Capítulo 20

95 6 1
                                        

Pov Draco

O que aconteceu depois daquele beijo… bom, não foi um final feliz com fogos de artifício sobre as torres de Hogwarts, corujas cantando baladas românticas ou um decreto mágico declarando a paz entre Sonserinos e Grifinórios. Não. A verdade é que, quando a gente voltou à realidade — ainda abraçados, ofegantes, debaixo do céu noturno da Torre de Astronomia — tudo parecia exatamente como antes. A escola continuava dividida, os olhares ainda eram afiados como lâminas, e as velhas feridas ainda ardiam sob a pele. Mas havia algo diferente. Algo pequeno. Ínfimo. Mas real.

A certeza de que agora a gente estava junto. E isso era o suficiente.

E então veio o fim de semana.

Harry me encontrou na estufa — aquele mesmo lugar onde começamos a reconstruir os escombros daquilo que tínhamos — e me convidou para ir com ele até Hogsmeade. Não em grupo, não como colegas de escola, não como um passeio inocente de dois bruxos entediados. Ele me convidou como namorado. E isso, pra mim, ainda era estranho de ouvir. Namorado. Merlin… quem diria.

— Mas vamos fazer isso direito, Malfoy — ele disse, cruzando os braços como se estivesse propondo um plano de batalha. — Nada de esconderijo nos fundos do Três Vassouras, nada de capa da invisibilidade. Eu tô cansado de fingir. Eu gosto de você. E quem tiver problema com isso… que olhe pro outro lado.

Eu poderia ter dito não. Ter usado alguma desculpa: “meu pai vai surtar”, “os outros alunos vão comentar”, “Snape vai me crucificar”. Mas, no fundo, eu já estava cansado de me esconder também. E parte de mim — a parte que estava crescendo silenciosa desde o dia daquele soco na cara — queria fazer isso direito. Então eu disse sim. E me odiei um pouco por estar tão nervoso com isso.

A vila de Hogsmeade estava gelada, como sempre, com aquele cheiro de manteiga derretida, madeira molhada e fumaça de chaminé. Andar ao lado de Harry pela rua principal foi… desconfortável no começo. As pessoas nos olhavam. Algumas murmuravam. Outras apenas arregalavam os olhos, como se não acreditassem no que viam. Um ou outro aluno passou por nós com um riso abafado ou uma sobrancelha arqueada, como se tentasse entender qual maldição nos havia atingido. Mas Harry, claro, parecia não se abalar. Caminhava de cabeça erguida, a mão quase encostando na minha. Ele não a pegou, e eu também não. Mas ambos sabíamos que, se quiséssemos, poderíamos fazer isso. O mais surpreendente de tudo? Saber que não precisávamos provar nada a ninguém.

No Três Vassouras, pedimos duas cervejas amanteigadas e sentamos nos fundos. Não porque queríamos nos esconder, mas porque ali havia uma lareira acesa e uma mesa só nossa. Ficamos em silêncio por alguns minutos, só ouvindo o crepitar do fogo e o murmúrio das vozes ao redor. E então ele olhou pra mim com aquele olhar meio torto, que sempre vem acompanhado de alguma frase que vai me deixar desconcertado.

— Sabe, Malfoy… — ele começou. — Eu sempre achei que a gente era como dois feitiços que se anulam. Tipo um Protego e um Expelliarmus lançados ao mesmo tempo.

— Metáfora mágica, que original — revirei os olhos, mas ele continuou.

— Mas agora eu vejo que, talvez, sejamos dois feitiços que, juntos, criam uma nova magia. Uma que ninguém entende muito bem. Mas que funciona. Porque é imprevisível. É... você e eu.

Engoli seco. Eu odiava quando ele falava assim, com essa honestidade bruta, sem filtro. Porque ele dizia exatamente o que eu tentava não sentir. Mas naquele momento, olhando nos olhos dele, com a luz da lareira refletindo em suas íris verdes, eu não consegui manter minha muralha de sarcasmo.

— Você quer dizer… tipo uma maldição e um encantamento agindo juntos? — provoquei. — Um caos perfeitamente sincronizado?

Ele sorriu.

— Exato.

Houve um silêncio breve. Um daqueles silêncios que não pesam. Que só existem para preparar o terreno do que vem depois. E então, sem se importar com quem poderia estar olhando, sem medo, sem hesitação, Harry se aproximou e me beijou.

Dessa vez, eu correspondi sem pensar.

Não havia tempestade, nem guerra, nem culpa naquele beijo. Era um beijo lento, calmo, que dizia mais do que qualquer conversa. O sabor da cerveja amanteigada misturado ao calor da boca dele, o som abafado do mundo ao redor, a sensação dos dedos dele tocando minha nuca como se quisessem me ancorar… tudo fazia sentido. Como se, pela primeira vez, eu pertencesse a algum lugar. Como se, pela primeira vez, eu fosse mais do que o filho de Lúcio Malfoy. Eu era Draco. E ali, nos braços dele… era suficiente.

Quando nos afastamos, os olhos dele ainda estavam fechados. Os meus também. Porque abrir os olhos seria aceitar que o mundo ainda estava lá fora, pronto para julgar. Mas naquele segundo — só naquele segundo — não importava. Porque a gente tinha um ao outro. E talvez… isso fosse tudo.

Querido diário...||DRARRY Histórias para pegar e não largar. Descubra agora