alpha genuino

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P.O.V. Samantha

Não posso perder o controle de novo — se isso acontecer, todos vão descobrir. A ideia me percorre como um aviso urgente, e eu mal consigo respirar. Tranco a porta do meu quarto com mais força do que o necessário e me deixo recostar contra a madeira fria. As paredes parecem se aproximar, e o ar fica denso; tento puxar ar pelo nariz e contar até dez, mas a minha mente não para de rodar em perguntas sem resposta.

O que aconteceu para o Jer ser expulso? O que ele fez? Por que ele voltaria agora, e por que com o Daniel? Tento reorganizar as peças do quebra-cabeça, mas cada possibilidade me deixa mais tensa. Sento na beirada da cama, as mãos tremendo, e mexo no colar que sempre uso — um gesto automático para me ancorar.

— Sam, abre a porta, precisamos conversar. — A voz da Lydia soa do outro lado do batente, ansiosa, quase sufocada.

Reviro os olhos; por um momento finjo que não ouvi. Estou cansada de surpresas, de notícias que sacodem o chão sob meus pés. Mas ela continua batendo, mais insistente. Suspirei, levantei e abri a porta apenas o suficiente para deixá-la entrar. Lydia entra como um furacão contido: olhos arregalados, mãos nas laterais do corpo, hálito curto.

— Como aconteceu? — ela pergunta, sem rodeios.

Finjo distração, tentando ganhar tempo.

— Aconteceu o quê? — pergunto, voz calma demais.

Ela me encara, não acredita.

— Não minta pra mim! Você matou al... — começa, a frase morrendo quando me vê. A expressão dela muda — há medo, confusão, algo parecido com reverência.

Não a deixo terminar. Sinto a pressão subir, o calor nos meus ouvidos, a sensação familiar e terrível de controle escapando.

— NÃO! — explodo, perdendo o fio por um instante. Minhas costas encostam na parede, as juntas dos dedos brancas de tanto apertar o colar.

Fecho os olhos, respiro fundo, forço a voz a voltar ao normal.

— Eu não precisei matar ninguém — digo, mais baixa. — Simplesmente... me foi dado.

Lydia franze a testa, sem entender.

— Não entendi. Como assim "dado a você"?

Olho para ela, um pouco surpresa com sua falta de percepção. Ela sempre foi sensível, mas isso agora parece sério demais para ela não ter notado.

— Esqueci que você é uma banshee — respondo, com um tom que mistura impaciência e ternura. — Da mesma forma que foi dado ao Scott, foi dado a mim.

A palavra "banshee" paira entre nós como um sopro. Lydia passa a mão no rosto, tentando processar. Seus olhos cintilam, mas não com a mesma intensidade de antes. Há confusão, e também um lampejo de compreensão.

— Então... você é um alpha genuíno? — ela pergunta, como se pronunciar a palavra fosse tocar algo sagrado.

— Sim — admito, e a resposta sai pesada. — Mas eu não consigo controlar isso.

Sinto o peso de cada sílaba. Controlar. Uma palavra que sempre me escapou. Tenho medo do que acontece quando perco o controle: do dano que posso causar, do que posso revelar sobre quem realmente sou. Lembro das noites em que acordei suada, com o coração acelerado, sem lembrar exatamente do que fizera. Aquilo me assombra.

Olho para Lydia; ela está pálida, os olhos fixos num ponto além de mim.

— Lydia, o que você está sentindo? — pergunto, tentando manter a voz firme.

Ela respira profundamente, como se puxasse ar do fundo de um lago.

— Quanto mais ele se aproxima, mais eu sinto que algo ruim vai acontecer. — A voz dela sai baixa, tensa. — E não é só com você. É com todos nós.

As palavras dela me atingem como um soco. Por um segundo penso que ela fala do Derek, ou do Jeremih — qualquer um dos dois poderia provocar essa sensação de perigo — mas então percebo que Jeremih não vem sozinho. A imagem de Daniel surge, nítida, como uma sombra projetada na parede do meu pensamento. Daniel — nome que carrega memórias afiadas, olhares calculados e promessas quebradas.

Meu estômago se fecha; uma raiva e um medo que não sei separar se entrelaçam. Tento controlar os tremores na voz.

— Daniel. — digo, apenas isso, deixando a palavra cair como um aviso.

o despertar (Editado)Onde histórias criam vida. Descubra agora