ELEANOR
O SOM SECO E ÚMIDO de metal atravessando a carne rasga o silêncio da floresta.
Um corpo despenca em seguida.
Então vem o tilintar da armadura contra a terra, alto o bastante para reverberar entre as árvores.
Meu estômago se contrai com uma sensação de pavor... mas também alívio.
As duas emoções colidem dentro de mim com violência.
Eu me viro por puro instinto, antes mesmo que a mente consiga compreender o que aconteceu.
E a primeira coisa que vejo é uma cabeça decepada.
Os olhos, grandes e de um violeta vívido, permanecem arregalados, congelados em uma expressão vazia e antinatural. As escamas prateadas, salpicadas de púrpura, ainda capturam a luz trêmula das tochas, mas agora estão manchadas por um líquido espesso e escuro que escorre por seu corpo. A boca permanece entreaberta, revelando fileiras de presas serrilhadas, afiadas como pequenas lâminas.
Mesmo morta, a criatura continua parecendo perigosa.
— Eleanor. — A voz grave atravessa o silêncio.
Meu nome.
Apenas isso.
Ainda assim, cada sílaba parece possuir um peso próprio.
Ergo o olhar e encontro uma figura emergindo da penumbra, avançando dos pontos sem luz do pequeno recinto. Os passos são lentos, firmes, quase deliberados demais, como se não houvesse no mundo uma única coisa capaz de representar uma ameaça.
E só então a luz da tocha mais próxima finalmente alcança seu rosto.
Os cabelos negros caem em ondas desalinhadas ao redor de feições tão perfeitas que parecem esculpidas pelas mãos de um deus. A mandíbula é forte, as maçãs do rosto são marcadas e a boca, séria demais, carrega algo perigosamente atraente.
Sua expressão permanece serena.
Não há pressa. Não há tensão. Não há sequer o menor vestígio de esforço.
Como se decepar aquela criatura tivesse exigido tanto empenho quanto arrancar uma flor do chão.
E apesar dele estar coberto pela penumbra, pela fumaça e pelo cheiro de sangue, ele consegue permanecer absurdamente belo.
Bonito de um jeito que chega a ser perturbador.
Então vejo seus olhos, verdes intensos, de um tom tão vívido que parecem conter a própria luz em meio à escuridão.
Eles me encontram.
E o mundo simplesmente... para.
Meu coração falha uma batida.
O ar se prende em meus pulmões, e, por um segundo ridiculamente longo, sou incapaz de lembrar como se respira.
Há algo nele que me prende onde estou. Algo feroz e magnético, como se cada instinto em meu corpo tivesse sido subitamente reescrito para reconhecê-lo.
Não consigo desviar o olhar.
Não quero.
Porque diante de mim não parece estar um homem.
Parece um deus antigo saído de alguma lenda esquecida – belo demais, perigoso demais e completamente capaz de me destruir.
Uma sombra de sorriso toca seus lábios.
Pequena. Quase imperceptível.
Mas é suficiente para transformar seu rosto em algo ainda mais perigosamente belo.
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TEMPESTADE DA COROA (EM REVISÃO)
Fantastik→PRIMEIRO LIVRO! O frio é a sua coroa. O trono foi roubado. A vingança, forjada no gelo. Em um reino que pune a magia com a morte, Eleanor não é apenas a última herdeira de uma linhagem temida: ela é um segredo vivo, uma rainha cujo poder sobre a ág...
