Era literalmente a nossa música de despedida

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Boa leitura !!

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A culpa que esperava sentir nunca se manifestou enquanto eu estava ali, deitado ao lado dela. Fiquei esperando o arrependimento tomar conta de mim também, mas nenhuma parte minha se arrependia do que havia acabado de acontecer. Nenhuma parte de mim quis poder voltar no tempo e desfazer tudo. Estar deitada ali era como o resultado de uma bela tempestade, da qual você estava esperando uma destruição, mas, em vez disso, não havia nada além do sol surgindo novamente ― uma profunda apreciação pelo que tinha vivenciado.

Eu queria que ela não fosse embora, que eu pudesse abraçá-la até o sol se pôr e nunca deixá-la ir. Mas culpa, eu não sentia. Talvez viesse mais tarde, e então eu lidaria com ela.

— Você parece perdido em pensamentos — ela disse, passando os dedos por meus cabelos. — Você está bem?

— Sim. Estou. — Beijei seu pescoço. — E você?

— Estou admiravelmente calma. Parece que era de você que eu precisava esse tempo todo.

— Sei como é. — Aproximei-me para beijá-la, deleitando-me na sensação de seu corpo nu pressionado contra o meu. — Nunca me esquecerei disso.

Ela passou um dedo por meu queixo.

— Sabe o que percebi?

— O quê?

— Que nunca toquei para você. Prometi que tocaria antes de ir embora.

— Ela saiu de debaixo das cobertas.

Admirei seu lindo corpo enquanto ela ia até um canto do quarto, retirando seu violoncelo da capa. Ela puxou uma cadeira e posicionou-se atrás do instrumento.

Sentei-me, recostando-me contra a cabeceira da cama.

— Bem, certamente não foi assim que imaginei, mas você não vai me ouvir reclamar.

Ela começou a tocar O Cisne, a música que sabia ser a minha favorita. Como sempre, fiquei perdida no transe hipnotizante de seu talento musical. Vê-la tocar nua, só para mim, foi lindo ― outra parte desse dia que eu nunca esqueceria. Era literalmente a nossa música de despedida.

A tensão estranha em meu peito crescia a cada minuto conforme ela continuava a tocar. Eu sabia o que era. Era o sentimento que pensei que nunca sentiria, que pensei não ser capaz de sentir. Era o que eu queria sentir por Maren, mas não foi possível. Não era algo que dava para criar ou controlar. Era paixão e intoxicação absoluta. Desejo absoluto. E dor absoluta por saber que não podia ter Clarke , apesar do que sentia.

Fazer amor com ela me empurrou ainda mais para a beira do precipício, e ainda assim não pude saltar. O anseio parecia insuportável agora. Será que desapareceria, algum dia? Eu não podia saber.

Quando ela terminou de tocar, levantei-me da cama, ainda nua, e ajoelhei-me diante dela. Repousei minha bochecha em seu abdômen e beijei sua pele. Ela enfiou os dedos em meus cabelos, e apenas ficamos ali. Perguntei-me se ela podia sentir tudo que estava se passando dentro de mim.

— Nunca me esquecerei desse dia — ela disse.

— Nem eu, linda. Nem eu. — Finalmente, ergui a cabeça e pousei a palma em seu rosto.

Ela olhou para o relógio.

— Temos que ir. Eu quero você de novo. E de novo. Mas não temos mais tempo.

Levantei-me.

— Talvez seja melhor não termos mais tempo. Provavelmente, só assim conseguiremos parar.

Ela assentiu, virando em seguida para guardar seu violoncelo de volta na capa e começando a pegar suas roupas do chão. Interrompi-a por um momento e puxei-a para mim, dando um beijo firme em seus lábios e deleitando-me com a sedosidade de sua pele, para nunca esquecer aquela sensação. Ela suspirou em minha boca, e, após um minuto, eu a soltei. Fiquei olhando-a se vestir e, relutantemente, fiz o mesmo.

O clima logo mudou de emotivo para completamente melancólico. Eu queria que o tempo parasse, e também queria que esses minutos de pura tortura passassem para que nosso sofrimento acabasse logo.

Mal dissemos uma palavra enquanto eu colocava suas malas no porta-malas. Um caminhão do correio estava estacionado do outro lado da rua, o que me lembrou de que era um dia como outro qualquer para aparentemente todo mundo, menos para nós. Disse a mim mesma que o silêncio em que estávamos era melhor do que se ela estivesse às lágrimas ou triste como mais cedo.

O trânsito, como esperado, estava péssimo. Coloquei música clássica para tocar e segurei sua mão durante todo o trajeto até o Aeroporto Logan. A sensação de pavor crescia a cada quilômetro percorrido. Fiquei questionando tudo, como se existisse uma decisão a ser tomada. Não existia. Um relacionamento com a irmã de Rafe nunca seria uma opção. Inevitavelmente magoar ambos nunca seria uma opção. Então, eu precisava calar a voz em minha cabeça que ficava me dizendo que eu estava cometendo um grande erro ao deixá-la ir, que ainda havia tempo de dizer a ela como me sentia, dar meia-volta e levá-la para casa.

A voz recuou, derrotada, conforme as placas sinalizando os portões do aeroporto começaram a aparecer.

— Vou estacionar e entrar com você. Pode ser? — sugeri.

— Eu prefiro que você não faça isso — ela respondeu. — Só deixaria as coisas mais difíceis, a essa altura.

Assenti. Prolongar essa despedida não nos ajudaria. Após parar na área de desembarque de veículos, abri o porta-luvas e retirei de lá uma caixa retangular, que entreguei para ela.

— Guarde isso na sua bolsa. Tome cuidado com ela, mas não abra até chegar ao seu apartamento na França.

Seus olhos marejaram.

— Está bem.

Forçando-me a sair, dei a volta no carro e abri a porta do lado do passageiro antes de ir até o porta-malas para pegar sua bagagem.

De frente uma para a outra na calçada, limpei a lágrima que estava se formando em seu olho.

— Me prometa uma coisa,  senhorita temperamental — ela pediu.

— Qualquer coisa.

— Prometa que não vai ficar se punindo pelo que fizemos hoje, quando a ficha cair mais tarde. Porque isso vai acontecer.

Segurei seu rosto entre minhas mãos e olhei em seus olhos.

— Nunca me arrependerei do que fizemos hoje. Está me ouvindo? Nunca. — Puxei-a para mais perto de mim e senti seu coração martelando contra meu peito. — Caramba, o seu coração.

— Melhor do que a alternativa. — Ela fungou. — Sinto que, se ele bater mais devagar, vai acabar se partindo.

Forcei-me a dar um passo para trás.

— Você se sentirá melhor quando chegar lá.

— Espero mesmo que sim. — Ela checou a hora. — Tenho que ir. — Ela balançou a cabeça e baixou o olhar para os sapatos. — Não vou me despedir. É doloroso demais. Vou apenas me afastar.

— Eu entendo, Clarke. Sem despedida. — Lágrimas começaram a surgir em meus olhos.

Clarke riu em meio às lágrimas.

— Obrigada mais uma vez por pintar as unhas dos meus pés.

Forcei um sorriso, tentando com todas as minhas forças não chorar.

Ela se afastou do meu alcance, mas não pude deixá-la ir sem um último beijo. Eu a detive, tomei sua boca na minha e a inspirei uma última vez, esperando poder gravar tudo em relação a ela em minha memória. Esse envolvimento maravilhoso que vivenciamos durante os últimos oito meses tinha chegado ao fim.

Dessa vez, quando ela se afastou, deixei-a ir. Conforme ela seguia para as portas deslizantes do aeroporto, meu coração parecia estar estrangulado.

As portas se abriram para ela, e fiquei olhando-a ir embora, até desaparecer de vista.

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🥺🥺🥺🥺😢

L. WoodsHistórias para pegar e não largar. Descubra agora