Mar e um dia perfeito

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O sol mal tinha nascido e a galera já estava reunida em frente à casa do Sérgio, carregando mochilas, isopor e uma caixa de som velha que Júlio insistia em levar. A Kombi branca misturada com um verde estava parada na rua, com a lataria meio enferrujada e o banco do motorista rangendo, mas ainda assim, era a fiel companheira de todas as aventuras.

— Essa Kombi vai aguentar até a praia? — Cláudia perguntou, cruzando os braços e olhando desconfiada para o veículo.

— Claro que vai! Fiz uma revisão completa... no pensamento — respondeu Dinho, dando dois tapinhas no capô, como se aquilo fizesse a situação melhorar.

Aiko riu, ajeitando os óculos escuros antes de entrar na Kombi. Lá dentro, Bento já estava sentado no fundo, com a guitarra no colo, e deu um sorrisinho ao vê-la.

— Vem aqui. — Ele bateu a mão no banco ao lado dele.

Ela se sentou, sentindo o braço dele roçar no seu de leve. Fingiu que não reparou, mas a verdade é que um frio subiu por sua espinha.

— Bora, rockstars! — gritou Samuel, ligando a caixa de som e soltando um grito de "We Will Rock You" que fez até um cachorro na calçada latir.

O motor da Kombi roncou com esforço, tossindo como um velho fumante, mas acabou pegando. Todos vibraram como se fosse um show lotado.

— Próxima parada: litoral! — Sérgio anunciou, girando o volante.

A viagem foi uma mistura de cantoria, piadas sem noção e paradas aleatórias. No meio do caminho, Júlio comprou um boné com estampa de abacaxi e jurou que era "essencial pro estilo do dia". Cláudia e Aiko tiravam fotos de tudo, rindo das poses esquisitas de Dinho e Samuel.

Mas, claro, nada seria perfeito sem um pequeno caos.

— Epa... — Sérgio franziu a testa. — A bichinha tá tossindo mais que o Dinho depois de comer pimenta!

A Kombi engasgou, deu uns trancos... e morreu no meio da estrada.

O silêncio durou dois segundos antes de Dinho soltar:

— Gente... acho que a Kombi pediu aposentadoria.

— Ah não, justo agora? — Cláudia resmungou.

Samuel pulou pra fora.

— Relaxa! A gente empurra até pegar no tranco!

Júlio arregalou os olhos.

— Eu não sou maratonista!

Mesmo assim, desceram e começaram a empurrar. Depois de muita zoeira e algumas tentativas fracassadas, a Kombi voltou à vida e finalmente chegaram à praia.

O céu estava limpo e o mar brilhava, convidativo. Todos correram para a água, jogando os chinelos pelo caminho. Samuel tropeçou na própria bermuda e caiu de cara na primeira onda, enquanto Dinho e Sérgio já estavam no fundo, gritando como crianças.

Cláudia e Aiko ficaram na areia, organizando a toalha e as mochilas. Bento apareceu logo depois, trazendo uma garrafinha de água.

— Trouxe pra você. Com esse sol, duvido que vá lembrar de se hidratar.

Aiko pegou a garrafa e sorriu.

— Você sempre me salva, né?

— Tô tentando manter meu cargo de favorito — ele brincou, sentando ao lado dela.

Mais tarde, a galera toda se juntou para um jogo de bola na areia, que virou uma verdadeira guerra. Júlio foi enterrado até o pescoço depois de perder no "pedra, papel, tesoura", e Samuel inventou uma dança ridícula para comemorar cada gol.

À tarde, Bento e Aiko caminharam pela beira do mar, sentindo a água gelada tocar os pés.

— Você acha que um dia tudo isso muda? Quando a gente for famoso? — ele perguntou, olhando para ela.

Aiko suspirou, observando o oceano antes de responder.

— Talvez. Mas o que importa é não deixar mudar aqui. — Ela apontou para o peito dele, sorrindo de leve.

Bento ficou em silêncio por um instante, depois entrelaçou os dedos nos dela.

— mas sinceramente,eu não quero que nada disso mude... Quero continuar tendo esses roles aleatório com vocês.

— Então vamos prometer isso. Sempre lembrar de onde viemos.

O dia foi passando, e quando o sol começou a se pôr, eles se reuniram novamente na areia. Dinho tocava um violão desafinado enquanto Júlio tentava cantar algo que parecia "Garota de Ipanema", mas com uma letra improvisada sobre pastel de camarão.

Aiko e Cláudia ajeitavam o que sobrou do isopor.

— Acho que esse aqui era o do Júlio... tem gosto de   Ursinho— Aiko brincou, fazendo todos rirem.

Quando a noite caiu, tiraram uma última foto juntos com a câmera de Aiko. Se amontoaram, fizeram caretas, riram, e depois entraram na Kombi novamente, cansados, mas felizes.

Aiko encostou a cabeça na janela da Kombi, observando a estrada quase deserta. O vento frio da noite entrava por uma fresta do vidro, misturando-se com o cheiro de sal e areia que ainda grudava em sua pele.

Bento, sentado ao lado dela, estava mexendo distraidamente na fita do seu boné enquanto batucava os dedos no joelho. O resto da banda conversava animadamente nos bancos de trás, mas ele parecia perdido nos próprios pensamentos.

— Você tá quieto. — Aiko comentou, olhando para ele com curiosidade.

Bento deu de ombros e sorriu de lado. — Tô só pensando... Foi um dia da hora, né?

Ela assentiu, sorrindo. — Muito. Eu nem queria ir embora.

Ele riu, jogando a cabeça para trás. — A gente podia ficar por lá, montar um bar na praia, viver de vender água de coco e tocar música.

— Isso se vocês começarem a ganhar uns trocados  a mais com a banda. — Aiko provocou.

Bento fingiu um olhar ofendido. — Opa! O Utopia tá crescendo, viu? Hoje foi um churrasco na praia, amanhã é um show pra um monte de gente!

Ela riu, cruzando os braços. — Tá bom, tá bom. E quando isso acontecer, você vai lembrar de mim, ou vai fingir que nunca me viu?

Bento olhou para ela com uma expressão mais séria por um segundo, depois sorriu. — Eu? Esquecer você? Cê acha que eu sou tão vacilão assim?

Aiko deu de ombros, fingindo desinteresse, mas não conseguiu esconder o sorriso.

Ele a observou por um instante, depois desviou o olhar para a estrada.

— Às vezes eu fico pensando... E se der certo mesmo? Se um dia a gente puder viver só disso?

Aiko olhou para ele e sorriu.

— Então a gente vai pegar essa Kombi, cair na estrada e ver onde a música vai levar vocês.

Bento abriu um sorriso largo. — Fechado!

Ele estendeu a mão, e Aiko bateu a palma na dele, selando a promessa.

Enquanto isso, no banco de trás, Samuel cutucou Dinho e cochichou:

— Quer apostar quanto que esses dois ainda vão acabar juntos?

Dinho riu baixinho. — Nem precisa apostar. Isso aí já tá escrito.


E assim, a noite terminou. Uma Kombi cheia de sonhos, amizades verdadeiras e um amor que crescia devagar, mas firme, como tudo que vale a pena.

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⏰ Última atualização: Apr 05, 2025 ⏰

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