Parte 18

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Nascer naquela época em qualquer lugar do mundo podia ser considerado um grande azar, e isso também era verdade para Rhaast e seus irmãos, embora pouco restasse para contar a história verdadeira do que era aquele mundo, principalmente do que um dia foi Shurima. Uma terra de grandes belezas, mas grandemente castigada pelas guerras.

Nascido em uma família de guerreiros, Rhaast não teve exatamente uma infância. Suas brincadeiras envolviam lutar, e os treinos exaustivos consumiam sua rotina desde as primeiras horas do dia até que o sol se escondesse no céu. As dificuldades da guerra, o medo dos monstros, a exaustão das batalhas, nada daquilo parecia, porém, ser suficiente para destruir o espírito juvenil e brilhante do soldado. Em suas mãos habilidosas, lâminas se tornavam pincéis que pintavam o chão de vermelho, e as batalhas eram uma coreografia da sobrevivência, da glória de seu povo, do futuro de Shurima. Ele não era só mais um soldado, não. Ele era um dos melhores, dos mais hábeis, mais talentosos. Ele era ousado, inteligente, pronto para assumir riscos e liderar exércitos com coragem e garra.

Tudo se pagou quando a honra maior de seu tempo lhe foi concedida: a ascensão à divindade. A glória. Ele seria um daqueles que seria honrado com o poder de destruir o vazio e proteger seu povo, de restaurar seu reino com o brilho dourado da glória celeste. A partir daquele dia, Rhaast e seus irmãos de farda, seus colegas da guerra, outros generais shurimanes como ele, se tornaram deuses.

Ao menos foi o que lhes foi prometido.

Ser um deus da guerra, entretanto, exigia abandonar aos poucos tudo o que ele conhecia sobre humanidade. Isso não estava escrito no contrato.

Não havia sono sem pesadelos ou visões da calamidade e o vazio sussurrava ao pé de seu ouvido, uma ameaça constante, pesada, que agora ele sentia muito mais perto do que antes. Agora eles não podiam matá-lo, não, mas ainda tinham o poder de destruir tudo aquilo que um dia ele valorizou e amou. E Rhaast lutou dia após dia contra os monstros do vazio, as criaturas da inexistência, e dia após dia derramou o sangue deles no chão. Semanas viraram meses, meses viraram anos, e, de repente, a guerra acabou. Mas ela não acabou dentro da mente de Rhaast e seus irmãos ascendidos.

"Se você baixar a guarda, eles vão voltar."

"Se você vacilar, as pessoas vão morrer como sua família um dia já morreu."

Família? O que significava família? Deuses não possuíam famílias... Famílias humanas morriam com o passar do tempo e seus descendentes se esqueciam deles, mas deuses não.

— Nós temos o poder para governá-los. É nosso direito! — Aatrox exclamou irritado. — Somos poderosos demais para ficar aqui brincando de servir mortais. Eles não deveriam mandar em nós, mas nós neles. É nosso direito divino, somos deuses, porra!

Os sinais da corrupção do vazio, marcas de uma guerra sangrenta que já não existia mais sequer na lembrança dos mortais escureceram a pele dele com tons avermelhados, placas escurecidas como escamas de couro tingiam manchas na pele, subindo pelos braços. A figura transcendida já não lembrava em nada o que antes havia sido um guerreiro humano, um shurimane como todos os outros.

Rhaast ainda lembrava que os efeitos de transcender envolviam abandonar a forma humana e abraçar o fato de que a conexão divina lhe daria uma nova aparência, algo como um animal antropomórfico, mas mesmo essa aparência prometida já vinha mudando; Aatrox agora parecia muito mais um demônio do que um anima. Ele mesmo, Rhaast, já parecia muito mais um demônio do que um deus — provavelmente por culpa do uso da hemomancia.

Ele olhou as próprias mãos enegrecidas com dedos que mais se assemelhavam a garras.

— Isso não é verdade, Aatrox. Nós nos tornamos ascendidos por escolha dos antepassados deles. Nós lhes devemos serviço.

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