Não era a mesma Annie.

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     Encostei minhas costas no banco do bar e tomei um longo gole da bebida azeda que me falaram ser a melhor da cidade, mas eu não chegava nem lembrar o nome, apenas falei para o garçom trazer a melhor bebida da casa e ele me deu essa merda.

A imagem de Annie transformada não saiu até agora da minha cabeça, sendo levada para o cômodo de cima desacordada e a risada sem graça de Damon enquanto olhava para mim e para Mary sendo segurados pelos seus capangas.

— Você vai mesmo ficar aqui? — Mary ergueu uma sobrancelha e me encarou.

— Estou esperando ela. Não são nem 18 horas ainda. — Respondi.

— Fazem cinco dias e ela não deu sinal de vida, ela não é a mesma Annie, você sabe disso. — Era a milésima vez que ela repetia aquilo pra mim e eu pudi sentir sua alma doer todas as vezes.

— E você vai desistir dela assim? — A olhei sentada na minha frente e ela desviou o olhar imediatamente.

— Não acho que vale mais a pena, olhe a sua volta, a culpa foi toda nossa, foi minha, eu deveria tê-la protegido. Tudo isso não faz sentido, ela passou a vida toda acreditando em algo completamente diferente, e agora... — Ela olhou nos meus olhos e depois levantou da mesa sem completar a frase. — Estou indo embora amanhã, Jake, faça o que quiser. — Observei ela se afastando da mesa, passando por entre as mesas cheias de turistas conversando e rindo, por fim ela puxou a porta de vidro e atravessou a rua.

Minutos depois alguém abriu a porta, eu arregalei os olhos, era Annie olhando pra mim, veio até minha mesa e se sentou onde Mary estava, eu observei o semblante que havia mudado, parecia outra pessoa, e era outra.

— Boa noite — Falei baixo.

— Você mandou um recado para Damon pedindo que eu estivesse aqui, ele me disse que era um encontro. — ela colou as mãos sobre a mesa e as entrelaçou me fuzilando.

— Estamos em um encontro? — Perguntei sem pensar duas vezes no que isso poderia significar.

— Existe vários tipos de encontros, e esse com certeza não é um encontro amoroso.

— Eu realmente só queria saber como você está, mas me parece bem. — Ela piscou os olhos repetidas vezes, eles perderam o verde dando lugar para um castanho alaranjado, e levou uma das mãos ao queixo como quem estava pensando no que eu acabei de falar.

— Mas quem é você? Por que saber se estou bem? Estou ótima, obrigada.

— É alguma piada? — Perguntei.

— Não tenho senso de humor. — Mais fria impossível.

— Você tem sim, desde pequena. Sempre teve. — Me inclinei para mais perto da mesa, olhando diretamente em seus olhos e esperando que ela começasse a rir de mim.

— É a primeira vez que vejo você na minha vida. — Ela continuou com toda certeza.

— Não, não é. Me diga, onde você nasceu?

— Aqui.

— Quem são seus pais?

— Quando eu estiver sabendo disso prometo que falo pra você. Você deve estar me confundindo com outra pessoa, melhor eu ir embora.

— Não pode ser. Mas como sabia que era eu? Você veio direto até minha mesa,  Annie.

— Você é o único mensageiro daqui, não foi tão difícil. — Ela parecia tão calma e ao mesmo tempo irônica e fria que senti vontade de sacudi-la até que se lembrasse de mim.

— O que eles fizeram com você? — Ela estava completamente perdida, escondia isso, mas eu podia ver.

— Eu tenho mesmo mais o que fazer, me desculpe. — Ela levantou e eu fiz o mesmo, precisava fazer alguma coisa, precisava vê-la novamente.

— Annie, espera. Posso encontrar você outro dia? Eu vou te explicar algumas coisas.

— Não acho que Damon vá colaborar. — Ela caminhou devagar e eu a seguir até sairmos pela porta.

— Ele não precisa saber, vou esperar você amanhã quando escurecer, no canal — Ela continuou caminhando. — Por favor, eu preciso falar com você — E então ela desapareceu, como se nunca antes estivesse realmente ali comigo. — Sobre seus pais... — Sussurrei continuando, mas ela já havia ido embora.

Duas faces do amorOnde histórias criam vida. Descubra agora