A alvorada rompeu com suavidade, despertando a aldeia com seu toque dourado. Anemone, entretanto, já estava acordada, os olhos abertos para o teto de sua pequena casa, reflexiva. O dia que se iniciava não era como os outros; era o dia em que o conhecido daria lugar ao desconhecido, o seguro ao incerto, o sonho à realidade.
Ela se levantou silenciosamente, evitando perturbar o sono tranquilo de Mariah. Na quietude da manhã, cada movimento que fazia parecia amplificado, cada passo um prelúdio do que estava por vir. Anemone vestiu-se com praticidade, escolhendo roupas resistentes que a protegeriam nos vários climas que enfrentaria.
Na cozinha, preparou uma pequena bolsa de viagem com ervas, poções, e pequenos objetos encantados que poderiam ser de ajuda nas situações mais inesperadas. Além disso, levava consigo o livro de feitiços que pertencera à sua avó, uma herança de sabedoria ancestral que a acompanhou desde a descoberta de seus poderes.
Antes de partir, Anemone parou ao lado da mãe, observando-a dormir pacificamente. Com um beijo suave na testa de Mariah, ela murmurou uma prece silenciosa, pedindo aos espíritos da floresta que guardassem aquela que lhe deu vida. Ao se erguer, deixou uma carta sob a almofada de Mariah, onde escreveu as palavras de amor e despedida que não conseguira pronunciar em voz alta.
A aldeia ainda estava adormecida quando Anemone se aventurou para fora de seus limites, apenas os primeiros pássaros saudavam a manhã com suas canções. Ela não queria partidas dramáticas ou lágrimas; a bruxa do vento partia não com pesar, mas com a determinação de quem tem um propósito maior a cumprir.
O caminho que escolheu levava-a inicialmente para o leste, na direção do sol nascente. Ela seguiria a linha do horizonte, onde o céu abraça a terra, até que o vento lhe dissesse para mudar de curso. Enquanto andava, Anemone podia sentir o peso de cada passo conectando-a mais profundamente à terra, cada brisa trazendo mensagens que apenas seu espírito treinado poderia decifrar.
Durante a caminhada, Anemone refletiu sobre as visões que lhe haviam sido mostradas. Imagens de um lugar onde o céu era uma tapeçaria viva, pulsando com cores de um pôr do sol eterno. Ela sabia que a chave para as ameaças que se formavam estava lá, em algum lugar entre a realidade e a miragem, e que sua jornada seria longa e repleta de provações.
O sol estava alto quando ela alcançou o topo de uma colina que oferecia uma vista de seu lar agora distante. Ela se voltou para trás, permitindo-se um último olhar. A brisa se intensificou, como se a própria floresta quisesse lhe dar um último encorajamento, um último toque de conexão.
Anemone não sabia quanto tempo levaria até que visse sua aldeia novamente, ou se a veria como a deixara. Mas uma coisa era certa: cada sussurro do vento, cada murmúrio da terra, cada segredo compartilhado pela água e pelo fogo a acompanhariam, orientando-a e protegendo-a.
Ela respirou fundo, sentindo o poder que corria em suas veias, o legado de sua linhagem. Então, com um aceno para o passado e um olhar firme para o futuro, Anemone continuou sua jornada, seguindo o chamado do destino que a aguardava além das fronteiras da aurora.
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Sussurros do Vento
Romance"Sussurros do Vento" é um convite para cruzar o véu entre o comum e o extraordinário, uma viagem ao cerne da alma onde cada brisa narra uma saga ancestral. Na voz de Anemone, filha do vento e bruxa da vida, descobrimos que cada rajada e cada sopro s...