olhos

1.4K 58 1
                                        

P.O.V. Derek

Cora e Peter me encararam por um momento que pareceu durar horas. O ar da sala ficou mais denso; as palavras que eu acabara de soltar ainda ecoavam nas paredes.

— Mas o sobrenome dela é Petrova — disse Peter, franzindo a testa, sem entender como aquilo se encaixava.

Segurei o impulso de responder seco. Tentei organizar a verdade em frases que não soassem como desculpas.

— O marido da mãe dela a registrou como filha dele — expliquei com calma forçada. — Mas o verdadeiro pai dela é o Gerard. Ele a treinou. Eu deixei ela acabar com a minha vida.

As vozes apenas diminuíram. Senti o peso de cada sílaba. Dizer aquilo foi como arrancar um curativo: doeu na hora, e tudo ao redor queimou. As memórias vieram, rápidas e cruéis — a cena da Hayley, a frieza calculada de Kate, os detalhes que eu fingira não ver.

Sem esperar, saí da sala. O corredor parecia mais comprido do que realmente era; as paredes, mais próximas. Entrei no meu quarto como se fosse um refúgio provisório e me atirei na cama, vestido, sem tirar o casaco. Precisava dormir. Precisava que o sono levasse embora o peso da culpa, da culpa das escolhas que me impuseram, da sensação de que eu havia falhado com quem eu mais amava.

Mas o sono não veio tranquilo. Meus sonhos foram invadidos por olhos castanhos — profundos, decididos — os mesmos olhos que eu amava. Eles me perseguiam como uma lembrança que não perdoa. Em cada fragmento do sonho ela surgia: sorrindo, chorando, me olhando como se ainda não soubesse a verdade. Acordei subitamente, o peito apertado, a boca seca, como se ainda estivéssemos presos naquele passado que eu tentara enterrar.

P.O.V. Samantha

Nem acredito que, em menos de uma semana em Beacon Hills, já o encontrei — e ele já me beijou. Pode parecer loucura, mas, admito, senti algo ao beijá-lo de novo. É confuso: parte de mim queria correr, outra parte desejava afundar naquele momento e esquecer o resto.

Lydia entrou no meu quarto como um furacão, jogando a porta com força e arrastando consigo uma energia que me obrigou a sorrir automaticamente.

— Vamos! Levanta daí, e vamos ao shopping! — gritou ela, já na porta, puxa-molas da vida social.

— Não! Lydia, eu amo essa cama e não vou sair daqui! — respondi, enrolada nos lençóis como se eles fossem uma armadura.

Ela revirou os olhos dramaticamente e se jogou na beirada da cama.

— Não me faça implorar...

— OK!! — disse, sentando de repente. — Não precisa implorar, vamos logo.

Lydia olhou para mim de cima a baixo e soltou uma risada.

— Então você vai pro shopping assim, de roupa de dormir? — perguntou, apontando para minha camiseta folgada.

Marquei a hora no relógio: exatamente 13:00. Eu ainda estava de pijama. Corri pro banheiro, lavei o rosto, escovei os dentes com pressa e escolhi algo casual: uma blusa simples e jeans. Queria parecer comum. Queria me sentir invisível por um tempo.

No shopping, Lydia não parava de falar nem de comprar. Era impossível não se contagiar com a animação dela — quase me esqueci do beijo, do Derek, do aperto que aquele encontro deixou no meu peito. À noite, já exausta, voltei pra casa e desabei no meu quarto, rendida ao sono.

Acordei assustada com Lydia me sacudindo e falando rápido, com o rosto pálido.

— Preciso falar com você. É urgente! — ela disse, caminhando de um lado para o outro.

Eu, ainda sonolenta, estiquei o braço e gritei de brincadeira:

— Se sua urgência for roupa, Lydia, eu juro que te mato!!

Mas a expressão dela não era de brincadeira. Ela me olhou como se tivesse visto um fantasma.

— Preferia que fosse roupa. — resmunguei, inclinando a cabeça.

Ela engoliu e falou de uma vez, sem me deixar processar as palavras:

— Seu irmão foi expulso.

O mundo pareceu cair por um segundo. Só captei as sílabas soltas: seu... expulso. Senti um nó se formar na garganta, uma mistura de incredulidade e um frio que subiu da base da coluna até o couro cabeludo.

— Lydia, fala devagar. — pedi, como se pudesse domar a tempestade que estava se formando.

— Seu irmão foi expulso. — repetiu ela, agora com mais clareza. — E ele está vindo pra cá... com o Daniel.

A raiva cresceu dentro de mim como um fogo que eu não conseguia apagar. Senti meu estômago revirar; as mãos começaram a tremer. Tentei virar o rosto e respirar, mas Lydia notou algo diferente.

— Ai meu Deus! Seus olhos... — ela exclamou, assustada.

Olhei para o espelho do corredor — meus olhos estavam avermelhados, a esclera tingida de sangue, e por um instante senti o pânico subir. Tentei disfarçar, mas a verdade era evidente até para Lydia.

— Não tem nada com eles — falei, forçando uma calma que não existia.

— Seus olhos estão vermelhos!! Você é uma alpha também? — perguntou ela, com a curiosidade e temor ao mesmo tempo.

A pergunta me perfurou. Eu não era pronta para confrontar isso ali, com Lydia no meio do quarto. Não agora. Não quando minha cabeça ainda rodava com o beijo do Derek e com a notícia do irmão.

Respirei fundo e, sem dar explicação, saí do quarto. Precisava de ar. Precisava juntar as peças que começavam a cair por todos os lados. Lá fora, a noite estava fria; respirações viravam vapor. Eu fiquei parada na varanda, os pensamentos correndo — o irmão expulso, Daniel ao lado dele, Derek que havia me beijado, e aquela sensação incômoda de que tudo estava se encaminhando para um confronto que eu não pedira.

Não sabia ainda o que isso significava para mim. Só sabia que Beacon Hills tinha me puxado de volta para algo muito maior do que eu imaginava — e que, por mais que tentasse, não seria possível ficar alheia ao que vinha acontecendo.

o despertar (Editado)Onde histórias criam vida. Descubra agora