Capítulo Três

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— Você já viu os girassóis no quintal? — eu perguntei, tentando quebrar o silêncio da casa.

Já era o dia seguinte da sua chegada na casa, e eu estive tentando deixá-la no seu espaço e confortável. Mas também queria me aproximar aos poucos, para que ela também se sinta bem comigo.

Eu ia tentar devagar.

— Não cheguei a ver o quintal — negou.

— Quer ver? — ofereci. — É um cantinho especial para você. Acho que vai gostar de ver.

— Me mostra — ela pediu.

Nós seguimos para o lado de trás da casa.

— Nossa, que lindo  — a Sunhee exclamou animada assim que viu os girassóis.

Ela encarava os girassóis com o mesmo brilho nos olhos que antes.

— Cuidei deles no último mês, mas normalmente é você quem cuida.

— Vou tentar voltar a cuidar — afirmou.

Eu sorri.

— Eu lembro que achava girassóis lindos, mas não que gostava ao ponto de ter um canto cheio deles no quintal da minha casa.

— Você começou a gostar mais depois que começamos a namorar — contei. — Em um dos nossos encontros, nós achamos um lugar cheio deles. Depois disso eu te presenteei com um, e você começou a gostar assim.

— Queria tanto lembrar... — ela falou quase em um sussurro e voltou a encarar as flores.

— Logo você vai lembrar — tentei ser positivo.

Nós tínhamos que ser positivos.

— Tomara — suspirou. — É agoniante saber que eu tinha uma vida, mas não lembrar de nada dela.

Eu não respondi, só me afastei e sentei em um dos bancos que tinha no nosso quintal.

Eu continuei encarando as costas da mulher. Logo ela desviou o seu olhar para mim novamente.

No segundo seguinte ela se aproximou e sentou no banco, só que um pouco mais afastada de mim.

— Como você se sente com isso? — perguntou.

— Isso o que? — me virei para ela.

— Você é casado com alguém que não se lembra de nada que viveu com você — falou meio sem jeito. — Como você se sente com isso?

— Eu me sinto deslocado — fui sincero. — Você está aqui, bem na minha frente — gesticulo, apontando para ela. — Mas é como se não estivesse, entende?

— Eu tento agir naturalmente, mas na verdade eu não sei como é o meu natural com você — lamentou.

— Você não precisa tentar agir de alguma forma. Apenas aja como você mesma — eu sorri pequeno, tentando confortar ela.

Eu fitei bem os seus olhos.
Algum dia eu conseguiria ver as suas orbes brilhantes direcionadas à mim novamente?

— Eu sinto muita falta de pouco mais de um mês atrás. Sinto muito a sua falta — desviei o olhar. — Mas eu agradeço todos os dias por você estar bem. Esse era o meu maior desejo quando você sofreu o acidente.

— Eu nem sei o que dizer sobre isso... — ela se mexeu inquieta. — Tecnicamente a pessoa que você era apaixonado não existe mais, certo?

— Claro que existe — olhei para ela no mesmo instante. — E está bem aqui na minha frente. Eu sou apaixonado pelo o que você é — continuei. — Claro que tudo o que nós vivemos contribuiu com o aumento desse amor, mas eu sou apaixonado pelo jeito que você é e sempre foi. Nada muda.

— Faz poucos dias que eu acordei e conheci você pela segunda vez — ela fez uma careta ao estranhar a sua fala e eu ri. — Mas já posso notar que você é uma pessoa incrível — sorriu pequeno. — Me deixa conhecer você de novo?

— Como um recomeço? — levantei as sobrancelhas.

— Nós precisávamos de um recomeço?

— Não — Eu neguei.

— Isso não precisa ter um nome. Só me deixa conhecer você mais uma vez. Se eu me apaixonei, é por que você é alguém incrível. E eu quero poder saber novamente como você é.

— Eu deixo você me conhecer novamente — assenti e sorri. — Mas não fique se forçando a nada, ok? Não estou pedindo para você ter algum sentimento por mim, caso a sua memória demore mais para voltar.

— Talvez ela nunca volte — ela sorriu fraco. — Mas... Eu vou só conhecer você, ok? Como se estivéssemos nos conhecendo agora. Só que no caso, apenas eu estou.

— Tudo bem — eu afirmei, vendo ela sorrir.

Mas uma certa dorzinha surgia no meu peito.
Tinha muitas chances de eu nunca mais ter o amor dela de volta.

— Onde fica esse lugar? — voltou a puxar assunto depois de um instante. — Fica longe?

— Não muito. Por que?

— Queria ir lá um dia — encolheu os ombros levemente. — Quero saber de onde veio o meu amor por girassóis.

— Podemos ir no sábado, o que acha? — perguntei e ela sorriu, assentindo.

— Pode ser.

— Então combinado! — eu sorri feito um bobo.

Eu ia começar a planejar coisas como aquela. Ir à lugares especiais para nós.

Não sei se isso ajudaria no processo da recuperação da memória da Sunhee, mas pelo menos eu tentaria.

A garota realmente parece interessada em saber e conhecer mais do que viveu nos últimos anos, incluindo à mim... E eu a ajudaria a imaginar cada detalhe dos nossos momentos importantes, e até os mais bobos.

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