Pobre burrinha

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Por um bom tempo, me senti desfalcada de todo lugar que ia. A sala de aula não me provocava vontade de aprender, as festas não me davam vontade de dançar e as palavras dos livros não me diziam nada. Estava apática, essa seria a palavra para generalizar esses momentos.

Era uma apatia triste. Nem minhas músicas favoritas eram capazes de me resgatar. Nem se eu mudasse de país iria melhorar esse sentimento repentino e contínuo. Parecia que minha presença ia sumindo aos poucos. Logo, minha alma não teria corpo e vagaria por aí, ainda a procura da cura.

"Você saiu disso? Se sim, como?" Deve me perguntar agora. Para ser sincera, pessoa leitora de meus humildes escritos, não faço ideia. Foi tão de repente como chegou. Contudo, posso precisar algumas diferenças que notei:

1- Olhei o céu azul num dia de vento. A brisa fazia meus cabelos balançarem e vastidão do que estava acima me encantou. Encanto. Há quanto tempo não sentia?

2- Vi minhas flores favoritas desabrocharem. Que nostalgia! Lembro de vê-las com meu finado avô. Nostalgia. Saudade boa do que não volta, mas que está gravado na memória e no coração.

3- Tive um ataque de riso com a peripécia de minha gata. Tentou roubar um bife de meu prato, mas fui mais rápida. Minha companheira felina diária. Que me aguenta em todos os humores. Como sou grata. Gratidão. Agradecer pelo que sei que não é garantido.

A partir disso, pude ir rastejando com calma para fora da fossa que me encontrava. Claro, os problemas não deixaram de existir e a dificuldade não parou de me assolar. Porém, outros sentimentos que não fossem apatia e tristeza me auxiliaram. Percebi que ainda era humana e perfeitamente capaz de cultivar sensações diferentes no meu peito.

Esqueço sempre que sou ser humano. Não posso mentir que escolheria ser um robô na primeira oportunidade que me dessem. Deve ser mais fácil. Nunca alternar entre o alto e o baixo. Sem necessidade de dormir, comer ou descansar. Fico pensando em quanto produziria se não tivesse limite.

Percebi que estou sempre me cobrando. Possuo um chicote e o uso em mim todos os dias:

"Trabalhe!" "Escreva" "Gargalhe" "Se arrume" "Corra"

Palavras alternadas entre chicotadas ásperas. Uma pobre burrinha de carga bem maior do que pode suportar. Ando com as patas machucadas e subnutrida, levando uma carroça que necessitaria de oito cavalos fortes para carregar. Chega um momento em que o lombo está tão ferido, que perde o tato. A dor já não te atinge porque está vazio por dentro. Se você se permitir sentir, virá tudo junto como num tsunami.

No momento, me libertei dessa carroça. Não posso afirmar que estarei livre para sempre, sou um animal no fim das contas e estou suscetível a cair na mesma armadilha. Agora, estou num pasto e posso comer minha grama com calma. Se escuto o barulho das rodas, me afasto e deixo para enfrentar isso depois.

Quando enfrentar o carroceiro, não permitirei mais uma grande carroça. Darei coices e fugirei. Só levarei o peso que está dentro dos meus limites.

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