Capítulo 08

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— Quem ele pensa que é? — Raul irritadiço levava a colher de sorvete de chocolate dentro da boca, para a sua sorte o inverno tinha finalmente passado e o sol escaldante mostrava sinais de voltar.



Fazia quase duas semanas que não dirigia a palavra ao loiro desde o último encontro que tiveram mesmo não conseguindo o tirar da sua cabeça.


— Como ele se atreve a me tratar como um qualquer! Aquele ogro gostoso! —  O pastor alemão inclinou a cabeça para o lado confuso com a atitude do seu dono que comia o seu sorvete.


Raul tinha as pernas cruzadas com o pote de gelado entre elas para poder melhor desfrutar do seu consolo em momentos de tristeza.


O enfermeiro resmungou insatisfeito porém o seu coração bater forte quando escutou a campainha tocando, por um momento cogitando que fosse Benjamin.




Calçou os chinelos antes de ir praticamente correndo abrir a porta ansiosamente por se deparar com aqueles olhos azuis que pareciam estar sempre tediados.


— Adam? — Raul sentiu uma decepção tomar conta de si quando se deparou com o médico a sua porta. O homem de cabelo castanhos envolveu o corpo do menor num abraço apertado.

— Gostou? Eu trouxe os seus sabores favoritos — O médico falou mostrando o plástico onde carregava duas caixinhas de bombons alegrando o dia de Raul.

— Como você sabia? — Adam sorriu sedutor antes de distribuir beijos pelo rosto do retinto que gargalhava alto.

O enfermeiro quis empurrar Adam mas não o fez quando notou um certo loiro próximo a eles segurando um plástico descartável.

O fumo a cigarro saía pelas suas foças nasais quando tragou o cigarro encostando na parede. Adam manteve as mãos no lado da cintura do menor que cruzou os braços tentando ignorar o loiro.


— Pelo menos arranjem um quarto — Benjamin disse irritando o homem negro que revirou os olhos diante a exclamação do seu vizinho.

— Não se mete, Jones — Adam Interveio quando Benjamin novamente levou o cigarro a boca enquanto secava Raul, seguiu as mãos do homem alto que puxou o enfermeiro para mais perto, apertou o plástico desejando estar no lugar do Adam.



— Melhorou? — Benjamin preguiçosamente guiou os olhos para o seu braço coberto pela camisa de mangas longas que vestia. O maior ignorou o completamente antes voltar para o seu apartamento.



— Deixa ele para lá — Adam disse puxando o mais velho para dentro de casa.



Por outro lado, Benjamin violentamente jogou o maço de cigarro contra a parede em puro ódio. Ele não suportava a ideia de ter Adam tocando o retinto mesmo que não entendesse o real motivo.





— Espero que esteja com o mesmo humor para o evento de amanhã a noite — Rose disse parada atrás da porte do agente que manteve a sua postura indiferente até sentar no sofá.




— Devia ir enfrente ao invés de ficar aí espumando de ciúmes — Provocou o loiro que fintou a mulher que gargalhou ao notar o seu melhor homem finalmente mostrando sinais de ser um humano.





— O Scott andou organizando uma espécie de baile de máscaras para amanhã a noite mas acho que é óbvio o motivo por detrás disso — Rose continuou séria, o seu sentido de humor morreu quando Jones não acompanhou na conversa.







— Ele sabe que se sair eu vou estar esperando por isso usou essa festa como pretexto — Jones disse apagando o cigarro.




— Quase todos que estarão lá são assassinos ou alguém querendo o MI6 reduzido a pó e você seria um alvo fácil se entrasse lá — Rose falou tentando tocar o ombro do loiro que se afastou dela.




— Eu já estou morto há muito tempo então não muda nada — Respondeu deixando a mulher incrédula diante as suas palavras cruéis.





— A sua apatia não pára de me surpreender, Jones — Deu-lhe as costas não aguentando mais ficar naquele lugar ou acabaria perdendo a sua compostura firme e dizer coisas que não desejava.





— Você me ensinou a ser assim! — Exclamou puxando as madeixas loiras em frustração pela montanha russa que estava a sua cabeça.





O loiro fechou os olhos na tentativa de suprimir a vontade de ir a porta de Raul e tirar o homem de cabelo castanho dela ao muros.



A sua mente não surportava a ideia de sequer imaginar Raul com outro homem o tocando que não fosse ele, a sua alma se corroía ao lembrar de Adam beijando o enfermeiro, as mãos ousadas sobre o seu corpo.

Perdido nos seus pensamentos Benjamin não percebeu que duas horas haviam se passado até levantar bruscamente.

— Foda-se! — O loiro não percebeu o quão rápido se moveu até escutar o barulho dos seus dedos batendo contra a madeira da porta de Raul.




Benjamin franziu o cenho ao ser recebido por um Raul choroso com um roupão envolta do corpo e o Adam fechando o ziper da sua calça.

O loiro voou para o pescoço do médico que sorriu presunçoso, confiante de que não fariam nada contra ele enquanto ali estivesse.



— Solta ele, Benjamin — Raul implorou deixando o agente sem escolha se não obedecer porém não o faria antes de conseguir a informação que queria.




— Não solto até me dizer porque está chorando — Retrucou aumentando a aperto ao redor da gola de Adam que estava ficando vermelho.




— Tivemos uma noite maravilhosa de sexo, toquei em cada parte do seu corpo, o fiz gritar enquanto o comia loucamente. Ele foi meu, uma coisa que você jamais será, são motivos suficientemente bons para você ou quer mais? — Adam respondeu para provocar ao loiro que o jogou o chão.




— Porque ele está chorando? — Raul fungou enquanto tentava tirar a mão de Benjamin do pescoço de Adam.





— Benjamin! — O loiro soltou Adam que começou a tossir e Raul deu uma bofetada no médico que ficou com a bochecha vermelha por causa do impacto.





— Eu pensei que você fosse diferente — O enfermeiro esbravejou com raiva porém com as lágrimas ainda brotando pelo seu rosto.





— E eu sou. Quantos homens como eu achas que mostrariam interesse por uma puta fácil como você? — Adam falou deixando o enfermeiro ainda mais decepcionado com a pessoa que considerava o seu melhor amigo.







— Sou branco, rico e com um futuro promissor. Devias grato por eu gostar de ti, não é tão comum pessoas como eu se apaixonarem por negros como você — Benjamin pegou o médico pelo braço para fora do apartamento de Raul e fechou a porta.






Raul, desolado, abraçou o próprio corpo ainda não acreditando que escutou aquelas palavras da boca de Adam. Ele suspeitava que o médico só o tratava bem porque tinha um interesse por si mas confirmar isso doeu mais do que jamais imaginava.



Max, o seu pastor alemão, choramingando, encostou o focinho na bochecha de Raul tentando consola-lo, o enfermeiro afundou o rosto na pelugem de seu cão que permaneceu quieto enquanto o seu dono chorava.


Benjamin tocou no ombro de Raul que ergueu o rosto encharcado e os olhos levemente inchados.

Fez menção de passar o seu polegar pelo o rosto do homem retinto mas parou ao dar-se conta de que as suas mãos foram feitas para tirar e não cuidar ou assim pensava o loiro.


O sangue manchando aquelas mãos não poderiam tocar em alguém com uma aura tão pura como de Raul.


— Como faz isso? — Questionou realmente intrigado por ver a vida transbordar pelos olhos castanhos, era notável a sua tristeza mas ela não chegava nem perto de tirar aquela sensação de pureza vindo dele.




O enfermeiro inclinou a cabeça para encostar na mão de Benjamin, podia sentir a textura áspera resultado do trabalho do homem loiro, o calor através da pele e o cheiro a cigarro.



— Cheira a cigarro — Comentou ainda de olhos fechados fazendo o coração do loiro acelerar, e ali percebeu que estava indo por um caminho perigoso.

SOMBRA E LUZOnde histórias criam vida. Descubra agora