O ouro, o ouro do Brasil. Sua chegada foi recebida com festejos; mas sua estada trouxe consequências.
Uma guerra. Uma revolta. Uma separação.
Uma comarca instável prestes a virar uma rebelde capitania.
O governador Assumar era um pulha esperto. Mentira para Filipe lhe prometendo honrar com a palavra de revogar a ordem que determinava a construção de casas de fundição nas Minas.
Os ingênuos mineiros fiaram nisso e comemoraram sua breve vitória:
-Não te disse Paulinho? Sem disparo, sem facada, sem pilha de morto! - O menino estava como pinto no lixo; cantarolava e dava pulinhos felizes e vencedores.
- É…Quando a esmola é demais, o santo desconfia. - Paulo não estava com bom pressentimento; fora fácil demais convencer Assumar.
-Não seja estraga prazeres!
-Ocê tem muito ainda que aprender sobre a vida Ourinhos…
As semanas contaram, e no meio da noite foi ouvido do lado de fora da hospedaria, um porta voz gritando pelas ruas e acordando toda a vila:
-Estamos mortos! Arruinados! Pegaram Filipe em Cachoeira! Assumar está nos portões com 1500 dragões armados até os pés!
O pânico se instalou geral. Alguns pegavam as tralhas e abandonavam as casas com medo do saque da guarda portuguesa; outros se muniam com enxadas, facões e oque mais tivesse.
Minas observava o rebuliço de dentro do albergue; era gente correndo para todos os lados; saia para se unir à improvisada resistência, mas fora agarrado pela gola da camisa.
-Dondê pensa que vai?- Paulo o segurava para que não fizesse mais uma tolice.
-Lutar.
-Lutá? Pelo que? Pelo o que já tá predido?
-Um homem sabe a hora de lutar.
-Um homem esperto sabe a hora de debandá! Essas almas já estão condenadas, kurumí.
-Mas eles vão morrer!
-Iandê qué morrê junto?! Ocê num tem serventia morto! Agora vorta pra dentro e ni' um pio - O garoto voltou para o quarto contrariado.
As previsões do paulista se cumpriram, a noite pareceu correr arrastada; ainda que a derrota fora em questão de átimos. Nenhum dos corajosos a enfrentar os dragões do rei foi poupado da morte, o mineiro tentou a todo custo dormir sob os barulhos de pólvora e agonizos.
A aurora chegava, era o fim da madrugada; quando se levantou; a hospedaria fora esvaziada, nem o dono estava presente; procurou por Paulo naquele completo silêncio. Foi encontrá-lo do lado de fora, fazendo a sentinela da porta, havia passado a noite com sua espingarda, pronto para qualquer dragão que se aproximasse da entrada.
Olhava sério a multidão que se juntava na praça da cidade; se formava ali uma algazarra.
-O que está acontecendo? - Quis saber.
-Vorta pra dentro…inda não é hora docê sair.
-Porque? O'que há lá?
-Credite…Num vai querer vê isso kurumí.
Minas não deu ouvidos; atropelou o paulista e correu até o local.
-Ourinhos!
Depois de visitar Cachoeira, Bartolomeu e Itaubira, e deixar suas partes pelo caminho, a cabeça de Filipe dos Santos chegara a Vila Rica.
Exposta no meio da praça ainda pingando sangue, brilhava ela com o sol do amanhecer, dando o exemplo a todos os presentes. Era o recado de Portugal para Minas; seu modo de dizer que o esperassem, pois estava voltando.
Paulo chegou ao largo; não encontrava o mineiro em meio às gentes curiosas. Ao se ver frente àquele horror tão perto, até mesmo ele sentiu um arrepio correr todo o corpo.
-Sinhora Mãe dos Esquartejados.- Com o chapéu baixado em respeito a cabeça do finado; fazia o sinal da cruz e continuava sua busca por Minas.
Rodou a vila inteira, na cidade ele não estava, só lhe restou adentrar a mata funda. O dia estava acabando, se desesperava pois nada do menino; escutou um chorinho fraco vindo dos lados da corredeira.
Sentado em uma das pedras da pequena cachoeira com as mãos segurando os joelhos, lá estava ele.
-Ourinhos…
-Me deixe em paz.
- Num foi por farta de aviso.
-Não preciso disso agora. - O rostinho estava vermelho e molhado de lágrimas, revelavam muita dor; aquilo lhe rasgava a alma, por mais negra que fosse.
Paulo então, só se sentou ao seu lado em silêncio, e o deixou aliviar a mágoa do peito. Ficou assim até o choro cessar.
-Num quero te enganá kurumí…Ocê vai ver isso inda muito.
-Porque precisa ser assim?-Sussurrou baixo e moído.
-É uma colônia Minas…num serve prá vivé, serve prá sobrevivê.
O pequeno no momento queria um colo de consolo; se achegou mais perto e o envoltou em um abraço, Paulo pôs-se estático, não se mexia, ficava desconfortável com demonstrações de afeto, por não ser acostumado a elas; mas não quis afastar o mineiro. Apenas o deixou abraçar pelo tempo em que podiam pensar que os problemas estavam a mares de distância.
Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.
O'que não sabiam, é que naquele mesmo instante; atravessando o Atlântico, os problemas vinham a seu encontro.