Encontro com o destino

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Diário, essa não foi minha melhor semana.
Saí sorrateiramente pelos fundos. Deixar meu pai ali não seria o melhor a se fazer, mas era preciso. Eu tomava minhas próprias decisões! Entrei dentro da mata, que ficava atrás da casa e da ruazinha sem saída onde eles moravam.
-Vai abandonar o barco, marujo? -perguntou uma vozinha irritante na minha cabeça.
-Sr.Beatle, é o certo a se fazer.
-Certo é uma ova, seu período de provas vai começar e você está preocupada com contos de fadas? Veja bem, se conseguir sair dessa vai ficar perdida nos estudos. -falou como se fosse o senhor da razão- Não deixe um obstáculo te bloquear.
-Você não entende? Nunca vamos deixar de ser o que somos hoje! Isso é um jogo. Onde nenhum dos peões ganham! -falei ainda baixo para meu pai não me escutar- Não são só apenas contos! Agora são nossas vidas!
-Já entendi tudo. -disse ele com um tom de sarcasmo- Você está com medo de ver o Sr.Campbell e o João e a Maria, certo?
-É claro que não, Sr.Beatle! Você inventando uma coisa dessas!
-Então me mostre que não é essa a causa.
O que ele estava fazendo?! Aquilo era jogo sujo! Quem me dera não ter um orgulho tão grande, meu deus! Não é que eu acabei indo direto para o meu pai?
-Minha temporada de provas vai começar. -falei- Acho melhor irmos para casa.
-E Clarisse? -perguntou ele.
-Digo a todos que "Bruna" foi transferida. Tenho contas a acertar.
Ele assentiu, entrando no carro.
-Pai? -chamei ele enquanto ele ligava o carro- Você não foi resolver um problema em uma filial, não foi?
Ele me olhou como se não precisasse responder a minha pergunta. De fato, eu já sabia a resposta.
O motor ligou e logo pegamos a estrada. Eu estava com a cabeça recostada no vidro, sem o cinto, já que ele estava enforcando meu pescoço (eu sei que não era certo e meu pai me alertara várias vezes, mas eu era teimosa). Além disso, o episódio com o retrovisor não se repetiria. Fiquei pensando em como eu agiria quando encontrasse Ryan, MC ou JP. Será que eu diria "Oi, MC. Desculpe por ter beijado seu irmão, no qual você é afim" ou "JP, eu gosto do meu vizinho que não liga pra mim" ou "Ryan, eu gosto de você, então goste mim, simples". Óbvio que eu não diria isso. Deus me deu cérebro pra pensar, não pra servir como uma esponja dentro do crânio.
Respirei fundo e deixei o nervosismo passar, mas ele voltou quando uma voz me atrapalhou:
-Ainda bem que você não vai dizer isso, você pareceria desesperada por perdão. Siga sua vida sem o Ryan, simples.
-NÃO É TÃO SIMPLES ASSIM! -gritei.
-Filha, está tudo bem? -perguntou meu pai.
-Está, pai -menti.
-Jovem, você tem que se concentrar nos seus estudos, depois você cuida do resto -prosseguiu o Sr.Beatle.
-SAI DOS MEUS MIOLOS, INSETO INSUPORTÁVEL! -gritei de novo, fazendo meu pai ficar um pouco preocupado.
-Tem certeza que está tudo bem?
-É só um mosquito voando perto do meu ouvido. -resmunguei- Odeio esse tipo de insetos!
Olhei o horizonte na frente do carro. Finalmente não éramos os únicos naquela estrada deserta, havia um carro vermelho à nossa frente. Infelizmente, o motorista não parecia bem. O carro não conseguia se manter reto. Com medo, puxei o cinto rápido, mas ele travou. Odeio essas coisas! E então o carro da frente freou bem em cima da hora e eu fui para frente com toda, sendo puxada para trás pelo air-bag.
Toda a minha cabeça e todo o meu corpo doía. Meu pai se virou para ver se eu estava bem e seu rosto mostrou puro espanto. Meus olhos estavam pesando. Eu tinha que me manter acordada. Olhei para meu pai. Ele falava ao celular. Olhei para baixo com dificuldade. Minhas mãos estavam ensanguentadas, com pequenos cortes.
Em pouco tempo a ambulância chegou junto com a polícia.
Os paramédicos me deitaram na maca da ambulância enquanto meu pai explicava os detalhes do carro que nós batemos, no caminho do hospital. Nesse caminho, decidi tirar um cochilo, sem medo de não acordar mais depois.
Acordei com uma luz nos meus olhos e vários pares de olhos me olhando.
-Você sabe onde você está? -ele me perguntou.
-Em um hospital -respondi com dificuldade.
-Qual é o seu nome? -perguntou uma médica, que deveria estar tentando me acalmar.
-Amanda -arquejei de dor.
-Você sabe o que houve com você, Amanda? -perguntou ela.
Balancei a cabeça negativamente com dificuldade.
-Parece que você sofreu um acidente sério -falou o médico enquanto fazia alguma coisa dolorosa em vinha barriga.
Apertei a mão da médica com força. O suor escorria por todo o meu corpo. A dor queimava, como se estivessem retirando minhas costelas.
-ESTÁ DOENDO, POR FAVOR PARE!
-A dor seria pior se não tivéssemos botado a anestesia -falou a médica.
-Ei, -falou o médico chamando outro par de olhos- vamos apagar ela.
Me apagar? Eles iam me fazer dormir, não é?!
O médico assentiu, levantando suas mãos com luvas. Nem precisei do que ele iria me dar, pois quando vi as luvas todas vermelhas e melecadas de sangue eu desmaiei. Isso, Amanda, desmaie. Desmaie com sangue. Me senti até culpada pro isso. Culpada pro não ser forte. Que bom que meus pensamentos não estavam ligados naquele tempo.
Acordei meio grogue em uma cama de hospital. Um borrão andava de lá pra cá no quarto. Assim que se deu conta dos meus olhos abertos, a pessoa parou na minha frente.
-O que você foi arrumar, ein, Amanda? -falou uma voz conhecida.
-Clarisse? Não tinha ido encontrar alguém que não te agradava?
-Não podia virar as costas para alguém morrendo, se me permite dizer. -disse- Não de novo.
-O que quer dizer com "não de novo"? -perguntei.
Ela abaixou o olhar para minha coberta.
-Sinto vergonha em falar isso, mas... -ela respirou fundo e continuou- há um tempo... Encontrei minha mãe morta no chão de casa,
-Que horrível! -falei.
-Eu chorei e tudo que eu pensava era em fugir e não querer mas ver aquele corpo. -ela vez uma pausa para coçar  os olhos. Ela não estava coçando. Estava chorando- Fui direto para a casa de Peter contar o que aconteceu a ele. Fui dormir lá. Eu não queria dormir na mesma casa onde minha mãe foi morta. Mas seu pai estava dando uma festa do pijama.
Nunca imaginei meu pai dando uma festa do pijama. Ele teria dito que era desorganizado e coisa e tal.
-Começou a ter um ataque na casa por espíritos... -ela fungou- pelo menos eu acho que eram espíritos.
-Deixa eu ver se eu entendi: você se sente culpada por ter deixado sua mãe morta em casa e ido a uma festa do pijama?
-EU FUI FRACA, ESTÁ BEM?! EU NÃO AGUENTAVA VER SANGUE, QUANTO MAIS O CORPO DA MINHA MÃE! E VOCÊ NÃO PODE FALAR NADA, JÁ QUE DESMAIOU SO COM AS LUVINHAS DO MÉDICO! E SE FOSSE O CORPO DE SUA MÃE NA SUA FRENTE?!
Senti uma pontada de dor dentro de mim. Julgar os outros também machucava a você. Meu pai e seus amigos estavam em perigo. Acho que de alguma forma Clarisse salvou a vida deles. Imagina só carregar o peso de não conseguir ajudar sua mãe?
-Desculpe, eu não deveria ter te julgado mal -me desculpei.
Ouvimos passos. Clarisse pulou a janela (meu quarto era no primeiro andar) e saiu correndo.
De repente, entrou pela porta a última pessoa que eu imaginaria querer ver meu rosto.
-Amanda... O que houve com você? -perguntou.
-Um acidente de carro, mas isso não se compara a o que eu fiz uma vez. Doeu muito -falei.
Ela ficou lá, parada, esperando eu dizer que acidente pior que esse teria sido.
-Eu sem, querer querendo, machuquei a minha melhor amiga e acho que nunca serei perdoada por ela.
-Amanda...
-Não, Maria Carmem. -a cortei- Deixe-me me explicar, depois você tira suas conclusões e decide o que você quiser. Que será assim.

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Notas da autora: gente, fiz o melhor que pude. Desculpe se não ficou bom, mas estou em período de provas e sem muito tempo.
Pois é, né... Amanda não botando o cinto de segurança e causando um estrago daqueles! Pena que nem tudo nessa história é de mentira. Várias pessoas teimam em não usar cinto nessas horas e acontece coisas semelhantes a de Amanda ou piores.
Nesse capítulo também mostrei que deixar o orgulho tomar conta não é favorável, muito menos julgar uma pessoa por seus atos. Todos sentimos medo. Errar é humano e perdoar também.
Amanda só está na situação que está com MC por causa de sua cabeça um pouco confusa por garotos. Para as meninas eles são seres indecifráveis, então imagine a gente para eles? Que garoto entende uma menina que, em um dia esta toda de bem com a vida é, no outro quer que o mundo se foda?
Acho que o maior mistério da vida é entender o outro lado.

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