A descoberta

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P.O.V. Jeremih

O corredor do hotel estava silencioso demais. O tipo de silêncio que arrepia a pele e faz o coração bater mais rápido. Cada passo que eu dava ecoava como um lembrete de que eu não devia estar ali — mas já era tarde demais para voltar atrás. As palavras da Sammy ainda rodavam na minha cabeça, confusas, cheias de meias verdades e silêncios pesados.

Ela me olhava diferente quando eu perguntava sobre o Daniel. Os olhos dela ficavam frios, o corpo tenso, e o tom da voz mudava. Como se aquele nome fosse uma ferida que ela tentava esconder de todo mundo. Mas eu precisava saber. Precisava entender quem ele era — e o que tinha feito pra deixar minha irmã tão quebrada por dentro.

Quando parei diante da porta do quarto dele, respirei fundo e olhei o número dourado sobre a madeira escura. Quarto 302. O nome "Daniel Argent" brilhava na plaquinha do registro do balcão. Argent. O nome me soava familiar... talvez por já ter ouvido sussurros sobre aquela família. Caçadores.

Destranquei a porta devagar, apenas o suficiente para espiar o interior. O quarto estava parcialmente escuro, iluminado apenas pela luz fria que vinha da janela. E então, vi.

Sobre a cama, uma mala aberta cheia de armas. Armas de prata. Ganchos, lâminas, munição. Tudo perfeitamente organizado. Em cima da mesa, uma pasta com fotos impressas — lobos. Homens e mulheres de olhos dourados, em diferentes lugares de Beacon Hills. Alguns rostos riscados com tinta vermelha. Outros... marcados com um "X".

Meu coração parou por um segundo. Eu me aproximei devagar, tentando manter a respiração sob controle. Quando folheei as páginas, vi uma imagem que me fez congelar. Uma família. Três adultos e duas crianças. Todos mortos. Abaixo da foto, uma anotação em caligrafia firme:
"Eliminados. Família de lobisomens. Missão concluída – D. Argent."

A raiva me subiu como fogo nas veias. A família que ele matou era conhecida entre os lobos. Gente boa. Gente que nunca feriu ninguém. E agora eu entendia. Entendia o medo da Sammy, o silêncio dela, o olhar perdido quando ouvia aquele nome. Daniel não era só um ex. Ele era o monstro que tirou vidas — e ela provavelmente o amou antes de descobrir isso.

Um barulho de passos no corredor me fez reagir rápido. Fechei a pasta e a coloquei de volta exatamente como estava. Apaguei a luz e me sentei em uma poltrona, fingindo estar ali há pouco tempo, com uma expressão despreocupada.

A porta se abriu. Daniel entrou, carregando um copo de whisky na mão e um sorriso forçado.
— Jeremih? O que faz aqui? — perguntou, arqueando uma sobrancelha.
— Ah, Daniel... — forcei um sorriso. — Precisava conversar. Saber como as coisas estão indo desde que voltou pra Beacon Hills.

Ele se sentou de frente pra mim, ainda com aquele olhar analítico. O tipo de olhar que mede cada reação, cada respiração.
— Tudo tranquilo. Só resolvendo alguns assuntos pendentes. — respondeu, evasivo.
— Entendo. — disse, cruzando os braços. — A Sammy comentou algo sobre você... parece que vocês têm um passado meio conturbado, né?

Ele riu, mas o som foi frio.
— Ela sempre teve dificuldade em aceitar a verdade.
— Que tipo de verdade? — perguntei, mantendo o olhar firme.
— Que o mundo não é feito de pessoas boas e ruins. É feito de monstros... e de quem tem coragem pra enfrentá-los.

As palavras dele me deram vontade de socá-lo ali mesmo, mas controlei o impulso. Disfarcei um sorriso tenso, me levantando.
— Interessante... vou guardar essa filosofia pra pensar depois.

Saí do quarto antes que ele percebesse o tremor nas minhas mãos. Assim que cheguei no estacionamento, respirei fundo, tentando colocar os pensamentos em ordem. Tudo fazia sentido agora. O medo da Sam, o ódio que ela carregava, o motivo de todos evitarem falar sobre Daniel.

Peguei o celular e disquei o número dela. Ela atendeu na terceira chamada, com a voz tensa.
— Jeremih? Onde você tá?
— Estou indo pra casa da tia Mariah. — respondi, firme. — Acho melhor ficar lá por um tempo, até resolvermos essa história.
— O que aconteceu? Você foi atrás dele, não foi?
— Fui. E descobri o que você tanto tentou esconder. — falei, com a voz baixa. — Ele não é só um problema do passado, Sam. Ele é um caçador. E não vai parar até destruir tudo o que restou da gente.

O silêncio do outro lado da linha foi pesado. Ouvi um leve soluço antes que ela sussurrasse:
— Eu tentei te proteger, Jer...
— Agora é tarde pra isso. — interrompi, olhando o céu escuro de Beacon Hills.
— Mas eu prometo, Jer. Dessa vez, ninguém mais vai morrer por causa dele. Nem você.

Desliguei o telefone e encostei na lateral do carro, o peso da descoberta caindo sobre mim. O vento soprou, frio e úmido, trazendo consigo o presságio do que estava por vir.
Daniel Argent não fazia ideia de que, a partir daquela noite, eu não seria um fantoche em suas mãos .

o despertar (Editado)Onde histórias criam vida. Descubra agora