P.O.V. Derek
Nem acredito que a Sam está de volta. Ainda sinto o peso do dia em que ela foi embora — como se tudo tivesse acontecido ontem, não quatro anos atrás. Cada lembrança dela volta em ondas: o riso, o jeito de mexer no cabelo quando estava nervosa, o cheiro do perfume que eu jurava que seria só meu. E, ao mesmo tempo, a culpa apertando meu peito como uma mão invisível.
Flashback — manhã chuvosa
A chuva tamborilava no telhado como se a cidade inteira quisesse escutar. Estava sozinho na sala quando a campainha tocou. Não esperava visitas; muito menos a visita do meu tio Peter, que veio com aquele olhar sério que sempre dizia mais do que as palavras.
— Peter, o que você quer aqui a essa hora? — perguntei, levantando da poltrona e enxugando as mãos na calça.
— Vim te fazer uma visita. Não posso? — ele respondeu, desviando o olhar.
Algo em Peter parecia fora do lugar. Mesmo assim, tentei disfarçar.
— Peter, você nunca aparece assim. O que está acontecendo? — minha voz saiu curta.
Ele se aproximou, tirou o casaco encharcado e deixou cair o olhar direto em mim, como quem estuda uma sentença.
— Você gosta da Samantha? — ele perguntou, sem rodeios.
A pergunta caiu como um soco no estômago. Eu tentei rir, empurrar o assunto para longe, mas Peter não deixou.
— Por que a pergunta, Peter?
Ele permaneceu calmo, mas havia urgência nas palavras.
— Só quero que responda isso, Derek. Você gosta da Samantha?
— Sim, Peter. Sou completamente apaixonado por ela — falei, e a verdade saiu sem máscara. Era doloroso admitir até para mim mesmo.
Peter ficou em silêncio por um instante que pareceu durar uma eternidade. Quando falou, a voz vinha baixa e tensa.
— Você tem que protegê-la da Kate, Derek. A Kate enlouqueceu. Você sabe do que eu estou falando.
Aquelas palavras ecoaram. Kate. O nome que carregava reputação de perigo e obsessão. Minha mente correu: histórias de brigas, de manipulações, de olhar que não perdoava. Peter andou pela sala como quem busca as peças de um plano que ainda não sabe montar.
— O que você quer que eu faça? — perguntei, quase sem me reconhecer.
— Faça o que for preciso para tirá-la daqui. Proteja-a. — Ele olhou para mim com uma intensidade que apertou meu peito. — Mesmo que doa.
Fiquei pensando nisso. Proteger. Era alto, nobre, inegável. Mas havia um preço. Se Kate representava perigo real, eu precisava de algo que a afastasse — algo que a fizesse partir por sua própria vontade. E então, com a noite, a ideia que mais me aterrorizava tomou forma: eu faria com que a Sam fosse embora. Eu faria doer. Eu faria com que ela me odiasse, e talvez assim ela ficasse segura.
Esperei anoitecer como se esperasse o tempo exato para cometer uma traição com máscara de sacrifício. Cada segundo arrastava. Quando a rua já estava vazia e as janelas fechadas, fui até ela.
— Oi, meu amor, como você está? — ela disse, aproximando-se com aquele sorriso que sempre desarmava minhas defesas.
Eu senti o nó na garganta, a voz tremendo mesmo antes de abrir a boca.
— Samantha, precisamos conversar — falei, tentando manter a calma.
Ela recuou um pouco, surpresa.
— Derek, aconteceu alguma coisa?
Minha respiração ficou mais curta. Essa seria a sentença.
— Precisamos terminar, Samantha.
A confusão no rosto dela foi imediata. Os olhos arregalaram, a voz saiu trêmula.
— O-o quê? Derek, por quê?
As palavras que eu tinha de dizer me envenenavam enquanto eu as formulava. Eu precisava ser convincente; a dor que eu causasse nela deveria ser real o suficiente para empurrá-la para longe de mim, e assim para longe da cidade.
— Eu não te amo mais.
As lágrimas começaram a rolar pelo rosto dela como uma chuva súbita. Ouvi o choro e, por dentro, algo em mim quebrou em milhares de pedaços. Cada soluço dela era uma faca que eu mesma me cravava. Mas eu não podia recuar. Não podia ceder. A ideia de Kate próximo a ela era intolerável. Se um mal menor significasse salvá-la de um mal maior, eu me forçaria a escolher o áspero.
— Você é impossível mesmo — ela sussurrou entre lágrimas, com raiva cortante. — E eu achando que você me amava. Eu vou embora daqui o mais rápido possível, seu imbecil.
Ela partiu naquela noite, as malas fechando a porta atrás dela. O silêncio que ficou era ensurdecedor. Fiquei parado no corredor, as paredes me apertando, e quando a porta bateu, finalmente permiti que as lágrimas caíssem.
Chorei sozinho. Não houve teatro, nem herói naquela cena — apenas um homem que deixou escapar a pessoa que mais amava para salvá-la de algo que ele mal sabia controlar. Cada soluço meu era um pedido de desculpas sem destinatário.
Num sussurro, quando já não havia mais ninguém para ouvir, eu disse:
— Eu te amo e sempre vou te amar, Sammy...
Flashback — fim
Volto ao presente com a mesma oração presa na garganta. "Minha Sammy." A memória ainda é quente como se tivesse acabado de acontecer. Não consigo dormir direito desde que ela foi embora. Me sinto culpado, responsável, e ao mesmo tempo aliviado por tê-la protegido, ainda que de forma covarde.
Agora ela está de volta — e essa volta desperta tudo de novo: esperança, medo, arrependimento. Queria poder dizer a ela a verdade, explicar cada pequena mentira que contei por um propósito maior. Queria arrancar das minhas mãos tudo o que causei. Queria desfazer a noite em que escolhi mentir para poupá-la de algo que talvez eu não pudesse controlar.
Mas o tempo não conserta tudo, e nem sempre há espaço para confissões. E ainda há Kate. Essa sombra que ronda qualquer plano que eu tente fazer.
Segurei o copo com força, as lembranças queimando meus dedos. O som da festa distante bateu nas paredes do meu peito. Se eu pudesse voltar atrás, faria diferente. Se eu pudesse protegê-la sem destruí-la, não hesitaria. Mas não sei mais qual é o caminho certo. Só sei que, quando penso em Samantha, meu mundo inteiro treme.
— Minha Sammy — sussurrei de novo, para ninguém, como se palavras pudessem, de alguma forma, atravessar os anos e alcançá-la.
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o despertar (Editado)
WerewolfSamantha Salvatore, uma jovem loba de 20 anos, retorna à sua cidade natal depois de anos afastada. Lá, ela reencontra seu antigo namorado, Derek Hale, e os sentimentos que pensava ter superado começam a ressurgir. Mas sua vida vira de cabeça para ba...
