alpha

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P.O.V. Derek

Hoje completa quatro anos desde a última vez que a vi. Quatro anos que pesam no peito como chumbo. Quando penso em Samantha, sinto um aperto que mistura saudade, culpa e uma necessidade urgente de explicar tudo — de confessar o que me obrigaram a esconder. Preciso dizer a ela a verdade sobre aquela decisão. Preciso contar sobre a Kate.

Cheguei em casa antes do esperado e, para minha surpresa, encontrei o Peter e a Cora na sala. A luz do fim de tarde entrava pela janela, recortando os móveis com faixas douradas. O silêncio ali parecia carregado, como se aquele encontro tivesse sido preparado por algo maior.

— Cora! — disse assim que cruzei o corredor. — Quando você chegou?

— Cheguei de viagem há mais ou menos duas horas. — Ela sorriu e veio até mim, me dando um abraço apertado. Senti o cheiro familiar dela — perfume misturado com terra e recordações — e por um segundo me permiti relaxar. Cora sempre foi uma âncora; no passado, sua presença acalmara tempestades que eu achava que jamais cessariam.

— Que bom que você está aqui. — respondi, tentando controlar a voz.

Peter, sempre com a postura despojada, ajeitou o casaco e acenou.

— Oi também, Derek. Estou bem, e também senti muita sua falta. — falou, mas havia algo nos seus olhos que denunciava a brincadeira.

Cora se acomodou em uma poltrona, as mãos entrelaçadas; havia uma tensão quase visível em seus ombros.

— Estávamos falando da Katerina. Ela está de volta e... — começou Cora, a frase morrendo nos lábios.

Peter a interrompeu antes que ela pudesse terminar.

— Ela está atrás da Samantha. — A declaração de Peter caiu como um bloco de gelo.

Fiquei mudo. O ódio subiu quente sob a pele, uma mistura de medo e rancor. Kate. O nome ainda carregava cheiro de pólvora e lembranças de vidro quebrado. Não sabia o que dizer além de um único som: um irmão que tenta pensar e só sente.

Flashback — o começo de tudo

Eu ainda me lembrava do primeiro dia que a vi. Estava indo para a escola, a chuva fina transformando a rua em espelho. Um carro prata parou na esquina e uma garota loira saiu, imóvel como se o mundo torto tivesse parado para ela. Havia algo nos olhos dela — um misto de fragilidade e determinação — que me fez descer do carro e me aproximar.

— Oi, me chamo Derek. Derek Hale. É nova aqui? — perguntei, automático, e ela sorriu com um leve ar de superioridade.

— Sim. Eu me chamo Katerina — disse ela. — Katerina Petrova. Mas pode me chamar de Kate.

A conversa fluiu fácil; nosso destino era a mesma aula. Acabei convidando-a para ir comigo, e logo passamos a dividir trajetos, risadas e confidências de adolescentes. Ela tinha o dom de ser todo encanto e sombra ao mesmo tempo. Fizemos amizade, e com o tempo passei a ver nela uma presença constante — até que a linha entre amizade e algo mais se tornou perigosa.

Quando me apaixonei por Sam, Kate mudou. A mudança não foi imediata; foi uma erosão silenciosa, olhares que demoravam a se apagar, sorrisos forçados. Pensei, ingenuamente, que era ciúme passageiro. Até o dia em que a Hayley... Hayley.

Aquele dia ainda queimava na minha memória. A rua estava silenciosa demais; o ar tinha cheiro de metal e algo estava errado no céu. A morte da Hayley foi uma ferida aberta que me escancarou verdades que eu preferia não saber. Descobri que Kate não era simplesmente uma garota vingativa: havia sangue por trás daquele sorriso. Havia conexões com uma linhagem que eu reconhecia com horror — a família Argent. Quando soube que ela era filha do Gerard, a peça se encaixou em todas as sombras que eu ignorara.

Percebi, tardiamente, que subestimei a extensão do que ela poderia fazer. E quando vi o alcance dos atos dela, soube que Sam estaria na lista de alvos. Eu não podia permitir isso.

Voltei ao presente com a respiração curta. As paredes da sala pareciam se aproximar, e a voz de Cora trouxe-me de volta.

— Você é forte agora. Você é um alpha, Derek. — disse ela, com ternura que tentava cobrir algo queimar dentro dela.

Peter acrescentou, com uma tentativa de amenizar:

— E a morte da Hayley não foi sua culpa, Derek. Nós não imaginávamos que ela iria tão longe.

As palavras deles soaram vazias. Eu havia pensado que poderia controlar as consequências das minhas escolhas; que poderia moldar o destino com mentiras piedosas. A verdade é que a culpa me corroía. Eu sabia, desde o início, que Kate era perigosa — sabia que seu sangue vinha dos Argent — mas não esperava que chegasse tão longe. Quando eles perguntaram como eu sabia, fui obrigado a admitir algo que me envergonhava e angustiava:

— O sobrenome dela não é Petrova por acaso. — falei, a voz firme apesar da turbulência interna. — O pai que a registrou era adotivo. Gerard a adotou — e eu sabia que, onde Gerard estivesse, sempre haveria laços que não eram apenas de papel.

O olhar de Peter mudou; a confirmação trouxe mais perguntas do que respostas.

— Você tem certeza disso? — ele perguntou, devagar.

— Tenho. — respondi. — Não é apenas um nome. É uma conexão. E se Kate está de volta e procurando Samantha, então não é só nostalgia. Há algo urgente — e perigoso — por trás dela voltar.

Cora levou as mãos ao rosto, exausta.

— O que faremos, Derek? — sua voz falhou. — Sam não pode se envolver nisso. Nós não perdemos outra pessoa.

A pergunta ecoou pela casa. No meu peito, a necessidade de proteger Sam queimava com mais força do que o medo de ser odiado por ela de novo. A lembrança da noite em que a empurrei a partir para protegê-la me rasgava. Faria tudo diferente se pudesse, mas agora ela estava de volta e o passado exigia reparação.

— Vamos planejar. — disse finalmente, com a voz de quem assume a responsabilidade. — Primeiro, temos que descobrir o que ela quer e o quanto ela já sabe. Depois, proteger Sam. E se Kate está realmente envolvida com os Argent... então vamos precisar de mais do que cautela. Vamos precisar de aliados.

Peter assentiu, relutante, aceitaram o plano com a mesma apreensão que eu sentia — como se cada passo fosse sobre cascalho quebradiço. Sabia que, se a Kate voltara por Sam, os dias de tranquilidade estavam contados. E, por mais que eu desejasse dizer a verdade inteira para Samantha, por mais que quisesse puxá-la para mim e pedir perdão, havia coisas que só o tempo e a ação poderiam reparar.

Olhei pela janela para a rua ensolarada, tentando avistar qualquer sombra do passado. Meu sussurro escapou antes que eu pudesse retê-lo:

— Minha Sammy... eu não vou deixá-la, nem desta vez, nem nunca.

o despertar (Editado)Onde histórias criam vida. Descubra agora