Senhor com voz de algodão.

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Dia 1. II

Gosto de quando os pingos caem sob meu rosto, sinto como se eu existisse de verdade, como se eu não fosse alguém no meio de 8 bilhões de pessoas, e a minha vida importasse de verdade. Sinto-me viva como nunca, podendo voltar a ser criança e pular em poças de água como se o amanhã não acontecesse. E de fato, o hoje é o amanhã que talvez nunca chegue.

Tenho medo de pingos fortes, me fazem lembrar de uma noite de uma sexta embriagada de cerveja, os pingos fortes sentem raiva de mim e caem com mais força sob meu rosto já molhado de lágrimas. Tenho medo de chuva de raios, tenho medo de trovões, tenho medo do papai me acordar a noite gritando com a mamãe. Ainda estamos falando de Chuva?

Meus pensamentos se perdem pela rua, lembro-me de estar pedalando e freio sem pensar, a chuva forte não me trás mais medo, ando pacientemente enquanto sinto os pingos fortes que já não me causam dor. E minha dor foi passageira, como a chuva que se vai embora.

Sento-me em um banco próximo, onde um senhor já se encontra ali, seus cabelos grisalhos me chamam atenção, talvez 70 ou 80 eu não sei? Mas gostaria de perguntar, seus traços são comuns como de alguém que já se passou por mim mas meu cérebro não quis fotografar. Me acomodo no banco frio e molhado, minha bicicleta cai ao lado.

— Porque se senta aqui sozinho? — pergunto sem receio.

— Porque se senta aqui sozinha? — devolve a pergunta, sua voz era suave, me lembrava uma nuvem fofa parecendo algodão.

— Não estou sozinha, o senhor me acompanha.

— Certo — O senhor sem nome sorri — costumo vir aqui as sextas a noite, minha esposa adorava perambular por ai, ela costumava se sentar neste banco — bate a mão sob o acento — e observar as estrelas, ou pelo o menos as que podiam se ver.

Gosto de imaginar a vida de pessoas desconhecidas, mil questões se formam em minha cabeça. Onde está sua esposa? Porque ela gostava de observar as estrelas? E se ela se foi, porque não o confortou para ter sua própria vida? O senhor com voz de algodão responderia minhas perguntas?

— E onde está sua esposa? — ele abre um sorriso maior do que se pode ver.

— Ah minha esposa... ela viajou pra outro estado mas 'já está de volta, a sinto aqui comigo quando venho nesta avenida para estar mais perto da minha querida.

Penso: que senhor adorável, sua esposa completa sua alma doce, mas porque esse alvoroço? Ela sequer morreu.

— Acha que ela é o amor da sua vida? — o questiono.

— Se é o amor da minha vida? ela é meu amor inteiro, querida — o senhor gargalha — eu não preciso de mais nada, só de estar com ela meu coração dispara. Eu a esperei por tantos anos, e ainda sinto como se fosse a primeida vez, ela é a minha menina e eu o menino dela, sinto sua falta, falta que não cabe no peito.

Meu coração se esquenta, o amor ainda vive nos mais inesperados lugares, nas ruas mais escuras e nos corações mais machucados.

— O senhor me enche de alegria, quero encontrar meu amor um dia, amor pra recordar.

— Escute — seu semblante se tornou sério — Seu primeiro amor é você menina, se estiver inteira vai encontrar seu segundo amor. Não pra recordar, mas para fazer memórias com você, e quando menos esperar ele vai estar em um banco da praça lembrando do seu sorriso enquanto você não volta.

Sorrio sozinha, será que um dia vou encontrar um amor genuíno assim?

— Lembrarei de suas palavras, são tão doces quanto o senhor.

— Qual o seu nome? — Ele pergunta sorrindo levemente.

— Carolina — sorrio contente.

— Lina? Ah... Lina! É um bom nome!

Fui embora pensando em suas palavras, gritando por minhas veias e dilacerando meu peito querendo pular para fora.

Desde então, passei a me apresentar assim, depois de uma pequena conversa com um senhor com voz de algodão. Lina... é um bom nome.

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