ele sorri e damos um abraço juntos. - trouxe pizza! Quatro queijos Cher, a tua preferida!
-Obrigada pai! - limpo as lágrimas.
-Ajuda-me a por a mesa, Charlotte. - ela diz sorrindo.
-Claro. - juntos pomos a mesa e sentamo-nos, começando a nossa refeição.
No final, ajudo os meus pais a arrumar a cozinha e volto para o sótão.
Apesar de tudo, não tinha ficado reticente em relação minha avó. Eu conhecia-a bem, se fez o que fez, com certeza tinha os seus motivos. Algo me dizia que aquele não era um simples diário de adolescente. Aquilo ajudar-me-ia muito mais do que o que eu imaginava. Sento-me na cama e pego nele. Abro-o e começo a lê-lo.
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POV'S DIANA
Chegamos ao dia tão esperado pela minha irmã. 13 de Junho. Estou a preparar-me. Ontem deixei a roupa pronta para hoje ser mais rápido vestir-me. Amarelo é a minha cor preferida, mas como não se pode usar com tudo também não a uso muito. Hoje vou usar, tenho um top lindíssimo que comprei há uns dias na Zara. Penso que o vou usar com a minha saia preta rodada. E como adoro juntar simplicidade com elegância, vou usar o cabelo preso, liso, com uma mexa a fazer de elástico. Coloquei um pouco de base e pintei os olhos com rímel, não gosto de muita maquilhagem.
Vou em direcção ao quarto da Liliana, verificar se ela está pronta. Entro e irrito-me com o que vejo.
-Liliana?! - reparo que ela está igual a mim, apenas com um top de cor diferente. - Foste de novo ao meu quarto ver o que ia vestir hoje?!
-Não! Quer dizer... Talvez tenha ido... Mas não estou igual a ti!
-Não estás igual a mim?! A única coisa diferente é a cor do top! Já tens idade mais do que suficiente para escolheres a tua própria roupa! Até o cabelo... Enfim.
-Oh... Mas eu não estou igual... Para além disso somos irmãs, não tem mal andarmos parecidas! - ela diz, quase fazendo beicinho.
-Já chega! Não cresces, sinceramente! - saí do quarto e fui em direcção à sala.
15 minutos depois, vejo a Liliana a descer as escadas. Tento acalmar-me. Mudou a cor do top para amarelo e apenas trocou a saia por umas calças pretas.
- Vamos? - digo com desdém.
-Sim! Vamos! - diz entusiasmada.
Saímos de casa e entramos no meu carro. Guiei em direcção ao grande Estádio do Dragão, que ficava a 3 km de casa. Num instante chegamos lá. A Liliana passou a viagem toda a falar dos One Direction, por momentos achei que a sua admiração por eles era já uma obsessão.
Avistámos já lá uma multidão, no entanto, como tínhamos uns familiares que faziam parte da organização, não tivemos que esperar tempo nenhum nas filas intermináveis, entrando logo no estádio.
-Sabes? Estou com a sensação que serei chamada ao palco! Ultimamente eles têm chamado pessoas do público para lá irem, e estou com esperanças! - ela diz rindo-se, fixando o olhar num ponto inexistente, e mexendo freneticamente as duas mãos.
-Sim, espera sentada Lili. No meio de cinquenta mil pessoas vais mesmo ser chamada. Isso já deve estar tudo combinado, de certeza que pagam a essas raparigas para irem ao palco para fazerem figura de urso.
-Só me deitas abaixo! Que irmã! - diz com um tom chateado.
4 horas depois o concerto começa. Confesso que são ainda mais bonitos ao vivo. E as vozes não estão nada mal. Está a superar as minhas expectativas.
Distraí-me nos meus pensamentos e, quando reparo, está toda a gente a olhar para mim. O meu coração acelera. Rezo para que não seja o que eu estou a pensar. Por momentos, sinto-me vermelha e a suar. Sim, eu fui escolhida para ir ao palco, a minha cara está agora no grande ecrã.
Dêem a vossa opinião por favor, gostava muito de saber o que estão a achar! Beijinhos :)
