Minas d' Ouro

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Estava sendo mais difícil do que havia achado. Oque tinha de mais? Era só um nome! Qualquer um estava de bom tamanho. Mas nenhum ficava. Ou o pivete não gostava, ou ele se decidia por outro.

Levava na cabeça uma lista de nomes que foram descartados; alguns era notável que haviam sido inventados no desespero, ou na falta de outra coisa.

O primeiro, Paulo começou com o método que mais conhecia: "O Santo Índio". A tribo dominante na região das minas eram os Cataguás; para se poupar de trabalho, resolveu por esse mesmo.

Cataguá seria bom nome, não fosse o fato de que aquele curumí não se parecia em nada com os curumís que estava acostumado. Tinha pouco de índio nele, mas europeu tinha de sobra; não pôde evitar imaginar diante a tanta semelhança:

- Portugal-Mirim! - Gritou no espanto com sua própria ideia.

O garoto ao seu lado, o fitou com seus olhos cor de mel faiscando de raiva, e com uma careta infantil de asco.

- Que foi? Gostou não? Não gosta de bacalhau?

Continuava com cara brava e beicinho; dando a entender que aquele estava fora de questão.

- Ninguém gosta...só fingi que gosta.

Colocou-o bruscamente de volta ao lombo do cavalo; estavam de romagem pelas vilas que eram fundadas nos novos domínios paulistas, afim de inspecionar a atividade das minas. Haviam feito uma parada, e agora prosseguiam com a gira; até então, o menino não havia aberto a boca.

Quando a noite já era alta, pararam em um povoado decrépito afim de pedir hospedagem para a noitada; era aquilo, ou dormir ao relento na estrada.

Um casal; um português migrado no faro do ouro, que perdeu viagem e se casara com uma mulata alforriada; comandavam a única hospedaria e bar da cidade. Era um lugar sujo; a comida, péssima; infectado de bêbados, ratos, e algumas pulgas.

Qualquer um com o mínimo de juízo não submeteria uma criança aquela espelunca; mas Paulo não dava pela coisa; estava muito ocupado negociando o preço da cama com o português careiro.

- Quarenta pataca pela cama seu baquara?!

- Pois que vá dormir na rua! Se não, pode ir abrindo os bolsos.

-Vinte pataca, é tudo que tenho.

- Aceito a metade em dinheiro; e a outra, podes me pagar me deixando dormir com essa belezinha.

- Sou menino! Não vês não?!- Foi a primeira vez que falou; em alto e bom tom.

O português ficou em choque. Paulo também.

Afinal então, ele podia falar. Seria o fim de sua paz e sossego.

- Perdão. És que assemelha-se muito a uma rapariga.

As desculpas não soaram sinceras de maneira alguma; e não mudavam o fato de que o pilantra realmente o havia cogitado como pagamento.

De qualquer forma, o ordinário hospedeiro precisava muito do mango; e vinte contos de patacas era o máximo de dinheiro que veria em anos de bebidas não pagas. Acabou por fechar o negócio, mesmo a contragosto.

Os quartos eram no andar de cima, e qual foi a frustração de Paulo ao se deparar com uma cama. Uma única cama; naquele cômodo que só contava com a mesma, e uma cadeira de três pernas de madeira.

Aquela miséria mal comportava uma pessoa, balançava e rangia a cada movimento; o colchão devia ser feito de palha, tão magro era.

- Bufunfa jogada fora! Por isso continuo pobre!

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