Necrotério

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Eu não tinha pretensão de contar essa história para ninguém. Nunca. Já fazem mais de quinze anos e, na época, não achei que valesse a pena. Mas como meu tempo na terra está chegando ao fim, de alguma forma não vou suportar deixar essa memória cair em um limbo. Existe uma verdade aí, mas sou muito estúpida para entendê-la. Então vou deixar aqui. Talvez algum de vocês possa dar sentido a isso tudo.

Quando eu tinha vinte e poucos anos, fiz um curso de enfermagem. Olha, não foi fácil nem barato. Então, acabei tendo empregos e funções bem esquisitas no hospital para conseguir pagar minhas contas no final do mês. A maioria nem era tão ruim assim. Na maior parte do tempo envolvia bastante limpeza e trabalho de recepção.

Mas então, é claro, teve o necrotério.

Eu não gostava de trabalhar lá em baixo no necrotério. Francamente, não conheço muitas pessoas que tenham gostado. Mas o pagamento era ótimo em troca de pouco trabalho. Tudo que eu tinha que fazer era limpar e ficar de olho nas coisas quando não havia médicos presentes, algo que acontecia geralmente tarde da noite. Ocasionalmente, tinha que ajudar a mover um corpo de lugar, também. Mas isso não é nada com que eu não pudesse lidar.

Eu passava minhas noites lá em baixo, mais ou menos três ou quatro noites por semana. Limpava tudo e então me sentava para estudar, tendo certeza que tudo estava "nos trinques", como as freiras costumavam dizer.

Não era um trabalho difícil. Mas eu não gostava.

Veja bem, o necrotério ficava no porão, bem em baixo, depois de um longo corredor com luzes fracas. Você deve pensar que trabalhar em um necrotério faz com que você se lembre da morte e, bem, você está certo. Mas não é só isso. TODO o lugar parecia com a morte, ainda além dos corpos que regularmente abrigava. Pra mim, nunca pareceu normal. Achei que eu estava paranoica.

Mas uma noite foi provado que era muito mais que isso.

Ainda me lembro que era uma quinta-feira. Não sei o porquê disso se destacar tanto nas minhas memórias, mas simplesmente acontece. Era quinta-feira e eu estava sozinha no necrotério. A noite foi relativamente normal, apenas um corpo tinha sido levado pra lá. Me lembro que o médico que trouxe o corpo parecia no sei limite. Quando perguntei o motivo, ele disse:

"Quando esse cara chegou, estava perfeitamente bem, mas não parava de gritar que iria morrer. Achamos que ele era hipocondríaco ou que talvez estivesse tendo um episódio de surto psicótico. Quando estávamos prestes a sedá-lo, o corpo dele simplesmente... desligou. Foi como se tudo lá dentro tivesse parado. Morreu em poucos minutos. Não conseguimos reanimar. Ninguém faz ideia o que o matou."

Meu coração dava fisgadas enquanto eu ajudava a colocar o corpo na mesa. Estávamos com poucos funcionários no hospital naquele dia, então ele só seria examinado no dia seguinte, quando um médico estaria disponível para fazer a autópsia. Isso significava que eu teria que ficar com aquele cadáver ali a noite toda.

Bem, isso não me incomodava muito. Claro, era meio medonho, mas nada que eu já não tivesse lidado.

Então, quando o médico saiu, peguei meus livros e me debrucei sobre eles, esperando que isso dissipasse a tensão que ficara sobre o necrotério. Me vi procurando algo - qualquer coisa - que faltasse para limpar, mas o maldito lugar estava que era um brinco recém polido . Tentei me perder nas terminologias médicas dificílimas dos meus livros, mas por algum motivo, naquela noite em particular eu não conseguia me concentrar.

Talvez fosse minha intuição feminina. Ou quem sabe intuição mais... animalesca. De qualquer forma, eu podia sentir que algo estranho estava prestes a acontecer no necrotério.

É um clichê, mas aconteceu exatamente à meia-noite.

Começou com uma queda de energia. O único aviso que tive foi que, por um momento, as luzes piscaram antes da falta de energia, o silêncio que se seguiu era quebrado somente pelo crepitar das lampadas que estavam esfriando.

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