Capítulo 19

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Pov Draco

Três semanas. Vinte e um dias inteiros. Quinhentas e quatro horas, se você quiser ser exato — e eu tenho sido, como se contar o tempo fosse uma forma de dar sentido a tudo que me desmoronou por dentro. Desde aquela noite na estufa, venho tentando — de formas desajeitadas, imperfeitas, humanas — entender quem eu sou. Pela primeira vez na vida, eu, Draco Malfoy, estou fora do controle. Nada de pai para decidir por mim, nada de regras puras, nada de máscaras. Só eu. E Harry. E o que quer que esteja nascendo disso tudo. Porque eu sei que algo nasceu ali, entre o sangue no meu nariz, o silêncio pesado e a mão dele sobre a minha. Algo que não é apenas amor. É escolha.

E escolher amar Harry Potter... é como escolher lutar contra si mesmo todos os dias.

O mundo ao nosso redor não mudou. Hogwarts continua dividida entre sussurros, olhares tortos e alianças silenciosas. As pessoas ainda nos encaram como se fôssemos uma falha no sistema mágico, um erro estatístico que ninguém sabe como lidar. Mas dentro de mim... algo se moveu. Algo que sempre esteve trancado a sete chaves começou a ganhar forma. Eu comecei a pensar. Pensar de verdade. Questionar. E Harry, com todos os seus defeitos, cicatrizes e ideais, tem sido o catalisador disso. Ele não tenta mais me mudar. Ele apenas... está ali. Do jeito que é. E isso me obriga a ser também.

As manhãs são diferentes agora. Às vezes ele me espera no salão comunal da torre dos professores, com aquela cara amassada de quem acordou atrasado, os cabelos ainda mais bagunçados do que o normal — e sim, isso é possível. Outras vezes, esbarramos no caminho das aulas e fingimos que não estamos morrendo de vontade de nos tocar em público. Ainda não temos esse luxo. Mas existe uma cumplicidade nova entre nós. Um silêncio que não machuca mais, mas acolhe. Ele não cobra, e eu não fujo. Bom... pelo menos, não tanto.

Mas não pense que está tudo resolvido. Não está.

Hoje, por exemplo, tivemos uma nova discussão. Pequena, é verdade. Um comentário meu sobre Granger — não foi exatamente ofensivo, mas o tom não ajudou. Harry se fechou por horas. Não falou comigo no almoço, evitou me olhar na aula de Defesa Contra as Artes das Trevas. E eu... bem, eu quase surtei. Porque agora, o silêncio dele pesa mais do que qualquer feitiço que já lançaram em mim. E eu odeio isso. O fato de que ele tem esse poder sobre mim. Que me tira do eixo com um simples olhar. Que me quebra com uma ausência.

No final da tarde, o procurei. Não foi fácil. Estava no alto da torre de Astronomia, sozinho, observando o céu como se buscasse respostas entre as estrelas. A ironia não me escapou: o garoto que carrega o peso do mundo nos ombros procurando paz no lugar mais alto do castelo. Me aproximei devagar, as mãos frias, o coração mais ainda.

— Você me odeia? — perguntei, antes mesmo de pensar.

Harry não olhou para mim. Continuou observando o céu por mais alguns segundos antes de responder:

— Às vezes, você me faz querer te odiar.

Essa doeu. Mas era honesta. E talvez fosse exatamente o que eu precisava ouvir.

— Eu tô tentando, Harry — falei, sentando ao lado dele. — De verdade.

Ele me olhou, finalmente. E ali estava: o olhar cansado, mas firme. O mesmo olhar que me prendeu desde o início, quando ainda éramos apenas rivais idiotas jogando farpas nos corredores.

— Eu sei — ele respondeu. — Mas tentar não é o mesmo que desistir cada vez que algo te confronta. Você precisa parar de fugir, Draco. Inclusive de si mesmo.

Fiquei em silêncio. Ele estava certo. Sempre está, maldito seja.

— Você ainda acha que somos inimigos? — perguntei, quase num sussurro.

Querido diário...||DRARRY Histórias para pegar e não largar. Descubra agora