accountability

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Eduarda Hippler

Um pouco distante de mim, seus cabelos avermelhados e com ondas perfeitas, balançavam em concordância com os ventos da parte do terraço do seu prédio. E mais uma vez estávamos lá: juntos, com bebidas, música e falando os maiores absurdos possíveis.

Depois de duas semanas do meu sonho — que mais parecia ter acontecido — eu vinha evitando conversar com Sofia. Minha justificativa era estar exausta por causa do último semestre do teatro, e acredito que estava sendo o suficiente para enganá-la por um tempo.

Confesso que depois daquele dia, a presença dela me deixava cada vez mais inquieta e o aparecimento de terceiras pessoas em relação à ela, me deixavam ainda mais nervosa e desconfortável. Tudo bem que não tínhamos nada, mas isso me deixava extremamente incomodada.

Eu dormia para poder vê-la e odeio esperar tanto por isso.

Menções, tweets, edits e perguntas indiretas eram realizadas a cada momento em que eu estava no mesmo ambiente que Sofia. Alguns detalhes de todo o sonho que eu tive vinham em minha mente com frequência, onde eu começava a confundir o que era irreal com a realidade.

— Vai ficar com essa cara virada o tempo inteiro? — Caick se senta em meu colo, segurando um copo na mão.

— Não estou com a cara amarrada, só estou reclusa. — dou de ombros, bebendo um gole de sua bebida.

— A Sofia acha que você está brava com ela.

— Não estou brava com ninguém, só estou cansada. Você sabe que o último semestre está exigindo muito de nós.

— Você deu essa justificativa a semana inteira. Poderia no mínimo se soltar um pouquinho hoje. — se levanta, colocando um óculos em minha cabeça.

— Vou tentar, mas me deixe aqui por enquanto. — respondo, permanecendo no mesmo lugar.

— Vamos para piscina daqui a pouco, levanta e vem. Não tem como dizer não, prostituta.

— Eu não trouxe biquíni e não quero ir embora com a roupa molhada. — falo alto o suficiente para que ele possa me escutar.

— Mas a Sofia tem. Ela desceu agora pouco para pegar toalhas, então aproveita e vai.

— Você não existe mesmo, puta que pariu. — me levanto para fazer o que ele pediu.

— Só não se comam, por favor. Queremos escutar músicas que falam os maiores absurdos, não gemidos de sapatonas. — manda um beijo no ar, enquanto saio da cobertura para ir em direção ao elevador.

A possibilidade de estar sozinha em um ambiente com Sofia me deixava nervosa. Estava saindo do terraço em passos lentos, na intenção de deixar qualquer assunto relacionado a minha forma de agir para depois.

Avisto o seu corpo escultural entrando no elevador e resolvo apressar os passos para entrar juntamente com ela.

Elevador. Parecia que a cena do meu sonho se repetia.

Quando entrei dentro das paredes metálicas encontrei sua atenção voltada para o celular, então fiz um barulho com a garganta para chamar sua atenção. Senti meu estômago fazer uma pressão enorme, demonstrando todo o meu nervosismo.

— Ah Duda, que susto. Achei que estava com os meninos. — coloca as mãos no peito, olhando para meu rosto.

— Caick pediu para eu descer com você.

— Só assim para você falar comigo agora. — vira o corpo totalmente para mim.

— Você sabe que o último semestre está me matando.

— Não sabia que o último semestre vinha com um gelo por mais de uma semana.

Fico em silêncio, deixando uma pauta em aberto enquanto o elevador se movimenta. Meus olhos circulam entre o ambiente e seu corpo, enquanto meus dedos batem involuntariamente na barra de ferro horizontal atrás de mim.

Eu não prolongo nossa curta conversa, e percebo sua irritação ao ver que nem se quer respondi sua última fala. Quando as portas se abrem, saímos caladas enquanto eu encarava seus movimentos para colocar a senha no painel da porta do seu apartamento.

— Vai ficar parada aqui na sala ou pode me ajudar com as toalhas? — fala ainda de costas, sem olhar para mim.

— Acredito que te devo um pedido de desculpas. — falo encostando na porta do seu quarto.

— Então reconhece sua parcela de culpa? — vaga os seus olhos para os meus, enquanto sinto seu efeito sobre mim.

— Não começa, Sofia. Eu só não quero que fique um clima estranho entre nós duas.

— Estamos em um clima estranho desde o dia em que você dormiu aqui. — rebate, cruzando os braços involuntariamente.

— Eu nem lembro de muita coisa, o teatro vem me matando. — me sento em sua cama, evitando olhar para ela.

— Às vezes me parece que você queria me contar alguma coisa.

— Como assim? — arregalo levemente os olhos, com um certo medo do que eu poderia ouvir.

— Aquele dia era como se você tivesse libertado algo preso dentro de você. Só queria entender o que fiz de errado para ser ignorada pela minha melhor amiga.

Melhor amiga.

Esse título me afetava tanto que até perco a vontade de expor minhas sinceras opiniões. Pensando em liberdade de sentimentos, sei exatamente o porquê evito contato com ela.

— Era só a bebida, Sofia. Me arrependo de muita coisa. — encaro suas íris castanhas, que pareciam querer me fuzilar.

— Se arrepende de ter me beijado ou de ter se declarado para mim?

Não respondo. Ou poderia me envolver em uma situação pior, da qual eu nem imaginava estar.

Ela sai do quarto e vai para o seu closet em silêncio, parecia estar sem a menor paciência. Eu apenas permaneço sentada movimentando os dedos das minhas mãos, pensando no que falar quando ela retornar. E quando ela retorna, coloca as toalhas do meu lado indo diretamente para o banheiro e fechando a porta, sem ao menos olhar para mim. 

Escuto alguns resmungos vindo dela, sorrio involuntariamente ao pensar em como ela não deve estar maravilhosamente linda com o rosto avermelhado pela impaciência.

— Eduarda! — sua voz escoa, fazendo cada parte do meu copo ficar em alerta.

— Pode falar.

— O ziper do meu vestido está preso, não consigo tirar.

— Precisa de ajuda? — falo me levantando em uma velocidade extrema.

— E você ainda pergunta?

Sinto cada átimo do meu corpo corresponder a uma mísera fala. Se era alucinação ou não, pouco me importava. Talvez eu não responderia mais pelas minhas próximas ações.

A cena parecia se repetir, mas agora eu precisava colocar em prática o que eu desejava que fosse realidade.

Eu precisava sentir os seus lábios sobre os meus.

Entre sonhos e realidades - Soarda Histórias para pegar e não largar. Descubra agora