A tarde caía preguiçosa quando Yasmina ajeitou a toalha na mesa de jantar, alisando cada canto com atenção quase cerimonial. O sol dourava sua pele morena pelas janelas da cozinha, e o cheiro do molho que ela preparava com carinho tomava o ar. Tinha aprendido a cozinhar com paciência ao lado de Sammy, entre colheres de pau e risadas compartilhadas, mas hoje queria fazer bonito. Era o primeiro jantar com as famílias reunidas. As duas famílias.
— Já botei mais dois pratos — avisou Sammy, entrando com uma cesta de pães quentinhos que trouxera da padaria da esquina. — Teu molho tá cheirando a promessa, sabia?
Yasmina riu, apoiando a cabeça no ombro da namorada por um instante. Era fácil amar Sammy — mesmo com o jeito prático demais às vezes, com os horários do campo, com os telefonemas sobre gado e o som de botas sujas no piso de madeira. Fácil porque Sammy também fazia espaço. Para ela, para sua mãe, para os silêncios e até para os fantasmas do passado que às vezes voltavam em forma de memórias.
— Tô um pouco nervosa. — Yasmina soltou, quase num sussurro. — Minha mãe... Ela nunca jantou com a tua família antes. E ela ainda acha que eu podia ter continuado correndo...
— Ela vai ver que você correu pro que te fazia feliz — respondeu Sammy com firmeza, ajeitando uma florzinha no vaso no centro da mesa. — E que agora dá aula pra um bando de crianças que te adoram. Isso é medalha suficiente.
A campainha tocou antes que Yasmina pudesse responder. Ela respirou fundo e foi até a porta. Sua mãe estava ali com um sorriso doce, o vestido azul claro combinando com os olhos, uma garrafa de vinho nas mãos. Yasmina a abraçou com força, sentindo aquele perfume familiar, e a conduziu até a sala.
Logo em seguida, vieram o pai e o irmão de Sammy — a mesma postura rústica de sempre, mas com um esforço visível em se vestir melhor. Nenhum deles comentou sobre a ausência de carne na lasanha de legumes, e até elogiaram os temperos.
A mesa se encheu de vozes e de cheiros. Conversas sobre a escola onde Yasmina dava aula, sobre a colheita na fazenda, sobre as estradas ruins que tinham pegado até ali. A mãe de Yasmina contou histórias da infância da filha, com um brilho no olhar orgulhoso. O pai de Sammy, reservado, ouviu tudo com atenção, e quando Sammy riu alto de um comentário do irmão, Yasmina viu sua mãe sorrir também.
Em algum momento entre o segundo prato e a sobremesa — torta de maçã com canela — Sammy segurou a mão de Yasmina debaixo da mesa. Discretamente. Como quem diz: "Tá vendo? A gente conseguiu."
E Yasmina olhou ao redor. Duas famílias que antes pareciam tão distantes agora dividiam a mesma mesa, os mesmos talheres, as mesmas piadas tímidas. Era uma noite simples, mas cheia de significado.
Na saída, enquanto todos se despediam com abraços um pouco mais apertados do que no início da noite, a mãe de Yasmina murmurou:
— Ela é boa pra você, minha filha. Eu vejo isso nos teus olhos.
Yasmina sorriu, emocionada.
— E você também foi boa hoje. Obrigada por vir.
A lasanha já ia pela metade quando o Sr. Gutierrez limpou os cantos da boca com o guardanapo e, com a naturalidade de quem só queria puxar conversa, soltou:
— Então, Yasmina... Sempre tive curiosidade. Por que não seguiu a carreira de corredora? Com tantos prêmios... Olímpica, não era?
O silêncio caiu como uma faca afiada sobre a mesa.
Sammy parou de mastigar. O garfo ficou suspenso entre a boca e o prato. Sra. Fadoula franziu os lábios, e o olhar que lançou à filha foi sutil, mas cheio de cuidado. Já sabiam o peso daquela pergunta. Sabiam exatamente onde ela tocava.
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After All - Yasammy
RomanceEsta história irá explorar a trajetória do casal formado por Yasmina e Sammy após conseguirem escapar da ilha. Será que conseguiram encontrar a felicidade mesmo estando separados geograficamente? Todos esses questionamentos serão minuciosamente abor...
