gravida

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P.O.V. Katerina

A noite estava úmida quando cheguei ao antigo acampamento onde Mikael costuma reunir os seus. O vento trazia cheiro de madeira queimada e o latido distante de cães; tochas pequenas faziam sombras dançarem nas barracas. Desci do carro com passos calculados, o salto batendo firme no chão encharcado — gostava de marcar presença. Ele já estava me esperando, encostado no tronco de uma árvore como se aquele lugar fosse mais dele do que de qualquer outro.

— Achei que não viria mais — disse ele assim que me viu, a voz áspera de quem não se surpreende com traições, mas às vezes espera um pouco de espetáculo.

Sorrateira, retribuí o abraço. Mikael sempre teve esse toque de homem antigo, forte e imprevisível; sua proximidade fazia um arrepio subir pela minha espinha, mas eu mantive o controle. Não era hora para hesitações.

— E por que eu não viria, Mike? — respondi com desdém contido, os olhos avaliando-o nas entrelinhas.

Ele riu, um som curto que misturava ironia e admiração.

— Nossa! Tenho que agradecer aquele lobo por ter te dispensado, porque há anos você não me chama assim. — Provocou, e o tom insinuou lembranças que preferi não reviver.

A conversa foi breve; não me dei ao luxo de rodeios. Vim com um objetivo e não sairia dali sem uma resposta clara.

— Enfim, você aceita atacar a matilha do Scott por mim? — perguntei, direta, cada palavra escolhida para inflamar ou acalmar conforme a necessidade.

Mikael me olhou por um tempo longo demais; no seu silêncio havia cálculo e teste. Ele sabia o preço de se envolver em guerras — e eu sabia disso também. Observei suas mãos, as cicatrizes, o modo como apertava o copo sem jamais beber. Ele era guerra em forma de homem.

— Óbvio que eu aceito — respondeu por fim, mas não era um "sim" simples. Havia condições embutidas, promessas veladas. — Mas isso tem que me compensar. E não só em moeda ou armas.

Levei um passo adiante meu jogo: sorri, com aquela confiança que eu cultivava como armadura.

— Você terá o que quiser — disse. — Proteção, território, os recursos que eu posso garantir. E além disso, algo que você deseja há muito tempo: poder reconhecido. Junte-se a mim — e Mikael passará a ser mais do que um caçador solitário; será peça-chave numa aliança que vai reescrever o mapa.

Ele inclinou a cabeça, medindo a oferta. Sabia que precisava de aliados humanos e sobrenaturais para enfrentar Scott e sua matilha. Se conseguisse comprar Mikael com promessas e respeito, minha posição ficaria mais forte.

— Está bem, Katerina. — disse, baixando a voz, e o veredicto parecia selado. — Vamos planejar. Mas saiba: quando eu me comprometo, não volto atrás.

Senti no peito a satisfação seca de quem alcança um objetivo. A guerra ganhava mais uma peça. E enquanto saía do acampamento, a noite parecia sorrir para mim — ou talvez fosse só o reflexo do fogo nas minhas intenções.

P.O.V. Samantha

Os dias haviam se tornado um turbilhão de sensações estranhas. Uma náusea que vinha sem aviso, um cansaço fora do comum, e aquela sensação de cabeça oca que me pegava nas manhãs como se alguém tivesse trocado minha rotina por um filme em câmera lenta. Não queria me iludir, mas uma parte de mim já temia a resposta. Ainda assim, neguei por teimosia — até que meu corpo decidiu falar por mim.

Acordei no fim da manhã, cambaleando até o banheiro. Era a quarta vez naquele dia que eu me via vomitando, e a sensação de fragilidade apertava o peito. Entre um suspiro e outro, ouvi batidas na porta.

— Sam, você tá bem? — Lydia perguntou do outro lado, com a voz de alguém que tenta controlar a preocupação mas falha.

Eu respirei fundo e forcei um sorriso. Abri a porta devagar, ajeitando o cabelo preso num rabo de cavalo. Lydia me olhou de cima a baixo, rindo antes mesmo de dizer qualquer coisa.

— Até pra isso você é lerda? — ela provocou, mas a voz tinha uma ponta de ternura que me fez rir, mesmo com o enjoo.

— Como assim? Você bebeu ou o que? — retruquei, fingindo irritação com o olhar mortal que a situação pedia.

Ela cruzou os braços, divertida e, ao mesmo tempo, tentando disfarçar o nervosismo. Então ela falou, e a simples forma como pronunciaram as palavras fez meu coração saltar.

— Querida Sam... você está grávida.

Aquelas palavras rebateram no meu peito como um trovão. Por um segundo tudo sumiu: o barulho da rua, a música ao longe, até o relógio parecia ter parado. "Grávida" — eu repeti mentalmente, como se quisesse provar que era real. Um riso nervoso escapou dos meus lábios e eu senti uma mistura impossível de alegria, medo e pânico. E agora? Como contar a Derek? E se ele reagisse mal? E se Daniel, Kate ou qualquer outra sombra do passado descobrissem?

— Droga! Como vou falar pro Derek? Lydia, me ajuda! — eu disse, quase gritando.

Ela pegou minhas mãos, tentando me acalmar.

— Calma, Sam. Com tudo o que tá acontecendo, vai ser difícil agora. Espera um pouco — ela sugeriu. — Conta quando as coisas estiverem mais calmas.

Respirei fundo, tentando aceitar o conselho. Talvez fosse o certo. O mundo estava se complicando rápido demais: Daniel voltando, Jeremih expulso, Katerina se armando com Mikael... Precisava de calma para pensar.

— Tá, vou esperar. — respondi, embora soubesse que a espera só faria a ansiedade crescer. — Agora deixa eu me arrumar, tenho que falar com o Scott.

Lydia arregalou os olhos e não conteve a provocação.

— Derek vai explodir de ciúme, Sam. Você tá dando mais atenção ao Scott do que ao pai do seu filho. — disse, me apertando as bochechas num gesto exagerado de mãe protetora.

Revirei os olhos e sorri, sabendo que a imagem era verdadeira. A sensação de culpa apertou por um instante, mas eu sabia que precisava priorizar o que era urgente: proteger Jer e entender o que Daniel planejava. Derek poderia esperar — por ora.

— Depois eu falo com ele, tá bom? — respondi, com ironia intencional, tentando amenizar o clima.

Ela bateu palminhas, satisfeita.

— Muito bem, filhinha! — brincou, mas o tom era carinhoso demais para ser só brincadeira.

Enquanto Lydia se perdia em suas compras imaginárias, eu me vesti com um jeans confortável e uma blusa leve, o corpo ainda reclamando de fome e náusea. Antes de sair, parei diante do espelho um instante. A barriga não mostrava nada além de uma linha de roupa dobrada, e mesmo assim senti uma onda de proteção subir das entranhas. Havia uma vida ali — frágil, incerta — e eu já sentia a responsabilidade mornando como fogo novo.

A rua estava clara quando saí. O plano com Scott pesava na cabeça: ter aliados, organizar vigílias, proteger Jeremih. E agora, com essa nova descoberta, tudo parecia ter um novo ângulo. Eu não poderia falhar. Não desta vez.

Ao fechar a porta, ouvi Lydia gritar atrás de mim:

— E não esquece: quando for contar pro Derek, tenta não jogar ele da escada, tá? — ela gritou, entre risos e preocupação.

Sorrindo, balancei a cabeça. O mundo podia desabar, mas havia espaço para novidades — e para medos que, de alguma forma, eu teria que enfrentar.

o despertar (Editado)Onde histórias criam vida. Descubra agora