Capítulo 21 - O sol que não nasceu

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Engfa Waraha
Tailândia
Phunket

O frio a fez despertar com uma sensação estranha.

Engfa despertou muito tempo depois, sentindo o ar gélido da manhã enviando arrepios contra sua pele, e fazendo-a acordar com um sobressalto. Normalmente, Charlotte estaria enroscada em seu corpo tal como um cobertor, impendido que sentisse frio. Por algum motivo, contudo, ela não estava ali.

— Nuu? — chamou, mas não recebeu nenhuma resposta.

Desnorteada, e ainda afetada pelo sono, passou a mão pelo lado oposto da cama, percebendo que não estava quente como de costume, mas sim tão frio quanto o frio que vinha do lado de fora. Sentou-se rapidamente, jogando as grossas cobertas para longe do corpo, sentindo as batidas rápidas de seu coração dentro do peito com uma sensação atípica de urgência.

— Charlotte?! — Tentou mais uma vez, sem resposta. Engfa suspirou pesadamente ao perceber que estava sozinha na tenda.

Trocou rapidamente a vestimenta, e saiu do recinto, indo em direção até a cabana onde Isabella e Mew ainda se curavam com passos rápidos e pesados contra a neve. O vento se chocou contra o corpo magro com força o suficiente para fazê-la precisar do apoio de um trono para não cair. Franziu o cenho quando um calafrio se espalhou por seu corpo junto com a sensação de estar sendo vigiada a cada passo dado.

Olhou ao redor, mas o que viu foi ainda pior — embora ainda não soubesse disso — do que se tivesse encontrado olhares acusatórios sobre si: lindas flores de longas pétalas esbranquiçadas enfeitavam os arbustos, troncos e até mesmo as paredes das construções próximas, exalando um doce e agradável perfume.

Engfa se aproximou com fascínio e curiosidade. Jamais tinha visto aquele tipo de flor em Bangkok antes, e tinha plena certeza de que nenhuma delas estava ali na noite anterior, antes de ter se recolhido para dormir.
Tocou nas pétalas de uma delas, sentido a maciez e suavidade na ponta de um dos dedos, e traçando o contorno com cuidado.

Um pequeno sorriso enfeitou seus lábios quando se curvou suavemente para sentir novamente o cheiro tão atrativo. Foi quando outro detalhe chamou sua atenção: os habitantes de Azgeda já estavam em plena atividade, mas, ao olhar para o céu, notou que as nuvens normalmente acinzentadas pareciam mais densas do que de costume, com apenas alguns raios solares conseguindo ultrapassar o céu, cujo aspecto noturno parecia se intensificar a cada instante.

É quase como se o sol não tivesse despontado... parece ainda ser noite... Engfa não conseguiu desviar o olhar, se perguntando em qual momento do dia estariam e porque Charlotte não a acordara como geralmente fazia.

Engoliu em seco, deixando a bela flor para trás, e apertando o tecido grosso da roupa contra o corpo, sentindo-se subitamente exposta ao frio ao qual pensava finalmente estar se acostumando. A brisa soprou seu cabelo, irritando a pele de seu rosto como se farpas de gelo quisessem empurra-la bruscamente para trás, impedindo-a de prosseguir seu trajeto.

O que aconteceu com o céu? O solstício só é daqui há alguns dias... Por algum motivo, sentiu o peito apertar ao lembrar-se do dia de seu casamento, o que a fez aumentar o passo.

A penumbra era parcialmente iluminada pelas chamas acesas, que usavam óleo perfumado para queimar, garantido que houvesse o mínimo de luz necessária para que a cidade funcionassem o mais próximo possível da normalidade.

Ainda sim, era estranho pensar que a brusca mudança tinha ocorrido no intervalo de uma noite. Algumas pessoas passaram por Engfa, mas suas expressões antes alegres e receptivas estavam agora carregadas de receio e um toque preocupante de introspecção.

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