A escuridão do shopping era quebrada apenas pelas fracas luzes das lanternas improvisadas que Mike e Peter carregavam, criando sombras que dançavam nas paredes. O som do vento e o crepitar das lâmpadas preenchiam o ambiente vazio, como se o próprio lugar estivesse lamentando a perda de um jovem que mal teve tempo de viver. Ao lado de Kyle, cujas feridas eram um eco cruel do desespero, Mike segurava sua mão, tentando estancar o fluxo de sangue que parecia um rio interminável.
— Você vai ficar bem, Kyle... Aguenta só mais um pouco. — A voz de Mike tremia, e ele sentia o peso das palavras que não eram verdadeiras esmagando seu peito. Ele queria acreditar, mas a vida de Kyle se esvaía como areia entre os dedos.
Kyle balançou a cabeça, seus olhos buscando os de Mike, mas parecendo olhar através dele. A dor era visível em cada linha de seu rosto, e, com um esforço hercúleo, ele finalmente conseguiu emitir algumas palavras.
— Não... não vai ... Eu... estou morrendo... — A tosse violenta de Kyle trouxe mais sangue, manchando a roupa de Mike. — Mas... antes... eu preciso... dizer...
Mike se inclinou, a urgência pulsando em suas veias.
— Dizer o que Kyle? Você está seguro agora. Só aguenta, vamos ajudar.
Kyle forçou um sorriso que não alcançou seus olhos cansados, antes de dividir um segredo sombrio.
— A Arena... eles... — O esforço de lembrar parecia drenar suas últimas energias. — Eles raptam pessoas... forçam elas a lutar... uns contra os outros. E eles... usam os contaminados... Eles controlam... tudo...
O coração de Mike disparou ao ouvir a revelação. Olhando para Peter, que se mantinha em silêncio, a expressão dele era uma mistura de incredulidade e horror.
— O que você quer dizer com... usar os contaminados? E onde fica essa arena? Como encontramos esses malucos? — A raiva e a confusão se entrelaçavam na voz de Mike.
Kyle lutou para respirar, seus olhos começando a se fechar lentamente.
— Não os procurem... corram... Eles vão acabar por encontrar vocês... — Com um último suspiro, as palavras de Kyle se perderam, e sua mão escorregou da de Mike, deixando um vazio insuportável.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Mike e Peter ficaram parados, imersos na dor e na responsabilidade que agora pesava sobre eles. Não havia tempo para lamentações; a informação vital que Kyle deixara para trás pulsava em suas mentes.
A luz fraca das lanternas de Mike e Peter iluminava o caminho enquanto eles caminhavam em direção à saída do shopping. O silêncio parecia ainda mais pesado depois da morte de Kyle, mas a urgência de partir falava mais alto. Eles não conheciam o rapaz além daquele breve e intenso momento, mas as palavras dele haviam deixado uma marca e a necessidade de respostas os impulsionava.
Peter olhou para Mike, quebrando o silêncio:
— A moto está lá fora. Vamos logo sair daqui o mais rápido possível.
Mike apenas assentiu. A tensão era palpável enquanto eles avançavam em direção à entrada do shopping, os passos ecoando pelo espaço vazio. Foi então que um som distinto de metal arrastando no chão os fez parar. Mike congelou, erguendo a lanterna na direção do som.
— O que foi isso? — Peter perguntou, baixinho, já colocando a mão no cabo da faca que carregava no cinto.
A luz da lanterna de Mike revelou duas figuras encostadas na moto de Peter, ambas vestindo roupas escuras, os rostos ocultos sob capuzes. Eles pareciam estar mexendo na moto, mas pararam assim que perceberam que estavam sendo observados.
— Ei! O que vocês estão fazendo? — Mike gritou, a raiva e a adrenalina crescendo instantaneamente.
As figuras se viraram lentamente. Um deles, alto e robusto, deu um sorriso sinistro. O outro, magro e de olhar frio, girava um facão enferrujado entre os dedos, como se estivesse se preparando para usá-lo.
— Olha só, parece que a moto tem dono. — O homem alto zombou, dando um passo à frente. — Isso complica as coisas, mas estamos acostumados a resolver problemas assim.
Mike sentiu o coração acelerar, mas tentou manter a calma. Ele sabia que eles estavam em desvantagem.
— A moto não é vossa. Afastem-se agora, e não vai haver problema — Peter disse, a voz firme, embora seu corpo inteiro estivesse tenso.
O homem magro riu, apontando o facão para eles.
— Problemas? Garoto, você não faz ideia de com quem está lidando. Não compliquem. Entreguem a moto e... talvez vocês saiam inteiros.
Mike trocou um olhar rápido com Peter. As palavras de Kyle ecoavam em sua mente: "Eles controlam tudo." Era óbvio que aqueles dois eram parte do grupo mencionado pelo rapaz, possivelmente andavam a procura dele.
— Não queremos problemas, mas vocês não vão levar a moto. — Mike tentou soar confiante, mas o homem alto percebeu a hesitação na voz dele e deu outro passo à frente.
— Já ouvi esse papo antes. E sabe como termina? Com vocês no chão.
O facão do homem magro brilhou sob a luz da lanterna de Mike, e naquele instante, Peter sussurrou:
— Mike... corra.
Antes que os homens pudessem reagir, Peter avançou, pegando um pedaço de metal do chão e desferindo um golpe contra o facão do homem magro. O barulho do impacto ecoou pelo shopping.
Mike aproveitou a distração e correu em direção ao homem alto, acertando-o com o ombro para afastá-lo da moto. O impacto fez o homem cambalear, mas não o derrubou.
— Vocês têm coragem, eu admito! — gritou o homem alto, tentando agarrar Mike.
Mike desviou por pouco, enquanto Peter lutava para manter o homem magro afastado. O facão balançava perigosamente no ar, cortando perto demais.
— Agora! — Mike gritou para Peter, que conseguiu acertar um golpe na perna do homem magro, fazendo-o cair de joelhos.
Ambos correram em direção à moto. Peter pulou na frente e girou a chave, enquanto Mike subia na garupa, segurando firme. O ronco do motor preencheu o espaço, ecoando como um trovão.
— Malditos! — gritou o homem alto, tentou correr atrás deles mas já era tarde demais.
Peter acelerou, o vento gelado bateu contra seus rostos enquanto deixavam o shopping para trás.
Mike olhou por cima do ombro, vendo as duas figuras desaparecerem. Seu coração ainda batia acelerado, mas ele sabia que haviam escapado — por enquanto.
— O que foi aquilo? — Peter perguntou, o tom cheio de frustração. — Eles estavam nos esperando... sabiam que estávamos aqui.
Mike respirou fundo, tentando organizar os pensamentos.
— Eles faziam parte do grupo que Kyle mencionou, acredito que andavam à procura dele. Isso significa que ele estava certo... e que agora, nós também somos alvos.
Peter não respondeu de imediato, mas acelerou ainda mais. A cidade deserta se abria à frente deles, cheia de sombras e incertezas. O que quer que estivesse por trás das palavras de Kyle, eles estavam prestes a descobrir — e não havia mais como voltar atrás.
Continua...
VOCÊ ESTÁ LENDO
The End
Ciencia FicciónUm vírus devastador varreu a humanidade, transformando cidades em túmulos e deixando apenas um punhado de sobreviventes para enfrentar o caos. Entre eles estão dois jovens, Mike e Will, que, guiados pela necessidade de resistir, lutam contra um mund...
