Verão

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Por mais que o fogo me cercasse em todas as direções e consumisse todo o mundo visível aos meus olhos como um dragão sedento por amplitude e destruição ao abrir sua mandíbula e deixar seu hálito quente esvair, eu não sentir medo. Na verdade, esse calor que o elemento feroz e insaciável que é o fogo trouxe, só me deixou mais confiante e corajoso. 

Como havia dito, eu nasci no inverno, mas sempre queimei como o verão, como a força de mil sois. 

Nunca considerei o fogo como inimigo a se temer ou repudiar. Não me entendam mal, não sou ingênuo de esquecer todas as coisas bárbaras que o fogo pode acarretar, tudo o que ele pode destruir ou condenar... Mas foi o fogo que aqueceu os homens da caverna e possibilitou a nossa existência. É o fogo que mantem a vida nesse mundo. E as vezes as coisas precisam se incendiar para recomeçar.

Seja uma floresta pegando fogo para se começar outro ciclo, a sucessão ecológica secundária. 

Seja a nossa personalidade, que como a fênix, sempre precisam de recomeços, evolução e melhoria... 

Podemos ser melhores, e amanhã temos que ser melhores. 

Por todos esses motivos, não tive medo de seguir aquelas áureas prateadas pelo fogo, em parte porque eu sabia que elas me protegeriam, e em parte porque não tinha medo do fogo ou do perigo, até mesmo o desejava se minha suposição estivesse correta... 

A suposição de que assim, nesse caos eu encontraria a minha paz. E análogo a situação da tempestade, eu correndo e caindo da colina em direção ao meu quase fim, esse era um cenário de clímax onde cominaria na mesma coisa: Arcádia, ou tinha que ser.

Eu queria mais do que qualquer coisa do mundo ir para a Arcádia novamente, ainda mais depois de todas as memórias do meu pai revividas e todos os traumas rodeando minha mente e insistindo em se fazer presente para que toda a dor, todo o luto voltasse como um turbilhão de emoções instáveis, barulhentas e sufocantes.

As figuras translucidas que se assemelhavam a um cachorro e a um lobo dançavam na minha frente abrindo espaço entre as labaredas do fogo trilhando e abrindo um caminho seguro para que eu os seguisse, e assim o fiz por horas a finco até o fogo ser apenas algo em minha memória e um cheiro desagradável de fumaça. 

Por algumas vezes tentei fazer perguntas às figuras. Tentei questiona-las sobre suas identidades ou se era realmente para Arcádia que estávamos rumando... mas os espíritos não me respondiam, apesar de parecerem familiares e determinados a continuar me levando consigo. 

Todavia, chegou um momento que eu não aguentava mais andar. Como um filhote de pássaro ao qual as assas falham mesmo já tendo aprendido a voar, o levando a cair se não tiver ninguém para o segurar e lhe carregar de volta ao céu. Como esse filhote de pássaro, eu sentia que estava prestes a cair do meu céu para a terra. 

A luz não era problema, pois mesmo sendo uma noite sem lua e completamente sombria, os patronos iluminavam tudo a sua volta. O frio também não era uma preocupação, pois estranhamente eu ainda me sentia quente por dentro, de alguma forma a raiva e a esperança me aqueciam. A fome sempre era uma companheira em minha jornada, todos os dias de minha vida ao ponto que aprendi a lidar com ela... 

Então o único e preocupante problema era realmente o cansaço, aquele velho amigo indicador dos limites das nossas capacitardes finitas e humanas. 

Começou com os meus olhos querendo fechar sozinhos, como se fossem enfeitiçados para terem vida própria, além da fadiga muscular que me fazia tropeçar nas raízes das árvores e cair por algumas vezes sem ter o apoio que me alçasse para cima. Depois começaram os calafrios, não devido a temperatura, mas sim devido as lembranças gélidas de épocas sombrias. 

Arcádia/ DrarryHistórias para pegar e não largar. Descubra agora