Apesar de estar folgando na Colônia a um mês, desde aquele incidente, Porto não os perturbou mais. Passava a maior parte de seus dias enclausurado na casa do prefeito de Vila Rica; quando raramente resolvia dar um passeio, os saudava com um bom dia agridoce.
Levava um sorriso amistoso e pacífico; ao mesmo tempo, que carregado de uma típica melancolia lusitana; a fala mansa, e calma, entrecortada por suspiros de tristeza e saudosismos. Chegaram a pensar se o patrão não teria sido acometido pela doença do escorbuto, a falta de vitaminas, podiam deixar anêmico.
Doença de anemia qual oque. Era a doença da paixão; mas não estavam muito interessados em saber do que acamara o patrão; Porto não os incomodando bastava, esperavam que a estadia do luso passasse sem mais problemas, e que este fosse embora logo.
Em um dia quente de céu limpo, debaixo do jatobá de costume; o menino decidiu por alfabetizar o paulista. Sentou-se no meio das pernas do mesmo com um livreto de estórias aberto e começou a ler em voz alta.
Minas estava mais para se exibir do que para ensinar; queria mostrar o quanto sabia; coisas de criança. Esteve declamando por horas, quando fechou o livro perguntou ao outro:
-Viu Paulinho? Num é difícil! O que ocê achou?
Virou-se para o paulista que roncava no seu mais profundo sono. De indignação, acordou o bandeira vagabundo, dando com o livro no seu rosto.
Paulo despertou furioso.
-Aii! Iatéi! Desgraçado! Ocê vai apanhar!
-Si ocê qué continuar burro é problema seu! É a última vez que te ajudo.
-Iandê não ajuda! Ocê qué é si fazê de sabido! Jogá na minha cara que é baquara!
-Porque te incomoda tanto o fato de eu sabê lê?
-Num incomoda! Num preciso deste troço rabiscado! Já sei o que preciso sabê! Antes docê existir, fiz toda essa colônia a pé! Andei inté o mar do Oeste, na terra dos hispânicos! Guerreei c'o gente servage que comia os seus! Vi tudo isso; e num vai sê um kurumí como ocê que vai agora me ensiná sobre a vida!
- Num se pode ajudá quem num qué sê ajudado...
- Dondê ocê vai?!
- Voltá pra vila!
- O caminho num é por ai, aqúaí!
-Num preciso dos conselhos de um ignorante!
- Mu'i bem! Já que o sinhor é tão esperto das coisa, vai achá a estrada sozin! Ba' sorte kurumí!
Subestimou os conhecimentos do bandeira de sobreviver a uma trilha e encontrar rotas. Estava colhendo o que plantou; pois se viu de novo, perdido; mas tamanha era sua raiva com o paulista que não gritou pelo socorro deste.
Novamente pecando pelo seu orgulho, decidido a encontrar o caminho de volta para a vila e provar seu ponto. Resmungando pela estrada, e as vezes, amaldiçoando o nome do paulista; foi abordado por um viajante a cavalo que o seguia atrás.
- Ê tchê! Acordou com a pá virada hoje, guri?
- Não. Acordei com a pá certa. Mas me fizeram o favor de virar ela!
- Em que direção vais?
- Vila Rica.
- Ala-putcha-tchê! É paragem! Vês esse couro todo aqui? Estou indo vende-lo no litoral. Vamos! Sobe aqui, magrão! Dou te uma carona.
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A Comarca d' Ouro
Historical FictionO ouro, o ouro do Brasil. Sua chegada foi recebida com festejos; mas sua estada trouxe consequências. Uma guerra. Uma revolta. Uma separação. Uma comarca instável prestes a virar uma rebelde capitania.
