A aurora trazia consigo um manto de neblina, e Anemone estava de pé à beira do campo da aldeia, os olhos fixos na linha tênue onde o céu beijava a terra. A voz do vento lhe sussurrava melodias de um novo dia, carregando o frescor da madrugada e a promessa de mistérios revelados.
Eolus se aproximou, os passos quase silenciosos na grama orvalhada. "Hoje," ele disse com um olhar significativo, "vamos invocar o círculo de cantos."
Anemone sentiu uma onda de antecipação. O círculo de cantos era uma antiga tradição mágica da aldeia, uma cerimônia que tecia magia e música em um entrelaçado de poder e beleza.
Eles caminharam até o coração da floresta, onde os troncos das árvores pareciam formar colunas de uma catedral natural. No centro, uma clareira circular estava marcada por pedras cobertas de musgo, cada uma gravada com símbolos ancestrais.
Os aldeões já estavam lá, formando um círculo. Cada pessoa segurava um objeto — uma pedra, uma pena, um ramo de árvore — cada um representando um elemento da natureza, um acorde na sinfonia do mundo.
Anemone foi conduzida ao centro do círculo. Eolus deu-lhe uma pequena bolsa de couro, dentro da qual havia pó de diversos minerais coloridos. "Cada cor," ele explicou, "é um aspecto da magia que flui através de nós. Quando o círculo começar, você irá conjurar e guiar essa magia."
Ela abriu a bolsa e derramou um pouco do conteúdo em sua mão. Ao contato com sua pele, o pó brilhou levemente, pulsando com energia.
A cerimônia começou com um canto baixo, quase um murmúrio. Os aldeões começaram a caminhar em volta da clareira, suas vozes crescendo em harmonia. Eolus iniciou o ritual, jogando ao ar uma pitada do pó colorido, que se transformou em faíscas de luz dançando ao ritmo do canto.
Inspirada, Anemone fechou os olhos e se deixou levar pela canção, pelo cheiro da terra, pelo toque do vento em sua pele. Levantou as mãos e, conforme dispersava o pó mágico, este explodia em chamas coloridas, azuis, verdes e violetas, iluminando a clareira com a magia da alvorada.
As vozes dos aldeões se entrelaçavam, criando um tecido de som e energia que se expandia para além das árvores. As cores vibravam em resposta, e a magia fluía como uma corrente viva, tocando cada ser presente, entrelaçando-se com a essência da vida mesma.
E então, no clímax da cerimônia, Anemone sentiu algo se desbloquear dentro de si. Era como se uma barreira invisível tivesse sido quebrada, liberando um fluxo de poder que ela apenas vislumbrara em seus sonhos mais selvagens. Com um grito de liberdade e força, ela liberou a magia acumulada, e a clareira foi banhada em luz dourada.
Quando o canto terminou e o silêncio se apossou do espaço sagrado, não houve aplausos ou palavras. Apenas olhares compartilhados de maravilhamento e um entendimento tácito de que algo profundo e indelével havia sido alcançado.
Anemone, no centro do círculo de cantos, sentia-se renovada, como se tivesse se tornado parte da própria respiração do mundo. Ela sabia que sua jornada estava longe de terminar, mas agora carregava consigo um poder ancestral, uma conexão com a terra e o vento que ninguém poderia romper.
O caminho diante de Anemone estava apenas começando a se revelar em toda a sua majestade.
O poder que agora fluía dentro de Anemone era selvagem e antigo, uma força da natureza em sua forma mais pura. Ela podia sentir a vida ao seu redor pulsando em sintonia com seu novo ritmo. Os olhares dos aldeões não continham apenas admiração, mas também um respeito reverente; ela havia se tornado um vórtice pelo qual o espírito do vento falava.
Eolus aproximou-se com um sorriso que continha décadas de conhecimento. "Você sempre foi parte deste mundo, mas agora você compreende o seu lugar dentro dele. A magia não é uma ferramenta, é uma linguagem, uma que você agora pode falar com fluência."
As palavras de Eolus eram um convite para explorar mais profundamente a tapeçaria da existência. Anemone sentia a energia da terra sob seus pés, a vitalidade das plantas, o fervor dos animais e o zumbido da vida invisível que tecia tudo junto. A magia estava em tudo, e ela era agora uma intérprete dessa sinfonia cósmica.
A clareira começou a se dispersar, mas a magia permanecia, ziguezagueando entre as árvores, fluindo pelos riachos, e sussurrando nas brisas que se moviam entre as folhas. Anemone caminhou até a borda da clareira e tocou uma das pedras gravadas com símbolos. Ela sentia o pulsar do poder antigo, uma memória de tempos imemoriais gravada na própria pedra.
"Faremos isso de novo?" perguntou Anemone, ainda sentindo o calor da magia em suas veias.
Eolus acenou com a cabeça. "Sim, mas cada vez será diferente, pois a magia é como o vento, nunca estática, sempre mudando e trazendo novos mistérios."
Anemone sabia que tinha muito a aprender. Cada sussurro do vento era uma lição, cada murmúrio da terra um segredo a ser desvendado. A magia não era apenas uma parte dela; ela era uma parte da magia.
O sol estava agora alto no céu, e a vida na aldeia voltava ao seu ritmo normal. Mas a magia da manhã permaneceria com Anemone, uma chama constante que iluminaria seu caminho, não importa onde o vento a levasse. Anemone, a aprendiz de vento, havia apenas começado a descobrir a vastidão de seu poder e o papel que desempenharia na grande tapeçaria da vida.
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Sussurros do Vento
Romance"Sussurros do Vento" é um convite para cruzar o véu entre o comum e o extraordinário, uma viagem ao cerne da alma onde cada brisa narra uma saga ancestral. Na voz de Anemone, filha do vento e bruxa da vida, descobrimos que cada rajada e cada sopro s...