Pov Harry
O silêncio entre nós era quase ensurdecedor. Draco permanecia ali, parado, com o sangue escorrendo lentamente de seu nariz enquanto me encarava com olhos arregalados. Havia surpresa neles, mas também algo mais — algo quebrado, algo que eu não conseguia nomear. Minha respiração estava acelerada, os punhos cerrados, o peito arfando com a força das emoções que explodiam por dentro como um redemoinho. Eu nunca havia batido nele antes, nunca sequer tinha cogitado. Mas aquelas palavras... aquelas malditas palavras sobre meus pais... foi como ter cada lembrança preciosa deles arrancada e pisoteada diante de mim. Era cruel demais até para Draco Malfoy. Eu dei um passo para trás, sentindo o gosto amargo do arrependimento subir pela garganta como fel, misturado com o gosto metálico da minha própria dor.
Draco levou alguns segundos para reagir. Ele passou a manga da camisa pelo nariz, limpando o sangue com um gesto mecânico, como se a dor física fosse irrelevante diante do que acabara de acontecer. E talvez fosse. Seus olhos agora estavam frios, vazios, como os de alguém que acabou de perder algo importante demais para ser recuperado com um simples pedido de desculpas. Ele deu um passo à frente, depois outro, e parou a poucos centímetros de mim. Eu me mantive firme, mesmo com o corpo tremendo e a mente aos berros, implorando para fugir daquele momento. Draco abriu a boca para dizer algo, mas nada saiu. Apenas o som da respiração pesada entre nós dois, misturado ao pulsar abafado das emoções contidas.
— Então é isso? — ele finalmente perguntou, num tom baixo, rouco, quase inaudível. — Um soco no rosto e um "vamos terminar"?
— Você cruzou um limite, Draco — minha voz saiu trêmula, mas firme. — Um que você sabia que não podia cruzar.
— E você nunca cruzou nenhum comigo? — ele rebate, o rosto ainda manchado pelo sangue, mas agora com a expressão carregada de mágoa. — Quantas vezes você me empurrou pro fundo com as suas cobranças, suas expectativas, suas tentativas de me moldar no que você acha que eu deveria ser?
Eu quis negar, mas a verdade era como uma pedra no meu estômago. Eu tinha feito isso. Eu tinha tentado mudar Draco. Tentei transformá-lo em alguém que se encaixasse no meu mundo, nos meus valores, nos meus amigos. Mas será que eu alguma vez o aceitei como ele era? Será que eu o amei, de verdade, ou só amei a ideia de quem ele poderia ser?
— Você não faz ideia do quanto tentei por você, Harry — Draco continuou, o tom se elevando levemente. — Você acha que é fácil conviver com seus amigos que me odeiam, com olhares de julgamento a cada passo? Acha que é fácil sair às ruas e ouvir cochichos porque eu sou o "traidor da família Malfoy"? Eu perdi mais do que você pode imaginar, e tudo porque tentei ficar ao seu lado. Mas no final, nunca foi suficiente, não é?
Engoli em seco, sentindo o peso de cada palavra dele me atingir como estocadas no peito. A dor em seu olhar era real. Pela primeira vez em muito tempo, ele estava sendo completamente honesto. Sem máscaras, sem sarcasmos, sem a pose arrogante que o protegia do mundo. Era apenas ele, Draco, nu em sua vulnerabilidade, expondo feridas que eu nem sabia que existiam.
— Eu só queria que você tentasse... — murmurei. — Que tentasse respeitar quem eu amo. Que entendesse que eles são importantes pra mim, tanto quanto você é. Mas você nunca tentou de verdade, Draco. Sempre teve aquela maldita parede entre você e o resto do mundo, e isso está nos destruindo.
Draco virou o rosto, como se minhas palavras tivessem o atingido mais forte do que o soco. Ele passou a mão pelo cabelo, visivelmente exausto, como se estivesse lutando contra algo muito maior do que nós dois.
— Eu tentei, Harry... tentei tanto. Mas acho que não sei como amar do jeito que você quer — ele olhou de novo pra mim, e agora havia lágrimas nos olhos dele, teimosas, silenciosas, como as de quem já chorou demais por dentro. — Você é luz. Eu sou sombra. E talvez isso nunca funcione.
Aquela frase caiu entre nós como um feitiço proibido, uma verdade crua demais para ser suportada. Eu dei um passo à frente, movido por um impulso cego de abraçá-lo, de dizer que poderíamos tentar de novo, que o amor era maior do que as nossas diferenças. Mas Draco recuou, apenas um passo, mas o suficiente para criar um abismo entre nós.
— Não me segue — ele disse. — Não agora.
E então ele se virou e saiu, deixando para trás um rastro de silêncio, sangue e palavras não ditas. Fiquei ali, parado, olhando a porta fechar como se o som do trinco fosse o ponto final da nossa história. Mas parte de mim sabia que não era. Parte de mim ainda acreditava. Porque amar Draco Malfoy era como amar uma tempestade: você nunca tem certeza de quando ela vai te destruir — mas também nunca esquece a primeira vez que se molhou por completo.
E mesmo que tudo estivesse quebrado naquele momento... eu ainda o amava. Mesmo com todas as suas falhas, mesmo com todo o seu veneno, mesmo com todo o seu passado. Eu ainda acreditava que havia redenção nele. E, de algum jeito, ainda queria ser aquele que o fizesse ver isso.
Mas talvez... talvez fosse hora de deixar o tempo decidir.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Querido diário...||DRARRY
FanfictionHarry Potter começa a escrever em um diário, aonde várias das páginas de seu diário são dedicadas à um certo loiro. Que por coincidência, Draco também começa a escrever em um caderno e várias das páginas são dedicadas ao garoto de ouro.
