Uma briga e duas TPMs

445 40 2
                                        

Querido diário da dor,
Não posso contar muitas coisas porque MC está aqui do meu lado me dando mingau "na boquinha", como diz ela. E ela, com certeza, está lendo as palavras que escrevo em você à lápis. Mas talvez seja hora de contá-la sobre Clarisse.
---------------------------------------------
Fui acordada por leves e constantes sacudidas. Gemi, colocando a mão em meus olhos para os proteger da claridade.

-Deveria ter me avisado que fugiria -falou a voz rouca de Clarisse.

Tiro minha mão dos olhos lentamente, me ajustando à claridade, e vejo a imagem dela com um garoto lindo atrás. Um garoto muito lindo. Clarisse percebeu minha dúvida e disse:
-Este é Josh. Josh, Amanda.

-Vamos logo ao ponto, por favor -falei tentando não ser arrogante e passando a mão pelo meu cabelo, que estava mais bagunçado que meu quarto.

-Josh tem uma explicação para tudo -disse ela se sentando na minha cama.

-Então, o que estão esperando?! -perguntei animada- Me conte! Como posso acabar com essa maldição?

Josh se sentou na cadeira de minha escrivaninha, apoiando os cotovelos nas pernas:
-Somos imortais, logo, Dolly não consegue nos matar. Ela quer algo de nós.

Percebi que Josh e Clarisse olhavam além de mim. Para algo atrás de mim. Virei para compartilhar sua visão e dei um grito de susto, seguido por um travesseiro voando no gato risonho, que desapareceu segundos antes do travesseiro o acertar. Eu já vi aquele gato em algum lugar. Lembro-me dos desenhos de Clarisse, naquela caixa.

-Sou Clarence, gato e amigo, ao seu dispôr. -falou o gato se virando para Josh- A propósito, Dolly tem medo de que encerremos a maldição.

Me alegrei na hora:
-Há um meio de quebrar a maldição?! Vou finalmente estar livre disso tudo?!

Clarisse resmungou algo do tipo: "você nem está com a maldição por um ano, e eu estou há eras".

-Você sabe como quebrar a maldição? -perguntou Josh concentrado.

-Mais ou menos. -falou Clarence- Eu tinha um conceito errado sobre a adaga Henngdohmd. Ela é apenas uma conexão.

Ele já teve um conceito? Sobre aquela adaga estranha? Me senti como se estivesse em uma aula para gênios da física quântica.

-Espero que enfiar aquela adaga em mim não tenha sido perda de tempo... -resmungou Clarisse.

-Não foi. A adaga tem o poder de teletransporte, mas, é claro, que você desmaia quando não pensa em um lugar exato -explicou o gato roxo.

-Legal! Então eu posso me furar com a faquinha de nome esquisito, me teletransportar para a casa daquela boneca megera e fuder com a cara dela?! -gritou Josh sem um pingo de paciência- E eu estava todos esses anos jogando esse negocio pra longe?

-Joshua! Nada de palavreados! E com sua pergunta chula eu repondo que não, pois a adaga nos teletransporta de dimensões à outras -disse Clarence.

-Só uma coisa: eu sofri um acidente, fiz uma cirurgia, fugi de um hospital e vocês estão aqui, com uma boa notícia pela metade? -perguntei os olhando.

-Ela tem razão, -falou Clarisse- Vamos embora.

Clarence desapareceu e Clarisse e Josh pularam a janela.

Imediatamente, a porta e se abre, revelando MC e... ARRGGGHH CAMPBELL!

-Acordou, Bela Adormecida? -perguntou Ryan com uma cara desconfortavel.

-Imagina! -falei ironicamente- Ainda estou dormindo!

-Legal saber que sonha comigo...

-Ta mais pra pesadelo...

-Dá pra, por favor, me falar o que está havendo? -ele me pediu educadamente.

MC foi saindo discretamente do quarto, sinalizando a porta com a cabeça, a fechando. Bufei.

-O que aconteceu com você? -perguntou.

-Acho que eu deveria te perguntar isso.

-Eu fiz alguma coisa?

-Fez, Ryan! E também não fez! -gritei.

-Me diz o que eu fiz -falou com um tom calmo, os braços na altura na cabeça (mostrando rendimento) e se sentando onde Clarisse estava sentada.

-Você ERA meu amigo -falei cruzando os braços.

-Não sou mais? -perguntou Ryan.

-Você... -tomei fôlego- VOCÊ ME ABANDONOU! ME TROCOU PELO TIME! EM PENSAR QUE EU FUI SUA AMIGA PRIMEIRO!

-Está com ciúmes? -perguntou.

-De você? Me poupe! Eu sumi! Fui para o hospital! E você? Nem deu falta de mim! -gritei com os olhos ardendo.

-E SE EU NÃO SOUBESSE QUE VOCÊ ESTAVA LÁ?!

-AÍ É QUE TÁ! VOCÊ NEM PROCUROU SABER SE EU ESTAVA BEM! NÃO PASSOU NA MIMHA PORTA NEM PRA DIZER UM "OI"! VOCÊ SÓ SE IMPORTA COM VOCÊ E OS ESPORTES! QUER SABER? VOCÊ DEVERIA SE CASAR COM A BOLA DE FUTEBOL JÁ QUE ESTÁ TÃO GAMADO NELA!

-QUER SABER? EU NEM DEVERIA TER VINDO AQUI!

-AH, VERDADE. PORQUE VOCÊ VEIO MESMO? A BOLA DEVE TER CAÍDO AQUI EM CASA, SÓ SE FOR, NÃO É?

-POR QUE ESTÁ ME TRATANDO ASSIM?!

-PORQUE EU TO COM RAIVA!

-SEUS AMIGUINHOS NÃO TE DERAM CALMANTE, NÃO?! OU SERÁ SUA TPM QUE ESTÁ PEGANDO FOGO?!

-NÃO META MEUS AMIGOS NISSO! FALE UM AMIGO SEU QUE VOCÊ NÃO FALE DE ESPORTES, ENTÃO?!

Ele congelou. Ficou ali, parado, sem dizer nada.

-Vai embora, por favor -falei pegando o travesseiro do chão que eu jogara em Clarence e enterrando meu rosto no mesmo.

Ouvi os passos rápidos de Ryan Campbell se afastarem, seguido do barulho da porta sendo fechada com força. E minha vida era assim: sair de uma briga para entrar em outra. Falando sério: eu precisava de um banho.

Me levantei, um pouco melhor, para ir ao banheiro. Passei pela porta e sentei no vaso sanitário, pensando na briga que eu acabei de ter: será que ele era mesmo culpado por tudo que eu o acusara? Será que eu estava errada? Em meio à esses pensamentos, uma luz veio em meus olhos.

A luz vinha de debaixo do meu armarinho. Me abaixei para olhar e dei de cara com uma boneca horrorosa me encarando com um olhar demoníaco. Levantei a cabeça rápido, suando frio e com um grito abafado saindo de minha boca. Me abaixei para olhar de novo. A porcaria da boneca não estava mais lá. De uma coisa eu tinha certeza: era, com certeza, a boneca que estava na caixa de Clarisse e no livro dela. Qual era o nome daquela boneca... Dolly.

Apenas contosOnde histórias criam vida. Descubra agora