Minas ainda pensava em como conseguir a simpatia de Paulo de volta. Apelaria para sua meiguice e ficaria grudado no paulista; faria o'que ele mandasse e iria onde ele fosse; tudo atuado na maior disposição e boa vontade.
Estava nesse jogo a semanas, mas o bandeira turrão não caia fácil na sua armadilha, conhecia bem as trapaças do mineirinho; jogava seu próprio jogo, seria implacável até Minas desistir. Nesse joguete de marmanjos orgulhosos, quem cedesse primeiro era o vencido.
Ao acordar de manhã, bastou abrir os olhos para dar de cara com o menino o encarando de ponta cabeça, estava dependurado num dos galhos da jatobá onde haviam noitado.
- Bom dia Paulinho!!- Disse alegremente; o " Paulinho " era mais uma das suas estratégias para amolecer o paulista.
Paulo não respondeu, fez como vinha fazendo nos últimos dias, o ignorou; catou suas coisas e foi andando como se nem existisse o mineiro; havia torcido o pé na trilha, então, levava um galho como apoio. Minas bufou de frustração, mas não iria largar o osso, desceu da árvore e foi no encalço do manco.
- Onde vai Paulinho?
- Pro Inferno - Respondeu na tentativa de dispensar o mala.
- Legal! Posso ir também?- Não adiantou muito.
- Ocê vai pra lá, podi fiá. Nem carece me segui.
- Eu não vou não. Sou um anjo na sua vida. - O outro fez uma zoada de deboche.
Minas finalmente desistiu de jogar seu jogo e ser direto:
Ocê não sabe o'que é perdão?Já fazem semanas! Quando planeja me livrá dessa culpa?- A voz era de chorinho; um chorinho bem falso.
Paulo então fingiu acreditar no arrependimento do pequeno chantagista.
-Perdoá ocê eu já perdoei! Só estava me divertindo a suas custas! - E começou a gargalhar como uma cucaburra .
O menino estava irritado. Fora enganado e feito de trouxa esse tempo inteiro; sem perceber havia soltado a corda e perdido o jogo.
Paulo prosseguiu com a marcha; quando notou que o mineiro não o seguia logo atrás, estava estancado no mesmo lugar de braços cruzados e o olhando com ódio.
-Vai ficá aí? Mu'i bem. Adeus abaçai! - Dava a entender que o estava abandonando, contou até três na mente, e como previsto, o garoto veio correndo para seu lado.
Lá pelo meio do dia chegaram ao destino de sua viagem, a nova e já falada Vila Rica; diziam as línguas que as minas da região eram tão fartas que o ouro transbordava da terra. Obviamente o lugar já havia enchido de gente, em pouco tempo era provável que ali se tornasse o centro do Império; mais importante que a capital soteropolita.
Caminhava nas ruas de pedra com imensa dificuldade devido ao pé torcido, Minas ia um pouco mais na sua frente; quando parou um pouco para recobrar as energias, avistou um papel pregado em uma das portas com algo escrito.
-Minas! Lê aquilo ali pra mim! - Aquela altura o menino já sabia ler, uma coisa ou outra; Paulo não lia nada, então tirava proveito da pouca habilidade de leitura do outro com muita frequência.
-Ocê devia aprender a ler! - Começou a ditar o comunicado real.
-O El Rei determina que passe agora a vigorar a cobrança do quinto em toda a região das Minas; para cada tonelada de ouro extraída deverá ser entregue 20% da parte da Coroa. Para tanto, serão criadas casas de fundição; o ouro deverá ser fundido e transformado em barras com o selo real. Fica estritamente proibida a circulação do ouro em pó ou em barras que não tenham o selo do rei. A sonegação de imposto do quinto será igualmente penalizada com o desterro na África. O'Que?!! - Arrancou o papel do prego e ficou olhando horrorizado para o'que acabara de ler
Aquilo não podia ser verdade; sua repulsa com Portugal havia crescido dez vezes mais. Paulo em contrário ouvira tudo em silêncio e com uma expressão passiva; como se tivesse escutado aquilo uma vida inteira; os mandos parasitas do luso não eram nenhuma novidade para ele.
-Ocê não vai fazer nada?
-Fazer oque?
-Não ouviu? Estão nos colocando cabresto! E ocê simplesmente vai deixá?!
-É só o rei sendo rei...
-Porque ele é o rei, tem que encher os burros c'o meu ouro?
-Sim! Bem vindo ao mundo Ourinhos! - Pegou seu galho e foi- se mancando pela vila como se nada houvesse mudado. Mas Minas era um inconformado.
-Porque ocê nunca questiona ele? Porque ninguém questiona ele?!
-Ouça Ourinhos; podi num parecê; ma'i o bacalhau é uma íguâra! E não se cutuca íguâra c'o vara curta! Ocê para de querer arrumar angu!
Minas não insistiu mais; mas desistir? Jamais! Passadas algumas horas, durante a boia, sentaram no chão com a tigela de comida apoiada nas pernas e as mãos servindo de colher.
Paulo vendo que o menino não comia; lhe roubou um pedaço de toucinho do prato
-Ei! Era meu!
-Quem bobeia, esfomeia...- Falava com a boca ainda mastigando o rijão roubado.
-Paulinho, andei pensando...
-Pois para de pensá.
-... O ouro só vai ser taxado se receber o selo da Coroa. Se nós impedirmos a construção das casas, eles não terão como cobrar o quinto!
-Nóis? Nóis uma pinóia! Iandê quer bulir com isso, bole sozinho!
-Mas Paulo; isso será menos ouro procê.
-Sei disso kurimí! Acha que tô gostoso com isso? Só não sei se vale a pena comprar essa peleia.
-Num vai sê peleia. Nós vamos fazê uma petição.
-Pitição? Acha que nóis pedindo, o bacalhau dá?- O paulista debochava da ideia, porque conhecia Portugal há muito mais tempo.
-Estaremos pedindo civilizadamente. Se ele num dê... bom, ai será peleia.
-Ourinhos, Ourinhos...Ipuchí. Isso é perigoso; ocê tá nadando num tietê.
-Confia em mim, Paulinho! Por favor.- Fez um olhar pidão e uma cara angelical irresistível; tanto que o bandeira, que já muito estava preso na teia do pequeno; não pôde negar.
E assim foi; toda Vila Rica assinou a petição que exigia a anulação das casas de fundição. O escolhido para representar a vontade popular, foi o muito rico e bem amado tropeiro Filipe dos Santos.
Foi ter com o governador, e lhe entregar a ordem de assinaturas; este concordou de bom grado em cancelar a construção das casas de cunho; a negociação correu muito bem. Tudo saira como o planejado; haviam ganhado.
Infelizmente não.
Oque que isso vai dar? To vendo tragédia! E vcs? Comentam ai! Saravá😉✋
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A Comarca d' Ouro
Narrativa StoricaO ouro, o ouro do Brasil. Sua chegada foi recebida com festejos; mas sua estada trouxe consequências. Uma guerra. Uma revolta. Uma separação. Uma comarca instável prestes a virar uma rebelde capitania.
