Raul despertou quando sentiu algo quente e molhado tocando a sua bochecha e abriu os olhos, a sua vista turva e a leve dor na nuca o fizeram recordar de tudo que aconteceu antes de apagar.
— A bela adormecida acordou — O enfermeiro voltou a sua atenção para a voz ríspida que ecoou atrás de si.
O retinto sobressaltou-se quando se deparou com o loiro vindo em sua direcção com uma tigela na mão.
Raul levantou-se e agarrou a camisa do loiro que não parecia nem um pouco assustado com a fúria do menor.
Baixou o olhar para encarar o homem que mal chegava perto do seu ombro, acho interessante um homem daquele porte estar o enfrentando corajosamente.
— Você me nocauteou, seu filho da puta! — O enfermeiro esbravejou raivoso quando o loiro soltou uma leve risada ao perceber a diferença gritante entre eles.
Raul sentiu o seu corpo sendo jogado contra o chão, esperou sentir dor porém as suas costas colidiram em algo macio para a sua sorte.
O enfermeiro debateu tentando se livrar do braço forte que o pressionava no lugar.
— É por isso que não gosto de ficar com civis. São emotivos demais para o meu gosto — Benjamin falou deixando o prato de comida para Max, que rapidamente começou a devorar a carne que o loiro ofereceu.
Raul fintou a porta fechada do lugar onde estava, o ambiente fechado e mal iluminado tinha uma aparência rústica bem a cara do loiro.
Os móveis desprovidos de cor vibrantes, o cheiro a cigarros o fez perceber que não estava mais em sua acolhedora casa.
— Eu não faria isso se fosse você — O loiro comentou quando o enfermeiro fez menção de ir em direção a porta, ele precisava fugir dali e chamar por ajuda.
Benjamin se afastou para ir pegar o seu maço de cigarro, ele precisava fumar ou acabaria perdendo a pouca paciência que tinha na hora.
— Porque eu daria ouvidos a um assassino? — Tocou a sua nuca, o lugar doía tanto mesmo não havendo sinais de sangramento ou cortes.
— Salvar a sua vida não foi o suficiente ou quer mais? — Respondeu voltando lentamente para o homem que ainda estava deitado no sofá.
Benjamin parou na frente do homem negro e segurou o seu braço sem delicadeza alguma até parar na janela.
Raul ficou boquiaberto quando viu homens armados parados em frente a sua casa, eles pareciam estar esperando por ele mas porque ninguém estava chamando a polícia ou denunciando?
— Eu não sei o que você fez mas eles querem as nossas cabeças numa bandeja então eu sugiro que fique comigo caso deseje continuar vivo — Raul cobriu a boca evitando soltar os soluços presos na garganta.
— O Max? — Procurou pelo seu cão em puro desespero, não surportaria perder a única família que tinha. O loiro apontou para o animal que comia tranquilamente o seu pequeno almoço.
— Graças a Deus! — Raul exclamou com as mãos no peito, se afastou do loiro correndo imediatamente para o pastor alemão que tirou a língua para fora.
— Vai ficar tudo bem. É só uma fase e depois nós iremos ao parque brincar como você gosta, meu bebê — O menor disse respirando profundamente.
Raul arregalou os olhos ao lembrar do seu compromisso no hospital e as pressas começou a procurar o seu telefone que o loiro tirou.
— Eu preciso ir ao hospital — Benjamin franziu o cenho confuso com a declaração do menor, quem em sã consciência quereria sair sabendo que tem um monte de gente querendo mata-lo?
— Está faltando oxigénio nessa cabecinha? Tem um monte de gente armada lá fora e você pensando em ir trabalhar? — O enfermeiro o ignorou completamente e tentou tirar o telefone da mão do loiro que estendeu o braço para o alto.
— Não é da sua conta! Devolve a porra do meu celular! — Os olhos azuis nublados de frieza causaram um frio na espinha de Raul quando tentou novamente pular para alcançar a mão de Benjamin.
O retinto pegou na mão onde Benjamin segurava o seu cigarro e o mordeu com toda a força fazendo o loiro franzir o cenho, controlou-se para dar um soco no no enfermeiro.
— Solta! — Benjamin num tom de comando porém o retinto se manteve irredutível e continuou mordendo. O agente estendeu o aparelho para Raul enquanto o encarava fixamente o menor que o soltou e depois de entregar o telefone para o enfermeiro.
— Faça o que quiser — Raul sentiu um pouco de remorso ao ver as gotículas de sangue no canto da mão alva.
Raul ficou encarando Benjamin que em silêncio sentou-se no sofá, que não dava a mínima importância para a ferida que tinha na mão, trêmulo pegou o cigarro para tentar fumar.
— Que ódio! — Exclamou voltando para o loiro que não deu a menor importância a presença do outro que se ajoelhou entre as suas pernas.
— Onde deixas o kit de primeiros socorros? — Benjamin ergueu a sobrancelha quase transparente para o homem ajoelhado a sua frente porém entregou o que foi pedido.
O loiro ainda achava intrigante aquele olhar cheio de vida e esperança mesmo depois de tudo que aconteceu e quando o menor começou a cantarolar ficou ainda mais confuso. O retinto limpou delicadamente o lugar que havia machucado desejando não ter feito aquilo mas o loiro havia tirado o melhor de si.
Benjamin admirava as mãos macias contra a sua pele áspera, os olhos castanhos continham tanto ternura que não conhecia, ele tinha o cabelo crespo curto, o rosto com as expressões mais dóceis que já tinha visto.
Raul podia sentir os olhos azuis seguindo cada movimento seu enquanto balbuciava como sempre fazia quando tratava das crianças.
O enfermeiro deixou um beijo suave por cima do curativo que havia feito no Jones.
— Prontinho — Disse risonho erguendo o rosto para encontrar Benjamin olhando para si como se fosse um ser de outro mundo.
— Não sei se chamo você de idiota ou burro — Raul revirou os olhos diante a rudez porém sinceridade do mais alto.
— De nada, Ben — Retrucou num tom debochado querendo levantar porém o loiro segurou o seu braço o impedindo de se levantar.
— Porque você é assim? — Benjamin questionou realmente curioso. Ele queria saber porque daqueles olhos castanhos serem tão cheios de vida, esperança e bondade naquele mundo miserável onde estavam.
— Como assim, ué? — O enfermeiro respondeu tentando se livrar do aperto mais alto, ficou de pé porém o loiro não mostrava sinais de soltá-lo.
— Não sei… tem alguma coisa em você que me intriga — Raul encolheu os ombros sem saber o que responder ao homem a sua frente. Aqueles olhos azuis sem vida pareciam estar admirando-o tanto que sentiu o seu rosto esquentar.
— Olha, eu prometi ir visitar as crianças e os idosos hoje. Preciso mesmo ir, aconteça o que acontecer tenho que estar lá hoje e agora — Benjamin o soltou voltando a pegar um cigarro para espairecer e tentar assimilar o que tinha acabado de acontecer.
— Eu vou com você — Disse fazendo o sorriso iluminado surgir dos lábios escuros.
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SOMBRA E LUZ
Roman d'amourEm uma metrópole envolta em sombras, onde cada passo pode ser o último, um assassino atormentado vagueia pelas ruas, perdido em sua própria escuridão. Cansado de uma vida sem sentido, ele busca redenção em meio à violência que o consome. Porém, em u...
