Eu cheguei vestido de rei
Quem sou?
Eu cheguei vestido de rei
Mutalambô
Que dor imensa. Aqueles desgraçados. Saudava sua pele rasgada, sua parte cortada. O'Que doía mais não era aquele cotoco que tinha agora no lugar da mão; doía a alma, pela injustiça indiferente; um engano nunca era reparado, assim era a colônia, a colônia do senhor Portugal.
Ele era um mero negro, para tal gente, os negros eram animais todos iguais. Se castigava um por outro, pouco importava sua inocência, apanhava por existir. Ah, se aqueles infelizes mortais a cortarem sua mão, soubessem quem era; será que implorariam perdões de joelhos? De certo, não; sua aparência não convencia renomes e importâncias; sua cor não tinha nível.
Apesar disso, não ousou chorar; apesar da humilhação de o cortarem em pedaços em público, segurou as lágrimas e ergueu o orgulho. O orgulho de capitão brasileiro.
Nas ruas de sua Recife andava, a pensar na sua tragédia, na sua raiva; e depois na aceitação da sina. Sua vista não fixava no caminho, algo o esbarrou.
Sua colisão havia caído no chão, mas não parecia ter se dado conta do ocorrido. Com a cabeça abaixada e os cabelos cobrindo a face, murmurava palavras distintas. Em trapos de farpas, um camisolão cheio de rasgados; por todo seu corpo magro havia arranhões e machucados; estava imundo, as unhas cobertas de terra.
Eu vi que o vento zuniu
Eu vi que a folha caiu
Eu vi que relampejou.
Não sabia se percebia sua presença; ia xingá-lo de cego e seguir seu rumo; quando ouviu um chorinho baixo de angústia, acompanhado de mais palavras em um dialeto desconhecido.
-Ahé...Iké. Taci; cetaci! Iné...puxi.
-Menino. menino, tu estás bem?
O estranho levantou o olhar até ele, e o fitou com suas íris castanhas de âmbar; brilhavam assustadas em um dourado pôr do sol. Eram fascinantes, mas transmitiam um imenso pavor.
-Bem Perna. Angatu...
-Como sabes meu nome?
O garoto não respondeu, desviou o olhar e calou-se; como se tivesse dito algo proibido. Perna se agachou e tentou levantá-lo com seu único braço; o outro estava hesitante que o pernambucano o tocasse; mas com muito esforço conseguiu pôr se de pé.
-Quem és tu? Por que corrias assim?
-Iauáu. Mim fugir.
Eu vi que a mata rompeu
Eu vi que a flecha correu
Eu vi que a porta bateu
Chegou meu pai, caçador
-Fugindo? De quê?
-Quem...Auá.
-Alguém te persegues?
-Inti. Não ainda... mas ele vir; ahé cicari. Me procurar; mim procurar...pra prender; como uirá.
-Quem quer te prender? Porque?
-Ahé me querer só pra ele... só dele
-Ahé... ahé é o nome de quem te persegues?
-Inti. Ahé ser capitão...meu capitão. Iára.
É dono do matagal
É guardião do embornal
É chefe da guarnição
-Certo...onde é sua casa? Tua aldeia?
-Aldeia...tinimúca. Tatá queimou; mortos todos!
-Sinto muito; está só nesse mundo então? Como se chamas?
-Téra...mim ter...mim tinha! Não lembro! Meu nome! Meu nome! Qual o meu nome, Perna?!!
Apertou os ombros do pernambucano em desespero; pensava sobre a força descomunal que tinha tão magro rapaz.
-Eu vou saber, rapaz? Solte-me! Agora!
-Mim lembrar, mim precisa lembrar...meu nome era...é...
Com o esforço e estando fraco, desmaiou o gaiato.
-Garoto! Por favor, acorde! Acorde!
Eu cheguei vestido de rei
Quem sou?
Meio adormecido, exclamou:
-O capitão! Ahé chegou! Ahé iké!
Ele é da casa real
Ele é quem briga com o mal
Ele é o meu capitão.
Sem explicação, empurrou o pernambucano e fugiu. Desapareceu no mistério, como no mistério havia aparecido.
Dois dias passados, chegou um mensageiro da Bahia, lhe avisando que Porto estava de volta a Colônia.
Tentaria uma audiência com este; mas não conseguia tirar da cabeça aquele enigma dos olhos âmbar.
Eu cheguei vestido de rei....
Anauê! Ninguém respondeu sobre o garoto misterioso no capítulo anterior... Não sei se por preguiça ou por falta de pistas...
Espero que esse capítulo facilite a vida de vocês...ou não.
E estamos chegando ao ultimo capítulo pessoal! Pois é, a Comarca está acabando.
MAS... deixo vocês votarem num tema de História do Brasil para próxima história; só dizer ai nos comentários👇
Saravá😉✋
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A Comarca d' Ouro
Historical FictionO ouro, o ouro do Brasil. Sua chegada foi recebida com festejos; mas sua estada trouxe consequências. Uma guerra. Uma revolta. Uma separação. Uma comarca instável prestes a virar uma rebelde capitania.
