capítulo 27

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𝙋𝙊𝙑 𝘾𝙝𝙖𝙧𝙡𝙤𝙩𝙩𝙚

Os últimos dias com a Engfa têm sido incríveis. É claro que nem tudo são flores — para ela, que sempre foi uma solteira convicta, dividir o mesmo teto com alguém é uma experiência totalmente nova. Às vezes preciso chamá-la atenção pelos sapatos largados pela casa ou por uma garrafa de cerveja esquecida na mesinha de centro. Mas, tirando essas pequenas coisas, é maravilhoso ter alguém para dividir a enorme casa onde moramos.

Yoko se mudou de vez para a casa da Faye e eu não poderia estar mais feliz por minha irmã, embora confesse que sinto falta de uma casa cheia. Sempre invejei isso na Engfa — eu sou filha única, enquanto ela cresceu cercada pelos dois irmãos e ainda tinha a maluquinha da Becky rondando. Mesmo com tudo perfeito, sinto que ainda falta alguma coisa.

Avistei Engfa chegando com uma caixa cheia de livros que havia tirado do porta-malas.

— Meu Deus, Charlotte, você comprou uma biblioteca inteira? — ela passou a mão pelos cabelos e respirou fundo, cansada.

— Desculpa, P'Fa, acho que exagerei... mas quero que essas crianças tenham mais livros aqui. A Koop disse que são tão poucos.

— Tudo bem, eu pego mais uma caixa.

— Espera, eu te ajudo.

Juntas, tiramos três caixas do porta-malas do meu carro: duas cheias de livros e outra com brinquedos. De dentro do carro ainda pegamos mais uma com cobertores — o inverno estava se aproximando, e me dava medo pensar naquelas crianças passando frio.

Assim que tocamos a campainha do orfanato, Koop abriu a porta e correu até mim, abraçando minhas pernas com força. Seus olhos estavam bem fechados, e eu pude sentir todo o carinho que aquela menina tinha por mim. Abaixei-me e a ergui nos braços.

— Você veio!

— Mas é claro! Duvidou que eu viesse te ver? — levantei uma sobrancelha, sorrindo.

— Bom... – ela disse receosa — muita gente vem aqui, sabe? Eles dizem gostar da gente, passam o dia inteiro brincando às vezes, mas depois não voltam. Ou, se voltam, é só pra adotar os bebês.

Senti um aperto no peito. Como alguém poderia cativar aquelas crianças e simplesmente ir embora? Como alguém poderia não voltar depois de conhecer aquela menininha loira, tão esperta e cheia de vida!? Olhei nos seus olhos e percebi a urgência dela em se sentir querida, em pertencer a algum lugar.

— Eu não sou assim, Koop. Eu voltarei mais e mais vezes — coloquei-a no chão — E hoje eu trouxe os livros e brinquedos que prometi.

Ela abriu a boca maravilhada ao ver as caixas no chão. Logo desceu correndo do meu colo, mas parou de repente.

— Eu posso?

— Claro! Dê uma boa olhada. Isso tudo é seu e das outras crianças.

Koop começou a mexer nas caixas, dando uma espiada em cada livro, tentando segurar todos ao mesmo tempo nos braços. Ri com a cena. Engfa veio até mim e passou um braço pelos meus ombros.

— Ela é linda, não é? – perguntei.

— Muito. Ela me lembra você – respondeu, sorrindo.

Antes que eu pudesse dizer algo, a madre apareceu.

— Bom dia, Dra. Charlotte. A que devo a visita?

Apertei a mão dela.
— Eu prometi a essa pequena trazer alguns livros e brinquedos para as crianças.

𝐎𝐍𝐋𝐘 𝐘𝐎𝐔『 𝐞𝐧𝐠𝐥𝐨𝐭 』Onde histórias criam vida. Descubra agora